Papa Francisco
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

Papa Francisco aos desempregados: clamar por trabalho é uma «oração necessária»

O papa Francisco deslocou-se este domingo à cidade de Cagliari, na ilha italiana da Sardenha, tendo centrado a sua primeira intervenção na «tragédia» do desemprego, causada pelo «deus dinheiro».

Visivelmente emocionado pelo testemunho de três desempregados, Francisco falou de improviso, tendo entregado o discurso previamente escrito ao bispo local. Excertos da intervenção, extraídos da página da Rádio Vaticano:

«Com este encontro, desejo sobretudo exprimir a minha proximidade especialmente em relação às situações de sofrimento: a muitos jovens sem trabalho, às  pessoas com subsídio de desemprego ou precários, aos empresários e comerciantes que se esgotam para seguir em frente.»

«[O desemprego] é uma realidade que conheço bem pela experiência que tive na Argentina. Não a conheci, mas a minha família sim: o meu pai, jovem, foi para a Argentina cheio de ilusões por realizar na América. E sofreu a terrível crise dos anos 30. Perderam tudo. Não havia trabalho. E na minha infância falavam desse tempo em casa. Não o vi, porque ainda não tinha nascido, mas ouvi falar deste sofrimento. Conheço-o bem.»

«Devo dizer-vos: "Coragem!" Mas estou também consciente de que devo fazer tudo para que esta palavra, "coragem", não seja uma bela palavra passageira. Não seja apenas um sorriso de empregado cordial, um empregado da Igreja que vem e vos diz: "Coragem!". Não! Não quero isso! Quero que esta coragem venha de dentro e me leve a fazer tudo, como pastor, como homem. Devemos enfrentar com solidariedade entre vós - e também entre nós, todos com solidariedade e inteligência - este desafio histórico.»

«Esta é a segunda cidade que visito em Itália. É curioso: ambas são ilhas... Na primeira [Lampedusa] vi o sofrimento de tanta gente que procura, arriscando a vida, dignidade, pão, saúde: o mundo dos refugiados. E vi a resposta daquela cidade que, sendo ilha, não quis isolar-se e recebe-os, fá-los seus. Dá-nos um exemplo de acolhimento: sofrimento e resposta positiva.»

«Aqui, nesta segunda cidade, nesta segunda ilha que visito, também encontro sofrimento. Um sofrimento que, como um de vós disse, "enfraquece-te e acaba por roubar-te a esperança". Um sofrimento - a falta de trabalho - que te leva - desculpai se sou algo forte, mas digo a verdade - a sentires-te sem dignidade. Onde não há trabalho, falta a dignidade.»

«[O desemprego] não é apenas um problema da Sardenha - mas é forte aqui -, não é um problema apenas da Itália ou de alguns países da Europa; é a consequência de uma escolha mundial, de um sistema económico que conduz a esta tragédia; um sistema económico que tem como centro um ídolo, que se chama dinheiro.»

«Deus quis que no centro do mundo não esteja um ídolo, mas o homem, o homem e a mulher, que com o próprio trabalho fazem avançar o mundo. Mas agora, neste sistema sem ética, ao centro está um ídolo e o mundo tornou-se idólatra deste "deus dinheiro".»

«Para defender este ídolo amontoam-se todos ao centro e caem os últimos, caem os idosos, porque neste mundo não há lugar para eles. (...) E caem os jovens que não encontram o trabalho, a dignidade. (...) Este mundo não tem futuro.»

«Esta é a oração que clamais: "Trabalho", "trabalho", "trabalho". É uma oração necessária. Trabalho quer dizer dignidade, trabalho quer dizer levar o pão para casa, trabalho quer dizer amar!»

«Devemos dizer: "Não queremos este sistema económico globalizado, que nos faz tanto mal". No centro devem estar o homem e a mulher, como Deus quer, e não o dinheiro.»

«Eu escrevi algumas coisas para vós, mas olhando para vós vieram-me estas palavras. Entregarei ao bispo estas palavras escritas, como se tivessem sido ditas. Mas preferi dizer-vos o que vem do coração, olhando-vos neste momento.»

«Olhai: é fácil dizer "não percais a esperança"... Mas a todos, a todos vós, a quem tem trabalho e a quem não tem, digo-vos: "Não deixeis que vos roubem a esperança! Não deixeis que vos roubem a esperança!" (...) A esperança não é de um só: a esperança, todos nós a fazemos! Devemos sustentar a esperança, todos, todos vós e todos nós que estamos longe. A esperança é uma coisa vossa e nossa. É uma coisa de todos.»

«O Senhor convida-nos a ter a sagacidade da serpente, mas também a bondade da pomba. Devemos ter sagacidade e chamar as coisas pelo próprio nome. Neste momento, no nosso sistema económico, no nosso sistema globalizado de vida, há um ídolo no centro, e isto não pode ser. Lutemos todos juntos para que ao centro, pelo menos da nossa vida, estejam o homem e a mulher, a família, todos nós, para que a esperança possa avançar.»

«[Nesta oração] eu direi o que vem do coração, e vós, em silêncio, orai comigo: (...) Senhor, falta-nos o trabalho. Os ídolos querem roubar-nos a dignidade. Os sistemas injustos querem roubar-nos a esperança. Senhor, não nos deixeis sós. Ajudai-nos a ajudarmo-nos entre nós, fazendo-nos esquecer um pouco o egoísmo para sentir no coração o "nós", nós, povo, que quer avançar. Senhor Jesus, a ti não faltou o trabalho; dai-nos trabalho e ensinai-nos a lutar pelo trabalho, e abençoai-nos a todos. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Muito obrigado, e rezai por mim.»

Na raiz da crise, que «não é só económica, mas também ética, espiritual e humana», está «a traição do bem comum» por parte de pessoas singulares e grupos de poder, pelo que se impõe «tirar centralidade à lei do lucro», voltando a colocar no centro «a pessoa e o bem comum», apontou o papa no discurso que não leu.

Francisco elogiou os empresários que, «apesar de tudo, não cessaram de se empenhar, investir e arriscar para garantir o emprego».

«A cultura do trabalho» implica «educação para o trabalho desde a juventude, acompanhamento no trabalho, dignidade para toda a atividade laboral, partilha do trabalho, eliminação de todo o trabalho negro», defendeu.

Citando a encíclica "Caritas in veritate", de Bento XVI, seu predecessor, Francisco sublinhou que é preciso continuar «a perseguir como prioritário o objectivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua manutenção.»

«É importante a dedicação ao próprio trabalho com assiduidade, dedicação e competência, é importante ter o hábito do trabalho.», salientou Francisco no discurso que entregou ao prelado.

O papa fez votos para que, «na lógica da gratuidade e da solidariedade», seja ultrapassada a atual fase negativa e se assegure «um trabalho seguro, digno e estável».

Na missa a que presidiu depois, no santuário de Nossa Senhora de Bonaria, padroeira da Sardenha, Francisco pediu aos fiéis para que estivessem atentos às palavras «que prometem ilusões», da boca daqueles que querm uma «vida fácil», mas que «não se podem cumprir».

 

Rui Jorge Martins
© SNPC | 22.09.13

Redes sociais, e-mail, imprimir

FotoREUTERS/Giampiero Sposito

 

Ligações e contactos

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página