Impressão digital
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

Padre António Vieira: «Ninguém antes dele, ninguém depois dele fez tanto com as palavras, fez tanto pelas palavras»

Com o compromisso da publicação, até 2014, dos 30 volumes que passarão a constituir a Obra Completa do Padre António Vieira, um grupo de cerca de trinta investigadores, orientados por José Eduardo Franco e Pedro Calafate, deitou mãos a tal empresa hercúlea.

Nunca o conjunto de Cartas (cerca de 500), Sermões (aproximadamente 200) e Profecias (três obras: “História do Futuro”, “Esperanças de Portugal” e “Clavis Prophetarum” - a “Chave dos Profetas”, em que se defendeu do ataque da Inquisição, que o manteria preso por causa das suas reflexões acerca do Quinto Império) fora integralmente publicado, e o que o empreendimento promete - e é já garantia nos três volumes este mês dados à estampa - é uma edição rigorosa e crítica, baseada em investigação aturada que não se limitou aos materiais anteriormente inventariados e compilados mas inclui documentos inéditos, a que se junta a tradução dos escritos em latim que nunca tinha sido feita integralmente. Para mais, anuncia-se um “Dicionário Multimédia” e a iniciativa de uma seleta que possa servir de ‘vulgata’ do pensamento vieirense e que se publicará em oito línguas.

No prefácio incluído no I volume, António Sampaio da Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, lembra: «São as palavras que nos prendem. São as palavras que nos libertam. A vida resume-se à procura da palavra que nem sempre encontramos. Em português, as palavras são Vieira. Ninguém antes dele, ninguém depois dele fez tanto com as palavras, fez tanto pelas palavras. Sem Vieira, não teríamos a língua que temos. Sem Vieira, que seria da língua portuguesa no Brasil? Nesse difícil século XVII da nossa história, Vieira abriu e espalhou a língua portuguesa, fez dela cultura, marcou o seu lugar no mundo.»

ImagemPortinari

Exatamente nesse tão difícil século XVII nosso, Vieira marcou muito mais do que o primacial destino na expansão da língua, por ter sido exímio orador e pensador rigoroso, sempre sob a capa omnipresente da teologia - é importante ter presente que Vieira era um jesuíta, e nessa condição existiu e agiu, se bem que com um aguçado espírito em que o seu génio de arguto diplomata se desenvolveu também, na selva brasileira, entre os índios, na corte portuguesa, especialmente com D. João IV, ou em Roma, junto ao Papa.

Nessa perspetiva, abundam nos seus sermões, por exemplo, a crítica social e as considerações políticas estratégicas. Mas desenvolveu ainda, no afã ditado por um imenso saber, invulgar na época, a retórica, o direito, a filosofia, a geografia e a história, a ética e mesmo a antropologia antes do tempo.

Numa aturada Introdução Geral, os dois coordenadores científicos lembram a incomensurável dimensão vieirense mas também a inevitável conduta religiosa, «pensando o cristianismo em todas as esferas da vida, espírito e corpo, indivíduo e sociedade, reino e império, sem perder nunca o horizonte da eternidade. Foi também necessário percorrer as etapas da civilização e da história, pôr em diálogo os antigos e os modernos, erguer-se sobre os ombros dos maiores vultos da antiguidade e, assim, ver mais do que eles, embora não contra eles, pois até à descoberta do sentido último da história seria múltipla a ciência dos homens, para exercício espiritual dos mesmos e para regozijo de Deus». Exato perfil de António Vieira, este. E certamente que também indicativo da filosofia que norteia o desempenho da empresa ‘editorial, cuja dimensão última não se deseja crítica.

Imagem Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro

O percurso de Vieira leva a múltiplas viagens e a preocupações diversas. Entre Brasil e Portugal, pregando diante de colonos hostis e de gentios que defendia obstinadamente, ou feito pregador régio em 1644, tanto se coloca ao lado dos índios escravizados como se lança em diatribes de conteúdo político em defesa do rei, mas principalmente do país, nos conturbados tempos em que a nossa fragilidade era mais do que evidente, no imediato da reconquista da independência, após a era filipina.

