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Presépio: das origens ao século XX, passando por S. Francisco de Assis e Machado de Castro

Imagem Presépio de Machado de Castro na Basílica da Estrela, Lisboa (det.) | D.R.

Presépio: das origens ao século XX, passando por S. Francisco de Assis e Machado de Castro

O "presépio", palavra latina cujo significado é estábulo, curral ou lugar para recolha de gado, assume em português o sentido da representação plástica da Natividade, em virtude de Cristo ter nascido num local semelhante. Presépio designa, assim, o conjunto do cenário e dos personagens que, num retábulo pintado, numa escultura ou num grupo de figuras, representam as cenas do nascimento de Cristo segundo o Evangelho de São Lucas.

Este foi o único dos quatro evangelistas que se referiu à anunciação, natividade e epifania de Jesus. E para referenciar a sua revelação feita primeiramente aos pastores, símbolo do seu povo, escreve: «Este é o sinal que vo-lo fará reconhecer: achareis um Menino envolto em panos e posto numa manjedoura» (Lc 2, 7-12).

Nos inícios do cristianismo, por influência dos apóstolos, dos seus discípulos e dos evangelistas - todos no tempo ainda muito próximos da vida pública do Mestre - a liturgia quase só se circunscrevia à paixão, morte e ressurreição de Cristo, sendo estas cenas as que com mais frequência eram reproduzidas pictoricamente.

A natividade, ligada à epifania, era menos representada e surgia reduzida à imagem de Maria com o Menino no regaço, apresentando-o aos pastores ou aos magos. Túmulos romanos paleocristãos exibem estas cenas, onde aqueles últimos ainda não ostentam as coroas de uma realeza atribuída somente a partir do século XI e são guiados por uma estrela, apresentando de pé as oferendas do incenso devido a um Deus, do ouro próprio de um rei e da mirra destinada ao homem. A atitude de oferta efetuada de joelhos também só começou a ser reproduzida por aquela época.

O número certo destes magos é desconhecido, acabando a tradição por fixá-los em três, de escalões etários diferentes e de diversas etnias, numa globalizante simbologia humana. Estas simples iconografias não incluíam São José nem tão-pouco os tradicionais animais dos presépios: o boi, o jumento e os cordeiros.

A figura do pai adotivo de Cristo só mais tarde começou a ser integrada na representação, de início de forma secundarizada, por detrás do grupo da mãe e do Filho, para na Idade Média assumir igual evidência.

Quanto ao boi e ao jumento, cuja primeira referência bíblica se encontra no Antigo Testamento, só posteriormente vieram também integrar o conjunto: «Conheceu o boi o seu possuidor e o jumento o presépio do seu dono» (Is 1,3).

A partir do século IV, com o Edito de Milão (313 d.C.), deu-se a grande explosão do culto da natividade. A data exata do nascimento de Cristo constituiu sempre uma incógnita, e a sua fixação em 25 de dezembro, nove meses após a anunciação, fazia coincidir aproximadamente a celebração destas festividades cristológicas com o calendário solar do equinócio primaveril e do solstício do inverno, ocasiões de grandes celebrações pagãs, que urgia cristianizar.

A introdução do culto natalício na Península Ibérica efetuou-se por duas vias diversas, que originaram formas diferentes de celebração.

No território de Espanha, por influência das comunidades cristãs orientais, deu-se maior relevo à Epifania celebrada a 6 de janeiro, enfatizando-se a dupla revelação: ao povo de Deus simbolizado pelo anjo, pelos pastores e pelo boi do presépio e aos gentios representados pela estrela, pelos magos e pelo jumento.

Houve autores que pretenderam associar à natividade e à epifania o primeiro episódio da vida pública de Cristo - as Bodas de Caná - numa complementarização da trilogia da revelação messiânica.

Em Portugal, por via direta de Roma, a tradição foi sempre muito mais direcionada para as grandes celebrações da natividade a 25 de dezembro.

Esta, à medida que o seu culto litúrgico se difundia, começou a ser expressa em composições armadas com pessoas e animais ao natural, representando-se dramas sobre o tema, e entre os séculos VII e XI desenrolavam-se com ofícios e festas, durante as matinas.

Na Idade Média representavam-se nos adros ao ar livre, ou nas catedrais por trás do altar-mor, onde por vezes eram substituídos por quadros vivos de mímica. As celebrações atingiram tais exageros em matéria de costumes e de desordem, que a Igreja proibiu essas representações.

