Pintura
A obra sensorial de Serge Poliakoff
O «conhecimento íntimo da arte dos ícones» oferece uma das chaves do mistério da pintura do russo Serge Poliakoff (1906-1969), que «reclama uma relação física e espiritual com o observador», observa Dominique Gagneux, comissário da exposição “Poliakoff, o sonho das formas”.
Orgânica, vibrante, interior. A obra de Poliakoff ressoa, mobiliza os sentidos. Esta “interatividade” instaurada entre a sua pintura e aquele que a vê corresponde à preocupação dos artistas da abstração integral.
Digno representante da “Nova Escola de Paris”, dos anos pós-guerra, Poliakoff criou uma arte singular entre contemporaneidade e intemporalidade.
A sua infância russa é marcada por ícones longamente contemplados nas igrejas. Para Dominique Gagneux, a herança desta tradição bizantina é evidente na arte de Poliakoff.
«O ícone, que tem uma função litúrgica, não é apenas uma imagem: faustosa e ascética (…), ela é antes de tudo uma presença. A obra sensorial de Poliakoff adquire indiscutivelmente as qualidades próprias do ícone, concebido para que a alma escute, veja, respire e aprecie.»

Em primeiro lugar, pela forma. As composições, que parecem repetir-se incessantemente, convidam à interioridade. Os elementos entretecem-se e irradiam em torno de uma forma central, espécie de «chave mestra», permitindo uma leitura intimista.
«Quando um quadro é silencioso, isso significa que é conseguido. Alguns dos meus quadros começam no tumulto. São explosivos. Mas só fico satisfeito quando se tornam silenciosos. Uma forma deve escutar-se, e não ver-se» (Poliakoff, 1956).

Depois, pela matéria. A técnica de Poliakoff é a da pintura do ícone. Sobrepondo as camadas de pigmentos puros até obter o tom certo, obtém uma superfície resplandecente, animada de uma luz interior. A sua qualidade orgânica torna a pintura quase móvel, o jogo das texturas cria um contacto físico com o espectador.
«A afirmação da matéria permite negar a sua própria materialidade, substituindo-a por uma realidade transcendente, uma dimensão mística (…)» (D. Gagneux).
Por fim, a cor. As associações fora do comum de vermelhos e laranjas enérgicos, azuis e verdes misteriosos, amarelos resplandecentes, conseguem estimular os nossos sentidos.
Quanto mais os anos passam, mais as suas telas tendem para o monocromático. Este minimalismo é a tradução de uma espiritualidade em crescendo.
As 70 pinturas e as numerosas obras em papel realizadas em 1936 e 1969 são completadas por projetos de tecidos, vitrais e cerâmicas, que permitem descobrir as relações que Poliakoff mantinha com as artes decorativas.

















In Narthex
25.11.13