Nesta fase, é prevalecente a inflamada retórica política, com descoberto impacto direto sobre a realidade do país. E se as questões da política real estão presentes, outro discurso persistente aparece nos interesses de Vieira, quando declara luta aos procedimentos da Inquisição (que virá a persegui-lo e a prendê-lo), que denuncia ao próprio Papa, numa linha que pretende inteligentemente acabar com a distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos, o que permitiria o regresso dos judeus expulsos do reino, aproveitando este, entretanto exaurido pela gestão castelhana, a riqueza desses súbditos.

Nesse momento ingente, mais do que confessor e pregador régio, Vieira é o amigo e confidente do rei e seu avisado conselheiro. Divulga então as linhas mestras do Quinto Império, ideal utópico e profético com que, pregador, seduz ouvintes e mobiliza vontades numa sociedade dividida e ainda em estupor.

Imagem

Além da filosofia e da força, quase vidente, de um discurso, anuncia para breve o “tempo oportuno” em que a paz, o amor espiritual, a abastança e a justiça reinarão no mundo. Rematava Guilherme de Oliveira Martins, num artigo de 2008 publicado no “Jornal de Letras”: «Seria nesse império que se reuniriam todos os povos sob a égide do Vigário de Cristo e sob um mesmo governo temporal do rei de Portugal...»

Antes, Oliveira Martins lembrava que «o Quinto Império não era um sonho desligado da realidade nem uma ilusão centrada no território da loucura, era uma tentativa de regresso à epopeia de Quinhentos, com um repensamento estratégico que retirasse lições dos erros cometidos», que permitisse não só uma coesão interna no país como um posicionamento que lhe facultasse, no conserto das nações, uma presença segura nos novíssimos equilíbrios europeus, quer no que toca ao jogo entre potências militares como quanto ao conflito religioso.

Quatro séculos depois do seu nascimento, este visionário ainda nos interpela com atualidade, vituperando contra a miséria dos políticos, contra as agressões esclavagistas, contra a ignomínia das lutas e das injustiças religiosas. E, a esta distância, continua a fazer pela língua o que os governantes modernos são incapazes de desencadear.

Imagem

Margarida Vieira Mendes, saudosa especialista em António Vieira (cujo livro, incontornável, “A Oratória Barroca de Vieira” - Caminho, 1989 - continua esgotado... não seria boa altura para o reeditar?), escrevia, num artigo publicado na revista “Semear”, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro: «Vieira dramatizou a vida com os discursc5s e os discursos com a vida, reforçando uns e outros com a inspiração e projeção nas narrativas bíblicas, aplicadas a profetas e apóstolos - função dupla que sempre interpretou como fazendo parte da mesma causa. A conversão universal e o estabelecimento do Quinto Império e de uma Igreja única no mundo não é apenas uma ideia ou uma crença: tornou-se para Vieira um conjunto de ações biográficas concretas e uma complexa atividade discursiva. Para o jesuíta, o pregador é um dos agentes principais do advento desse império: exorta o rei, futuro imperador, como profeta, converte os súbditos, judeus e gentios, como missionário, e a todos convence, como orador.»

Tendo por instituição promotora a Universidade de Lisboa e por instituições científicas coordenadoras o Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da UL e o Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes, a iniciativa apenas pôde ser realidade com o mecenato da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

Pedro Santana Lopes, seu provedor, contactado pelo Expresso, justificou essa decisão pela ligação histórica do jesuíta à Igreja de São Roque, pertença da SCML, e «também pelo facto de este ser um projeto de valor histórico, literário e pedagógico inestimável», adiantando que o padre António Vieira é «uma personagem sem par na nossa cultura e na expressão da língua portuguesa no mundo e uma figura que se cruza com o destino da Santa Casa, dos sermões que fez na Igreja de São Roque - os célebres Sermões das 40 Horas ou de São Roque - aos valores jesuítas que a instituição herda».

 

 

 

António Loja Neves
In Expresso (Atual), 13.4.2013
15.04.13

Redes sociais, e-mail, imprimir

Capa

 

Ligações e contactos

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página