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Os retornados e a solidariedade da Igreja católica

Imagem Exposição "Retornar" | © Câmara Municipal de Lisboa

Os retornados e a solidariedade da Igreja católica

«Começa o povo português a dar-se conta da gravidade do problema dos retornados, assim conhecidos correntemente, embora com mais propriedade os devêssemos considerar refugiados. Aos milhares, fugidos à guerra que tem envolvido o processo de descolonização de algumas das ex-colónias, estão a entrar no País em lamentáveis circunstâncias. Em grande número, chegam na maior penúria e com traumatismos de toda a ordem. As vicissitudes da fuga e a longa espera nos pontos de partida e chegada, em precárias condições alimentares e higiénicas, abalaram a saúde física e moral de muitos, especialmente crianças. A falta de perspetivas quanto a trabalho, habitação e meios de sobrevivência, é, para não poucos, motivo de desalento e desespero. Revolta-os a miséria que injustamente recaiu sobre eles e sobre as terras que deixaram.»

Foi nestes termos que o Conselho Permanente dos bispos de Portugal se referiu ao regresso de centenas de milhares de portugueses ao seu país natal na sequência do processo de independência das antigas colónias, desencadeado após a revolução de 25 de abril de 1974.

Em documento datado de 27 de outubro de 1975, há 40 anos, o Conselho Permanente do Episcopado questionava: «Como conseguir a integração social e profissional de tão elevado número de pessoas? Como assegurar casa a tantas famílias, num País com graves deficiências habitacionais? Como dar trabalho a tantos braços, a juntar a uma multidão de desempregados? Como fazer sujeitar à débil e caótica economia nacional um súbito agravamento de gastos com tanta gente a quem é impossível ganhar o pão de cada dia?».

«Compete a todo o povo dar a sua colaboração generosa, que começa pela aceitação consciente e voluntária do acréscimo de austeridade que a presença dos retornados necessariamente implica. E estamos certos de que, no geral, isso acontecerá, tanto mais que os retornados são, na maioria, originários das zonas mais rurais e cristãs do País, onde as pessoas sabem partilhar com os mais carecidos mesmo o pouco que possuem, por exigências da vida, sentido da vizinhança e imperativo evangélico», refere o texto.

Foi então criada uma comissão coordenadora da ajuda católica, que, numa primeira fase, «procurou assegurar uma colaboração eficiente na linha do primeiro acolhimento e alojamento provisório de refugiados», em ligação com as estruturas do Estado.

«Utilizando edifícios postos à disposição para esse fim, organizou vários programas, mobilizando equipas de voluntários e procurando o necessário apoio técnico e financeiro. Os primeiros cinco centros postos a funcionar, respetivamente no Seminário dos Olivais, no Colégio Marista, de Carcavelos, no Palácio Relvas, na Quinta de Santa Clara à Ameixoeira e no Seminário de Almada, têm alojamentos para 1100 pessoas em boas condições. Até à data, passaram por eles 3764 pessoas.»

A nota dava conta de que três outros centros estavam a ser «rapidamente preparados num edifício da Fundação D. Manuel II e em mais duas casas particulares, como colégios, seminários, residências paroquiais, famílias, etc.».

«Por sua vez, a Cáritas Portuguesa tem distribuído leite vitaminado e outros alimentos de recurso no terminal da ponte aérea e a alguns grupos de refugiados angolanos instalados em bairros e prédios de Lisboa e arredores; e a Cáritas de Lisboa organizou um roupeiro central que já atendeu vários milhares de pessoas», realçava o episcopado.

Os bispos sublinhavam também a «generosidade dos cristãos» do país e do estrangeiro para os refugiados que regressavam, num total de 1360 contos, aproximadamente 6800 euros, «tendo partido do Santuário de Fátima os mais vultuosos: 347 contos do ofertório extraordinário da peregrinação de Agosto e 250 do próprio Santuário», a que se juntaram apoios internacionais da Cáritas EUA, Cáritas Internacional e Conselho Pontifício Cor Unum.

«Este movimento de solidariedade cristã permite esperar que a contribuição da Igreja Católica para a solução do problema dos retornados seja também substancial na segunda fase das operações, relativa à sua mais definitiva instalação e integração sócio-profissional. Os esforços a desenvolver com este objectivo estão a incidir no sentido de alguns países facilitarem a imigração de retornados, e de dar apoio às iniciativas locais, esparsas pelo nosso país (...) Alguns programas, sobretudo promovidos pelas Cáritas de dioceses do Norte e Centro, estão já em estudo ou início de execução», prosseguia o documento.

Os prelados dirigiam «uma palavra (…) de simpatia, conforto e esperança aos refugiados, vítimas de uma descolonização necessária, mas levada a efeito com tão infelizes e desastrosas consequências».

O episcopado também apelava «à compreensão, ao acolhimento cordial e à solidariedade inteligente e ativa dos portugueses residentes, para os quais os refugiados ultramarinos são, neste momento, "o próximo" da parábola evangélica do bom samaritano. Que aqueles que possuam bens, casa disponível ou duplo trabalho, saibam partilhar com eles estas formas de riqueza».

Às «Autoridades portuguesas», a Conferência Episcopado pedia que tudo fizessem para «atender, na medida do possível, as justas reclamações dos retornados. Que, entre outras dessas reclamações, lhes possibilitem a transferência de ao menos parte dos bens que deixaram nas terras onde residiam e lhes alcancem facilidades de emigrar para países onde possam refazer a vida».

O tema dos retornados é o objeto da exposição "Retornar – Traços de Memória", que «assinala os 40 anos do momento que ficou conhecido por retorno de nacionais à antiga metrópole na sequência dos processos de descolonização das colónias portuguesas em África, e que conheceu o seu auge com a ponte aérea de 1975».

A mostra com entrada gratuita, que decorre até 29 de fevereiro, em Lisboa, convida «a um movimento que permita criar pensamento, reflexão e disponibilidade para olhar as tensões, contradições e perplexidades que os acompanharam».

Na Galeria Av. da Índia e no Padrão dos Descobrimentos, onde se realizarão debates e junto ao qual foram instalados alguns contentores, evocando as dezenas que foram depositados em vários espaços junto ao rio Tejo aquando do regresso da ex-colónias dos retornados, a iniciativa «apresenta olhares cruzados, originários de diferentes campos da arte, da literatura, da antropologia, da história, da política, para pensar e refletir» sobre a memória «a partir do seu lastro no tempo presente».

 

 

Rui Jorge Martins
Vídeo: Câmara Municipal de Lisboa
Publicado em 22.11.2015

 

 

 
Imagem Exposição "Retornar" | © Câmara Municipal de Lisboa
«Compete a todo o povo dar a sua colaboração generosa, que começa pela aceitação consciente e voluntária do acréscimo de austeridade que a presença dos retornados necessariamente implica. E estamos certos de que, no geral, isso acontecerá, tanto mais que os retornados são, na maioria, originários das zonas mais rurais e cristãs do País, onde as pessoas sabem partilhar com os mais carecidos mesmo o pouco que possuem»
«Este movimento de solidariedade cristã permite esperar que a contribuição da Igreja Católica para a solução do problema dos retornados seja também substancial na segunda fase das operações, relativa à sua mais definitiva instalação e integração sócio-profissional»
Às «Autoridades portuguesas», a Conferência Episcopado pedia que tudo fizessem para «atender, na medida do possível, as justas reclamações dos retornados. Que, entre outras dessas reclamações, lhes possibilitem a transferência de ao menos parte dos bens que deixaram nas terras onde residiam»
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