Patriarca diz que Portugal é um país de desencontros e defende que «desagregação contemporânea só foi possível com mais dinheiro para alguns»
«Se olharmos agora para a realidade portuguesa que nos toca, muito mais repararemos em desencontros do que em encontros», afirmou o patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, na primeira assembleia nacional da Conferência Nacional de Apostolado de Leigos.
Os desencontros na sociedade abrangem as «famílias – feitas, refeitas ou rarefeitas» e os «grupos que sucessivamente se combinam, descombinam ou recombinam», e passam por «conflitos sociais de vária ordem», assim como «pela dificuldade em encontrar e manter políticas combinadas», sublinhou o prelado este sábado, em Coimbra.
O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa referiu-se também às «muitas exceções a qualquer regra, que logo contradizem o seu enunciado», e ao «apetite cultural pelo contraste, que mistura aplausos com apupos e desconfia à partida do fim feliz de qualquer história».
«A desagregação contemporânea só foi possível com mais dinheiro para alguns – e apesar de tudo muitos mais do que alguma vez tínhamos sido, quando eramos gregários pela força das circunstâncias», assinalou.
Na intervenção intitulada “Encontro eclesial para o reencontro do mundo”, D. Manuel Clemente afirmou que «alguma sensibilidade contemporânea mais se ensimesma do que procura os outros».
«Há um apetite de auto-criação que tolera pouco ou nada o contraste ou desafio que os outros sempre são. Há um sentimento forte de que só por mim serei eu e quanto menos condicionado for pelo que os outros queiram ser para mim, ou queiram que eu próprio seja», apontou.
Esta atitude é acompanhada pela «desconfiança pós-moderna em relação a meta-narrativas prévias e conformes, que, da esquerda à direita, se revelaram geralmente frustrantes».
«Compreendamos e concordemos que, até certo ponto, tal desconfiança foi um ganho. Mas não é forçoso que, para não nos alienarmos num futuro qualquer, nos alienemos agora da realidade viva que os outros sempre são. Real e consistentemente são, e não virtualmente e à distância dum “delete”», salientou o prelado ao referir-se à diferença entre a relação cara-a-cara e as redes sociais da internet.
Para D. Manuel Clemente, não é possível voltar atrás, mas é preciso «recuperar algo de essencial» que foi esquecido: a «natureza social, comunitária», porque «é precisamente no triunfo do pessoal ou relacional sobre o individual» que se desenvolve «a cultura do encontro».
«Toda a missão cristã se define como busca dos outros para partilharmos o encontro que tivermos», sintetizou o patriarca de Lisboa, depois de citar textos da Bíblia e da Igreja que destacam o primado da comunidade.
D. Manuel Clemente terminou a conferência recordando a nota pastoral que o episcopado português publicou a 11 de abril, intitulada “Promover a renovação da pastoral da Igreja em Portugal”.
O caminho para fomentar a pertença à comunidade passa por «formar comunidades que sejam autênticas escolas de vivência da fé e da comunhão, gerando entre todos os seus membros laços de fidelidade, de proximidade e de confiança, que se traduzam no serviço humilde da caridade fraterna».
Rui Jorge Martins
© SNPC |
19.11.13
D. Manuel ClementeFoto: Renascença








