Pedras angulares
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

A sobrenaturalidade do desapego e do despojamento

Acreditar em Deus, desejá-lo, invocá-lo, toda esta necessária entrega de alma não tem, para nós, outro sentido que não seja a esperança de que Ele nos possa tornar no que não somos, no que não podemos ser nem fazer sozinhos. Se não o aceitamos aonde Ele está, é porque o queremos onde Ele não pode estar. E aonde o poderemos encontrar senão exatamente no moimento em que a vontade, como que despojada, se desapega de tudo e se lança para além de si própria? Desapego e despojamento que implicam um secreto sofrimento, que exigem, para serem realmente operações sobrenaturais, a crucificação de toda e qualquer complacência do amor-próprio, que tendem, como diz São Paulo, a dividir a alma e o espírito até ao limite, até à medula dos ossos.

É, pois, um mesmo movimento que leva os espíritos suficientes ou os ânimos vacilantes a repelirem Deus e o revela àqueles que, capazes de fidelidade, recusariam um Deus que não usasse para com eles essas exclusivas pretensões. Porquanto o grande e nosso esforço é acreditar no amor de Deus pelos homens. Aquele que compreendeu a razão por que o homem pode e quer ser divinamente amado, como se fora Deus do próprio Deus, compreende sem espanto que o caminho de plenitude do amor é o caminho da renúncia e da mortificação. Aquele que se dá em bondade exige a exigência.

E é assim que somente no vazio dos corações, nas almas de silêncio e de boa vontade, se pode, utilmente fazer ouvir a vos das revelações: aquilo mesmo que a torna desprezível e odiosa a uns a faz ser acolhida por outros. Se não houvesse interiormente a intenção de aceitar a claridade desejada, se não houvesse sentidos já preparados para julgar a divindade do verbo escutado, de nada serviriam e nada seriam o som das palavras e o peso dos gestos. E incessantemente lançam os homens os olhos e os ouvidos para receber o que não podem os homens ver e ouvir sem morrer. E quando pensaram distinguir a palavra mortificadora e vivificante onde ela ainda não soava, impediram-se de ouvi-la quando ela quis ressoar, talvez porque não guardavam consigo, depurado, o sentido duma vida mais viva.

O homem de desejo é raro; mas é o único que conhece a medida certa da verdade dada, o único a quem compete o discernimento da sua origem. Para a reconhecer temos que esperar que ela seja, não aquela que queríamos, mas aquela que é.

 

Maurice Blondel
08.04.09

Homem acende vela
Bill Viola

 

 

Artigos relacionados

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página