A sobrenaturalidade do desapego e do despojamento
Acreditar em Deus, desejá-lo, invocá-lo, toda esta necessária entrega de alma não tem, para nós, outro sentido que não seja a esperança de que Ele nos possa tornar no que não somos, no que não podemos ser nem fazer sozinhos. Se não o aceitamos aonde Ele está, é porque o queremos onde Ele não pode estar. E aonde o poderemos encontrar senão exatamente no moimento em que a vontade, como que despojada, se desapega de tudo e se lança para além de si própria? Desapego e despojamento que implicam um secreto sofrimento, que exigem, para serem realmente operações sobrenaturais, a crucificação de toda e qualquer complacência do amor-próprio, que tendem, como diz São Paulo, a dividir a alma e o espírito até ao limite, até à medula dos ossos.
É, pois, um mesmo movimento que leva os espíritos suficientes ou os ânimos vacilantes a repelirem Deus e o revela àqueles que, capazes de fidelidade, recusariam um Deus que não usasse para com eles essas exclusivas pretensões. Porquanto o grande e nosso esforço é acreditar no amor de Deus pelos homens. Aquele que compreendeu a razão por que o homem pode e quer ser divinamente amado, como se fora Deus do próprio Deus, compreende sem espanto que o caminho de plenitude do amor é o caminho da renúncia e da mortificação. Aquele que se dá em bondade exige a exigência.
E é assim que somente no vazio dos corações, nas almas de silêncio e de boa vontade, se pode, utilmente fazer ouvir a vos das revelações: aquilo mesmo que a torna desprezível e odiosa a uns a faz ser acolhida por outros. Se não houvesse interiormente a intenção de aceitar a claridade desejada, se não houvesse sentidos já preparados para julgar a divindade do verbo escutado, de nada serviriam e nada seriam o som das palavras e o peso dos gestos. E incessantemente lançam os homens os olhos e os ouvidos para receber o que não podem os homens ver e ouvir sem morrer. E quando pensaram distinguir a palavra mortificadora e vivificante onde ela ainda não soava, impediram-se de ouvi-la quando ela quis ressoar, talvez porque não guardavam consigo, depurado, o sentido duma vida mais viva.
O homem de desejo é raro; mas é o único que conhece a medida certa da verdade dada, o único a quem compete o discernimento da sua origem. Para a reconhecer temos que esperar que ela seja, não aquela que queríamos, mas aquela que é.
Maurice Blondel
08.04.09

Bill Viola







