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Quaresma

Primeira via sacra em Roma presidida pelo papa Francisco: excertos

Excertos da Via Sacra presidida esta Sexta-feira Santa em Roma pelo papa Francisco. As meditações foram redigidas por jovens libaneses.

 

1.ª Estação
Jesus é condenado à morte
 

Na presença de Pilatos, detentor do poder, Jesus deveria ter obtido justiça. Com efeito, Pilatos tinha o poder para reconhecer a inocência de Jesus e libertá-lo. Mas o governador romano preferiu servir a lógica dos seus interesses pessoais e cedeu às pressões políticas e sociais. Condenou um inocente para agradar à multidão, sem satisfazer a verdade. Entregou Jesus ao suplício da cruz, apesar de saber que era inocente… Antes lavara-se as mãos!

No mundo de hoje, existem muitos «Pilatos» que, nas suas mãos, detêm as rédeas do poder e usam-nas ao serviço dos mais fortes. Muitos são aqueles que, fracos e covardes face a estas correntes de poder, empenham a sua autoridade ao serviço da injustiça e espezinham a dignidade do homem e o seu direito à vida.

Senhor Jesus,
não permitais
que sejamos do número dos injustos.
Não permitais que os fortes
se comprazam no mal,
na injustiça e no despotismo.
Não permitais que a injustiça leve os inocentes
ao desespero e à morte.
Confirmai-os na esperança
e iluminai a consciência
daqueles que têm autoridade neste mundo,
para que governem na justiça.
Amen.

 

2.ª Estação
Jesus é carregado com a Cruz

Em todo o tempo, o homem acreditou que ele próprio podia substituir Deus e determinar por si mesmo o bem e o mal (cf. Gn 3, 5), sem referência ao seu Criador e Salvador. Julgou-se omnipotente, capaz de excluir Deus da vida própria e da dos seus semelhantes, em nome da razão, do poder ou do dinheiro.

Também hoje o mundo se curva a realidades que procuram expulsar Deus da vida do homem, como o laicismo cego que sufoca os valores da fé e da moral em nome duma suposta defesa do homem, ou o fundamentalismo violento que toma como pretexto a defesa dos valores religiosos.

Senhor Jesus,
a Vós que assumistes a humilhação
e Vos identificastes com os fracos,
confiamos todos os homens
e todos os povos humilhados e atribulados,
especialmente os do martirizado Oriente.
Concedei-lhes que encontrem, em Vós,
a força para poderem carregar convosco
a sua cruz de esperança.
Nas vossas mãos,
colocamos quantos se extraviaram,
para que, por vosso intermédio,
encontrem a verdade e o amor.
Amen.

 

3.ª Estação
Jesus cai pela primeira vez
 

Senhor Jesus,
reerguei-nos das nossas quedas,
reconduzi à vossa Verdade
o nosso espírito extraviado.
Não permitais que a razão humana,
que criastes para Vós,
se contente com as verdades parciais
da ciência e da tecnologia,
sem cuidar de pôr-se as perguntas fundamentais
acerca do sentido da existência.
Concedei, Senhor,
que nos abramos à ação de vosso Santo Espírito,
para sermos por Ele conduzidos à plenitude da Verdade.
Amen.

 

4.ª Estação
Jesus encontra a sua Mãe
 

Jesus sofre ao ver sua mãe sofrer, e Maria por ver sofrer o seu Filho. Mas, deste sofrimento comum, nasce uma humanidade nova.

Senhor Jesus,
também nós sentimos, nas nossas famílias,
os sofrimentos causados aos filhos por seus pais,
e aos pais por seus filhos.
Senhor, fazei que, nestes tempos difíceis,
as nossas famílias sejam lugares da vossa presença,
para que os nossos sofrimentos se transformem em alegria.
Sede Vós o apoio das nossas famílias
e fazei delas oásis de amor,
paz e serenidade,
à imagem da Sagrada Família de Nazaré.
Amen.

 

5.ª Estação
Simão de Cirene ajuda Jesus a levar a Cruz
 

O encontro de Jesus com Simão de Cirene é um encontro silencioso, uma lição de vida: Deus não quer o sofrimento nem aceita o mal. E o mesmo se diga do ser humano. Mas o sofrimento, acolhido na fé, transforma-se em caminho de salvação; então, aceitamo-lo como Jesus e ajudamos a carregá-lo como Simão de Cirene.

Senhor Jesus,
envolvestes o homem no ato de levar a vossa cruz.
Convidastes-nos a partilhar o vosso sofrimento.
Simão de Cirene é semelhante a nós
e ensina-nos a aceitar a cruz
que encontramos nas estradas da vida.
Seguindo o vosso exemplo, Senhor,
carregamos hoje, também nós, a cruz
da tribulação e da doença,
mas aceitamo-la, porque Vós estais connosco.
Ela pode cravar-nos numa cadeira,
mas não impedir de sonhar;
pode obscurecer o olhar,
mas não ferir a consciência;
pode tornar surdo o ouvido,
mas não impedir de escutar;
pode prender a língua,
mas não suprimir a sede de verdade;
pode deixar a alma pesada,
mas não privá-la da liberdade.
Senhor,
queremos ser vossos discípulos,
levando a vossa cruz todos os dias;
levá-la-emos com alegria e esperança,
porque Vós a levais connosco,
porque triunfastes sobre a morte por nós.
Nós Vos damos graças, Senhor,
por cada pessoa doente ou atribulada,
que sabe ser testemunha do vosso amor,
e por cada «Simão de Cirene»
que colocais no nosso caminho.
Amen.

