Paisagem outonal
(Da janela e além dela...)
Apreciar a quantidade e a qualidade de vida existente na imaginação do real que nos circunda é um ato raro. O espaço e o tempo não são indiferentes a essa apreciação. Não é apenas um exercício descritivo mas dialético, tensivo. De alguma maneira vemos e sentimos as coisas a partir de um ponto de vista. Um quadro pintado a dois tempos: impressão (coisas/lugares/pessoas) e expressão (reflexão/afeto/ato) entrelaçam-se sem paralelismos mas de mútua afetação. Um exercício da imaginação capaz de construir realidade, ou melhor um outro modo de olhar a realidade e de com ela interagir. Ao fazer esse exercício, tecido de palavra/metáfora/imaginação e de imagem e realidade, do local onde nós encontramos, perceberemos que há muita coisa que é dom, que não depende dos nossos feitos e dos nossos estados emocionais ou mentais. Há muita coisa que é recebida de graça e com graça. Saber receber o que é dado é também um dom.
Da janela vê-se o orvalho que se levanta com o amanhecer. O nevoeiro que a madrugada desperta paulatinamente. As tonalidades das cores das ramagens e das folhagens pingadas são tonalidades afectivas que despertam os sentidos que a noite adormeceu. O sol entreaberto mostra a severidade de um tempo acinzentado.

Da janela o olhar sente a nostalgia presente deste espaço, montanhoso, onde existe uma belíssima planície, atravessada por um riacho de leito estreito. O cair da água emite uma grave sonoridade. Aqui, outrora, as pessoas, em moinhos movidos pela água e pela força calejada das mãos humanas, produziam a farinha que colocava o pão em cima das mesas das casas feitas de argamassa e de madeira. Outrora sim, agora já não. Mudam-se as vontades, mudam-se os tempos!

Ver pela janela perscruta-se a beleza das cores e a pureza do ar que se inala. Tudo existe de um modo tão natural e ao mesmo tempo tão complexo! O castanho claro outonal dos carvalhos é belo se acompanhado pela verdura das folhagens, da erva dos campos ou dos eucaliptos. A claridade dos raios de luz que caiem sobre o orvalho é como um espelho límpido, favorecendo a claridade das folhas que se apegam aos ramos das árvores. Coisa que menos existe no outono é monocordismo e monocromatismo.

Porém, entre a janela e o espaço físico da paisagem, há uma vidraça que filtra o acto de ver e sentir a realidade. De que ponto se imagina tudo isto? Qual é o ponto fuga que dá a ver esta tonalidade tão variada? Todos temos um ponto de fuga visivo e desse depende muito a nossa visão das coisas. O espaço físico encontra correspondência no espaço psíquico do nosso corpo que vê sentindo e sente vendo as ramagens viçosas e agrestes que o ciclo natural das coisas dá à luz. A terra esconde nas suas profundezas muita vida impossível de ver à superfície de um olhar físico!

O vento faz remexer a zona alta das coisas. Tudo o que é alto sofre muito com o vento! A solidez das raízes segura aqueles que ao vento semeiam para colher na bonança. Mas no outono, passagem para a acridez do inverno, não se semeia: pensa-se, vê-se e sente-se. A nossa imaginação é pintada com estas cores das emoções estacionais. Em parte, é a geada invernal que faz a primavera frutificar, matando os bichos que consomem os recursos férteis da terra. Até os bichos são férteis se frutificados pela geada do inverno.

A vida pulsa nos campos dispostos em socalcos ou balados onde crescem as silvas que no verão dão amoras selvagens. Elas são alegria dos pássaros que as comem e das crianças que se divertem a apanhá-las. Ouvem-se, ao longe, os chocalhos dos animais que pastam nos campos fertilizados pela abundância da água que o riacho transporta. O toque dos chocalhos é o ritmo com que os animais ruminam no pasto fértil do sopé da planície.
É agradável sentir o silêncio dos chocalhos no pousio dos animais. Até estes sentem necessidade de pousar e de repousar! O som dos chocalhos é intervalado pelo toque dos sinos que vem da torre da igreja. Não obstante, e surpreendentemente, a correspondência não é a mesma: nesta aldeia as pessoas deixaram de corresponder ao toque dos sinos, e sabe-se lá porquê!?
Esta ordem das coisas imaginada é real. Será a mesma coisa ver por detrás de uma janela ou ver além dela? Não, não é. Detrás da janela vê-se mas não se sente o odor que o vento da montanha traz consigo. O que um citadino snobe vê como resultado de causa-efeito, um montanhês vê-la-á como graça, como força e como destino. Vê a terra como húmus, onde as ‘coisas com o mesmo odor devem estar juntas’. Vigora a lei da naturalidade que ordena as coisas e as dispõe para a comunhão.

Tal como uma boa parte das derivações e sucessões, nós, os derivados do húmus, perdemos essa naturalidade e voltamo-nos para a artificialidade da representação dos papéis. Perdemos a correspondência entre a naturalidade criatural e naturalidade das relações. Mas à terra todos voltaremos um dia, independentemente do poder ou do arsenal tecnológico que possamos mobilizar em prol da nossa salvação! Este regresso não é o fim mas poderá ser o recomeço de muita coisa. É possível lá voltar, se mobilizarmos a nossa perceção da vida para lá das correntes que se apressam a menosprezar a ruralidade.
Esta invocação não é nem bucólica nem pastoril. É um refúgio do tempo presente. Pensar é já um refúgio não-físico! A estrada que atravessa a aldeia é a estrada de acesso aos diversos modos de habitar o espaço. São as diversas tonalidades da existência, das suas emoções e razões, do tom das escolhas e decisões que nos acompanham na vida e além dela. Por detrás de uma janela a sonoridade das coisas é inaudível, o odor da terra estranho à sensibilidade das narinas e a solidez das coisas opaca ao toque das mãos. Entre um sim e um não, aproximação e distância, dentro e fora, teremos sempre de escolher de que lado queremos ver e sentir a vida pulsante do quotidiano.
É necessário ter vontade suficiente para ver e sentir a beleza das coisas fora da janela, da zona de conforto e da protecção da vidraça dupla. Ter frio dentro de casa é uma sensação diversa do frio sentido fora de portas. Antigamente as janelas eram frágeis e pelas frinchas delas tudo passava; o agradável e o desagradável; o rumor e o silêncio; o sopro e a turbulência… As de agora, as janelas, são como castelos bem muralhados, levantados pelo medo de invasão e de devassidão.

Ir além da janela! É preciso vontade quanta baste para pegar num punhado de terra, de tocá-la e cheirá-la. Neste ato talvez possamos compreender o nosso frágil e comum húmus de humanus. Como aceitar na morte um punhado de terra sobre o nosso corpo se em vida não a tocarmos? Não fazer a experiência do punhado de terra torna tudo bastante incompreensível e inaceitável; a vida e a morte; não só o presente mas também o futuro, essencialmente esse.
João Paulo Costa
© SNPC |
07.01.14









