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Papa reza pelas autoridades e denuncia «abismo da indiferença»

«Continuamos a rezar juntos, neste momento de pandemia, pelos doentes, pelos familiares, pelos pais com as crianças em casa. Mas sobretudo, gostaria de pedir-vos para orarem pelas autoridades: elas têm de decidir, e muitas vezes decidir sobre medidas que não agradam ao povo. Mas é para o nosso bem. E muitas vezes, a autoridade sente-se só, incompreendida. Oremos pelos nossos governantes, que têm de tomar a decisão sobre estas medidas: que se sintam acompanhados pela oração do povo.»

Foi com estas palavras que o papa Francisco introduziu, esta manhã, véspera de completar sete anos de eleição, a celebração da missa, que pelo quarto dia consecutivo foi transmitida em direto da capela da Casa de Santa Marta, no Vaticano, durante a qual refletiu sobre a desigualdade entre seres humanos, a partir do Evangelho proclamado nas eucaristias desta quinta-feira, sobre o rico e o pobre Lázaro (Lucas 16,19-31, cf. Umbrais).

«Esta narrativa de Jesus é muito clara; aliás, pode parecer um conto para as crianças: é muito simples. Jesus quer indicar com isto não só uma história, mas a possibilidade que toda a humanidade viva assim. Dois homens, um satisfeito, que sabia vestir-se bem, talvez procurasse os maiores estilistas do seu tempo para vestir-se; vestia roupa de púrpura e linho finíssimo. E vivia bem, porque diariamente se dava a lautos banquetes. Era feliz assim. Não tinha preocupações, tomava algumas precauções, talvez tomasse algum comprimido contra o colesterol por causa dos banquetes, mas assim a vida corria bem. Estava tranquilo.

À sua porta estava um pobre: chamava-se Lázaro. Ele sabia que o pobre existia, ali; sabia-o. Mas parecia-lhe natural: “Eu vivo bem, e isso… é assim a vida, que se arranje”. No máximo, talvez – o Evangelho não o diz – lhe mandasse, por vezes, alguma coisa, alguma migalha. E assim passou a vida destes dois. Ambos passaram pela lei de todos nós: morrer. Morreu o rico e morreu Lázaro. O Evangelho diz que Lázaro foi levado para o Céu, junto de Abraão. Do rico apenas diz: “Foi sepultado”. Ponto. E acaba.



O drama da informação que não desce ao coração. Isto também nos sucede. Todos nós sabemos, porque o ouvimos nas notícias ou vimos nos jornais, quantas crianças sofrem de fome hoje, no mundo; quantas crianças não têm os medicamentos necessários; quantas crianças não podem ir á escola. Continentes, com estre drama: sabemo-lo. Pobrezinhos… e continuamos



Há duas coisas que me sensibilizam: o facto de o rico saber que o pobre existia, e saber o seu nome, Lázaro. Mas não importava, parecia-lhe natural. O rico talvez fizesse também os seus negócios, que no final de contas iam contra os pobres. Conhecia bem claramente, estava informado desta realidade. E a segunda coisa que me toca muito é a palavra “grande abismo”, que Abraão diz ao rico. “Entre nós há um grande abismo, não podemos comunicar; não podemos passar de um lado para o outro”. É o mesmo abismo que na vida existia entre o rico e Lázaro: o abismo não começou lá, o abismo começou aqui.

Pensei em qual seria o drama deste homem: o drama de estar muito, muito informado, mas com o coração fechado. As informações deste homem rico não chegavam ao coração, não sabia comover-se, não se podia comover perante o drama dos outros. Nem sequer chamar um dos rapazes que serviam à mesa e dize-lhe: “Leva-lhe isto, leva-lhe aquilo…”. O drama da informação que não desce ao coração. Isto também nos sucede. Todos nós sabemos, porque o ouvimos nas notícias ou vimos nos jornais, quantas crianças sofrem de fome hoje, no mundo; quantas crianças não têm os medicamentos necessários; quantas crianças não podem ir á escola. Continentes, com estre drama: sabemo-lo. Pobrezinhos… e continuamos. Esta informação não desce ao coração, e muitos de nós, muitos grupos de homens e mulheres vivem nesta separação entre aquilo que pensam, aquilo que são, e aquilo que sentem: o coração está separado da mente. São indiferentes. Como o rico era indiferente à dor de Lázaro. É o abismo da indiferença.

Quando fui pela primeira vez a Lampedusa, veio-me esta palavra: a globalização da indiferença. Talvez nós hoje, aqui, em Roma, estejamos preocupados porque “parece que as lojas estão fechadas, tenho de ir comprar aquilo, e parece que não posso dar o meu passeio todos os dias, e parece aqueloutro…”: preocupados com as minhas coisas. E esquecemos as crianças com fome, esquecemos aquela pobre gente que nas fronteiras dos países, buscando a liberdade, estes migrantes forçados que fogem da fome e da guerra, e só encontram um muro, um muro deito de ferro, um muro de arame farpado, um muro que não os deixa passar. Sabemos que existe isto, mas ao coração não chega … Vivemos na indiferença: a indiferença é este drama de estar bem informado, mas não sentir a realidade dos outros. Este é o abismo: o abismo da indiferença.

Depois há outra coisa que me toca. Aqui sabemos o nome do pobre; sabemo-lo. Lázaro. O rico também o sabia, porque quando estava nos infernos pede a Abraão para enviar Lázaro; reconheceu-o. Mas não sabemos o nome do rico. O Evangelho não nos diz como se chamava este senhor. Não tinha nome. Tinha perdido o nome: apenas tinha os adjetivos da sua vida. Rico, poderoso… muitos adjetivos. Isto é aquilo que o egoísmo faz em nós: faz perder a nossa identidade real, o nosso nome, e só nos conduz a apreciar os adjetivos. A mundanidade ajuda-nos nisto. Caímos na cultura dos adjetivos, onde o teu valor é aquilo que tens, aquilo que podes… Mas não “como te chamas?”: perdeste o nome. A indiferença conduz a isto. Perder o nome. Somos apenas os ricos, somos isto, somos aquilo. Somos os adjetivos.

Peçamos hoje ao Senhor a graça de não cair na indiferença, a graça de que toda a informação que temos das dores humanas desça ao coração e nos mova a fazer alguma coisa pelos outros.»

O papa, através do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Integral, doou hoje 100 mil euros à Cáritas de Itália, para ajudar os serviços essenciais em favor dos pobres e vulneráveis atingidos pelo Covid-19.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Vatican News
Imagem: "O homem rico e o pobre Lázaro (det.) | Hendrick ter Brugghen | 1625
Publicado em 12.03.2020

 

 
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