Durante o Natal de 1223 e depois de ter obtido, autorização pontifícia, São Francisco de Assis recriou em Greccio o nascimento de Cristo. Nesse hu­milde presépio, de figuras em tamanho natural, compostas por uma estrutura de madeira revestida de palha e tecidos, integrou um boi e um jumento vivos colocados próximos de um altar em forma de berço, coberto de feno sobre o qual repousou uma pequena imagem do Deus-Menino. Podemos considerar este acontecimento como o início da era dos modernos presépios e os seus grandes difusores foram os frades franciscanos e mais tarde os dominicanos.

Em Portugal sempre se celebrou a natividade com representações cénicas - os autos de Natal -, donde surgiram mais tarde os vilancicos. Paralelamente, as artes plásticas eternizavam aquele tema de diversas formas e em diferentes suportes.

Nos finais do século XIII, a Natividade foi esculpida num capitel do primitivo claustro do mosteiro de Celas (Coimbra), e no século XIV já figurava no túmulo de Inês de Castro no Mosteiro de Alcobaça.

Durante a segunda metade do século XVI foram esculpidos em calcário diversos relevos, como num intercolúnio do retábulo da Capela de Santa Maria na Sé Velha de Coimbra (1559), em painéis das igrejas das Misericórdias de Tentúgal e de Montemor-o-Velho e no retábulo da Capela de Santa Maria das Neves (Espinhal-Penela).

Na pintura sobre tábua ficaram-nos, da mesma época, a Natividade atribuída a Gaspar Vaz (?-1569), a do políptico da Igreja de São João de Tarouca e a da Misericórdia de Abrantes, atribuídas a Gregório Lopes (1490?-1550).

Devem merecer especial referência a natividade e adoração dos magos (1501-1506) da autoria de Vasco Fernandes ou Grão Vasco (1475/1480?-1542/1543?), ambas executadas para o retábulo da capela-mor da sé de Viseu, onde, naquela última, o tradicional mago negro foi substituído por um índio do Brasil, como sinal evidente de novidade.

As notícias das primeiras representações portuguesas do presépio, constituídas por figuras de vulto, são anteriores a 1537 e referem um presépio existente no mosteiro feminino do Salvador, em Lisboa, formado por figuras moldadas colocadas diante de um painel pintado. Sabe-se que nessa época foi dado grande incremento à produção de presépios destinados aos conventos e igrejas, bem como para residências da sociedade civil.

A elaboração destes primeiros presépios sofria de manifesta influência iconográfica flamenga, sobretudo dos conhecidos "jardin-clos"de Antuérpia e de Malines, sem contudo desprezar alguns conhecimentos da arte napolitana.

Esses primeiros presépios referenciados do século XVI eram constituídos por figuras de barro, palha ou tecidos, colocados diante de um cenário pintado e no século XVII estes conjuntos estavam montados dentro de simples maquinetas.

A difusão do tema do presépio pelas terras portuguesas do Oriente originou, principalmente durante o período seiscentista, uma grande produção artística na Índia e em Ceilão, onde as cenas da natividade eram esculpidas em marfim, quer em figuras de vulto, quer em placas. A arte indo-cíngalo-portuguesa naquele material constitui uma enorme referência na temática dos presépios nacionais.

A pintura deste século igualmente conserva algumas representações natais impressionantes pelos fortes contrastes de sombras e luz que evidenciam, tendo Josefa de Óbidos (1630-1684) tratado o tema de forma invulgar ao incluir numa cena da Natividade apenas as figuras de São Francisco de Assis e de Santa Clara adorando o Menino Deus, numa referência simbólica à reconstituição do primeiro presépio.

A chegada do movimento barroco e a sua rápida evolução conduziram ao esplendor dos magníficos presépios do século XVIII. Os materiais utilizados na sua feitura continuaram a ser os mais diversos, desde a madeira, marfim, pedras e metais preciosos, ao vidro, cortiça e têxteis.

O presépio de madeira do Convento de Mafra, da autoria de José de Almeida (170?-1769), sem comportar ainda um grande número de figuras, apresenta já nas indumentárias da Virgem e de São José a riqueza ondulante do barroco.

Contudo, foi sem dúvida no barro que os presépios de mestres como António Ferreira (n. Braga ?), padre João Crisóstomo Policarpo da Silva (1734-1798), Joaquim de Barros Laborão (1762­-1820) e principalmente de Joaquim Machado de Castro (1731-1822) atingiram o mais elevado ponto de conceção e realização artística.

