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Obra do padre e matemático Francisco de Melo, figura «distintíssima da cultura portuguesa», ganha prémio de tradução

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Obra do padre e matemático Francisco de Melo, figura «distintíssima da cultura portuguesa», ganha prémio de tradução

Henrique Leitão e Bernardo Mota receberam hoje, em Lisboa o Prémio de Tradução Científica e Técnica em Língua Portuguesa pela passagem de latim para português do livro "Obras matemáticas", do padre Francisco de Melo.

A distinção, no valor de cinco mil euros, «visa promover a língua portuguesa como suporte de comunicação científica e técnica, distinguindo traduções de qualidade que tenham contribuído para o enriquecimento e rigor da terminologia científica e técnica», explica a página da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa instituiu o prémio em 2013.

Francisco de Melo (c. 1490-1536) «foi o mais importante matemático português da geração anterior a Pedro Nunes. Depois de estudos na Universidade de Paris, onde o seu talento científico logo se destacou, regressou a Portugal, vindo a ocupar lugares de grande relevo na vida científica, cultural e eclesiástica do país», lê-se no sítio da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP).

O primeiro volume das "Obras matemáticas", coeditado em 2014 pela BNP e o Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, inclui uma edição crítica do texto latino, baseada nos dois manuscritos conhecidos: o original, localizado na biblioteca Stadtarchiv Stralsund, na Alemanha, e uma cópia de finais do século XVI e inícios do século XVII, guardada na Biblioteca Nacional.

A edição, que também compreende uma tradução portuguesa brevemente anotada, «confirma a relação de intelectuais portugueses com o humanismo matemático europeu» e «pretende divulgar o conteúdo do investigador português entre especialistas e público geral», refere a mesma fonte.

O segundo volume, a publicar «proximamente», apresentará «o indispensável estudo pormenorizado destes textos», adianta a BNP, acrescentando que «o objetivo é mais amplo do que dar a conhecer Francisco de Melo; pretende-se também realçar a sua importância no âmbito da história da ciência e da cultura portuguesa».

Oferecida inicialmente em 1521 ao rei D. Manuel I, a obra tem quatro textos: «Um sobre o olho e as propriedades da visão; outro sobre a ótica de Euclides; um terceiro que é um comentário à catóptrica de Euclides (a ciência que estuda a reflexão dos raios luminosos em espelhos); e o último sobre hidrostática, atribuído a Arquimedes», explica o jornal "Público".

Perdido durante séculos e reencontrado no Arquivo da Cidade de Stralsund, o códice com iluminuras, figuras geométricas na parte lateral das folhas e textos matemáticos manuscritos, constituiu um agradecimento ao monarca pelo financiamento concedido.

Filho do alcaide-mor de Olivença, Francisco de Melo nasceu em Lisboa, tendo sido enviado para estudar na Universidade de Paris por D. Manuel I, que o subsidiou para o efeito.

Formou-se em matemática, filosofia, artes e teologia, De regresso à capital portuguesa, após a ordenação sacerdotal, o rei D. João III nomeia-o membro do seu conselho e mestre de matemática dos infantes, bem como capelão do paço. Com estes encargos cessam as pesquisas do clérigo, apesar da escassez de matemáticos em Portugal.

Foi reitor da Universidade de Lisboa e primeiro bispo da recém-criada diocese de Goa, na Índia, missão que não chegou a exercer por ter morrido, em Évora, antes de embarcar.

Francisco de Melo é uma «personalidade distintíssima da cultura portuguesa», sublinha Henrique Leitão, Prémio Pessoa 2014, em nota enviada hoje ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

«A partir de agora não se pode falar da história da ciência [portuguesa] do século XVI sem o nome de Francisco de Melo», afirmou o historiador ao "Público", aquando do lançamento das "Obras matemáticas", em março de 2015, acrescentando que «é toda uma nova figura de primeiro plano».

Henrique Leitão realça que o sacerdote secular «era reputado em Paris e teve sempre fama de grande matemático», numa cidade que era então um centro científico: «Lá, Francisco de Melo tinha acesso a muitos mais manuscritos científicos do que em Portugal. Há um núcleo de matemáticos interessantes em Paris com quem teve contacto».

Bernardo Mota assinala, por seu lado, que «Francisco de Melo é o primeiro autor do Renascimento a comentar um texto de Arquimedes», cuja compreensão não estava ao alcance de todos.

Enquanto reitor da Universidade de Lisboa, é possível que Francisco de Melo tenha contactado com Pedro Nunes, que se notabilizou na Matemática, domínio no qual alcançou influência internacional.

«Lisboa era minúscula e a minha especulação é que [Pedro Nunes] conheceu Francisco de Melo, os seus trabalhos, discutiu com ele, começou a estudar Matemática e transformou-se num matemático», sugere Henrique Leitão, para quem «arejar as personalidades históricas é uma coisa muito importante».

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 18.12.2015

 

 

 
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«O objetivo é mais amplo do que dar a conhecer Francisco de Melo; pretende-se também realçar a sua importância no âmbito da história da ciência e da cultura portuguesa»
Formou-se em matemática, filosofia, artes e teologia, De regresso à capital portuguesa, após a ordenação sacerdotal, o rei D. João III nomeia-o membro do seu conselho e mestre de matemática dos infantes, bem como capelão do paço
«A partir de agora não se pode falar da história da ciência [portuguesa] do século XVI sem o nome de Francisco de Melo»
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