O tratamento teatral dado por Machado de Castro à elaboração dos seus presépios permitiu que as mais simples e humildes tarefas diárias desempenhadas pelos tipos populares neles representados ganhassem uma dimensão de grandeza, expressa na cor e movimento dos trajes e nas expressões alegres dos seus rostos.

Os animais, instrumentos musicais e utensílios comuns integram a cenografia de forma natural, conferindo aos conjuntos o complemento essencial à compreensão da simbiose do divino e do profano.

Nos presépios deste período artístico transparece a alegria sentida pela humanidade face a um acontecimento redentor. Toda a riqueza de formas, que a arte barroca continha ficou expressa nas temáticas populares das centenas de figuras integrantes dos belíssimos presépios dos mosteiros de São Vicente de Fora e do Desagravo, dos presépios dos marqueses de Belas e de Borba, da sé de Lisboa, do convento da Estrela, da igreja da Madre de Deus ou o dos jardins do palácio dos Condes de Porto Covo.

O século XVIII constituiu o século-apogeu dos presépios portugueses, onde a vida, os costumes e a arte da sociedade nacional da época ficaram magnificamente reproduzidos nas figuras populares que António Ferreira e Machado de Castro, trabalhando isolados ou de parceria, elaboraram e integraram nos conjuntos encomendados.

De outros presépios importantes existentes no país não temos muitas notícias, mas é provável que tenham existido em grande número, dada a sua enorme popularidade. No Porto, na igreja de São Nicolau, existe um presépio, que constitui um excelente conjunto desta época.

O século XIX é já um século de decadência artística dos presépios, cujas figuras experimentaram um regresso ao naturalismo e à simplicidade. A sua criação diminuiu e com ela também o número dos figurantes e dos artistas que se dedicaram a ela.

O século XX, em termos de produção de presépios, está sobretudo dominado pelos trabalhos criados por artistas eminentemente populares como José Franco (Ericeira), Rosa e Júlia Ramalho e Mistério (Barce­los), e os barristas de Estremoz e Portalegre.

 

Manuela Pinto da Costa
In "Dicionário de História Religiosa de Portugal", ed. Círculo de Leitores
Publicado em 06.12.2014

 

 
Imagem Presépio de Machado de Castro na Basílica da Estrela, Lisboa (det.) | D.R.
A partir do século IV deu-se a grande explosão do culto da natividade. A data exata do nascimento de Cristo constituiu sempre uma incógnita, e a sua fixação em 25 de Dezembro, nove meses após a anunciação, fazia coincidir aproximadamente a celebração destas festividades cristológicas com ocasiões de grandes celebrações pagãs, que urgia cristianizar
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A introdução do culto natalício na Península Ibérica efetuou-se por duas vias diversas, que originaram formas diferentes de celebração. Em Portugal, por via direta de Roma, a tradição foi sempre muito mais direcionada para as grandes celebrações da natividade a 25 de dezembro
Durante o Natal de 1223 e depois de ter obtido, autorização pontifícia, São Francisco de Assis recriou em Greccio o nascimento de Cristo. Nesse humilde presépio, de figuras em tamanho natural, compostas por uma estrutura de madeira revestida de palha e tecidos, integrou um boi e um jumento vivos colocados próximos de um altar em forma de berço
Devem merecer especial referência a natividade e adoração dos magos da autoria de Vasco Fernandes ou Grão Vasco, ambas executadas para o retábulo da capela-mor da sé de Viseu, onde, naquela última, o tradicional mago negro foi substituído por um índio do Brasil, como sinal evidente de novidade
A difusão do tema do presépio pelas terras portuguesas do Oriente originou, principalmente durante o período seiscentista, uma grande produção artística na Índia e em Ceilão, onde as cenas da natividade eram esculpidas em marfim
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O tratamento teatral dado por Machado de Castro à elaboração dos seus presépios permitiu que as mais simples e humildes tarefas diárias desempenhadas pelos tipos populares neles representados ganhassem uma dimensão de grandeza, expressa na cor e movimento dos trajes e nas expressões alegres dos seus rostos
O século XVIII constituiu o século-apogeu dos presépios portugueses, onde a vida, os costumes e a arte da sociedade nacional da época ficaram magnificamente reproduzidos nas figuras populares que António Ferreira e Machado de Castro, trabalhando isolados ou de parceria, elaboraram e integraram nos conjuntos encomendados
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