 

6.ª Estação
A Verónica limpa o rosto de Jesus

A Verónica procurou-vos no meio da multidão. Procurou-vos e finalmente vos encontrou. Quando o vosso sofrimento estava no auge, ela quis suavizá-lo, enxugando-vos o rosto com um pano. Um pequeno gesto, mas exprimia todo o seu amor por Vós e toda a sua fé em Vós; ficou gravado na memória da nossa tradição cristã.

Senhor Jesus,
é o vosso rosto que nós procuramos.
A Verónica recorda-nos que Vós estais presente
em cada pessoa que sofre
e segue pelo seu caminho do Gólgota.
Senhor, fazei que Vos encontremos nos pobres,
os vossos irmãos pequeninos,
para enxugar as lágrimas de quem chora,
cuidar de quem sofre
e amparar quem é fraco.
Vós, Senhor, ensinais-nos
que uma pessoa ferida e esquecida
não perde o seu valor nem a sua dignidade
mas permanece sinal
da vossa presença escondida no mundo.
Ajudai-nos a enxugar do seu rosto
os traços da pobreza e da injustiça,
para que a vossa imagem
se revele e resplandeça nela.
Rezamos por aqueles que buscam o vosso Rosto
e o encontram no rosto dos sem-abrigo,
dos pobres e das crianças
sujeitas à violência e à exploração.
Amen. 

 

7.ª EstaçãoJesus cai pela segunda vez

Jesus está sozinho sob o peso interior e exterior da cruz. Sobrevém a queda, quando o peso do mal se torna demasiado grande e parece já não haver limite à injustiça e à violência.

Mas Ele volta a levantar-se, fortalecido com a confiança infinita que tem em seu Pai. Perante os homens que o abandonam à sua sorte, a força do Espírito o levanta; une-o inteiramente à vontade do Pai, à vontade do amor que tudo pode.

Senhor Jesus, na vossa segunda queda,
reconhecemos muitas das nossas situações
que parecem sem saída.
Entre elas se incluem as resultantes de preconceitos e do ódio,
que endurecem os nossos corações
e levam a conflitos religiosos.
Iluminai as nossas consciências
a fim de reconhecermos
que, não obstante «as divergências humanas e religiosas,
há um raio de verdade
que ilumina todos os homens»,
chamados a caminhar juntos
– no respeito da liberdade religiosa –
rumo à verdade que está unicamente em Deus.
Assim as diversas religiões podem
«juntar-se para servir o bem comum,
contribuindo para o desenvolvimento de toda a pessoa
e a edificação da sociedade».
Vinde, Espírito Santo,
consolar e fortalecer os cristãos,
em particular os do Médio Oriente,
para que, unidos a Cristo, sejam
as testemunhas do seu amor universal
numa terra dilacerada pela injustiça
e pelos conflitos.
Amen.

 

8.ª Estação
Jesus encontra as mulheres de Jerusalém que choram por Ele
 

Na Paixão e Crucifixão, Jesus oferece a sua vida em resgate por muitos. Assim deu Ele alívio a quantos estavam oprimidos sob o jugo e consolou os aflitos. Enxugou as lágrimas das mulheres de Jerusalém e abriu-lhes os olhos à verdade pascal.

O nosso mundo está cheio de mães aflitas, de mulheres feridas na sua dignidade, lesadas pelas discriminações, a injustiça e o sofrimento. Ó Cristo padecente, sede a sua paz e o bálsamo das suas feridas.

Senhor Jesus,
com a vossa encarnação no seio de Maria
«bendita entre as mulheres» (Lc 1, 42),
elevastes a dignidade de toda a mulher.
Com a Encarnação,
unificastes o género humano (cf. Gl 3, 26-28).
Senhor,
o anseio dos nossos corações seja o de Vos encontrar.
O nosso caminho, embora repleto de tribulações,
seja sempre um percurso de esperança
convosco e para Vós,
que sois o refúgio da nossa vida
e a nossa Salvação.
Amen.

 

9.ª Estação
Jesus cai pela terceira vez
 

Senhor Jesus,
a Igreja, nascida do vosso lado aberto,
vive oprimida sob a cruz das divisões
que afastam os cristãos uns dos outros
e da unidade que Vós quisestes para eles;
desviam-se do vosso desejo
de «que todos sejam um só» (Jo 17, 21)
como o Pai convosco.
Esta cruz grava com todo o seu peso
sobre a sua vida e o seu testemunho comum.
Concedei-nos, Senhor, a sabedoria e a humildade
para nos levantarmos e avançarmos pelo caminho da unidade,
na verdade e no amor,
sem sucumbir à tentação
de fazer apelo simplesmente aos critérios
dos interesses pessoais ou sectários,
quando nos embatemos nas divisões.
Concedei-nos renunciar à mentalidade de divisão
«para não esvaziar da sua eficácia
a cruz de Cristo» (1 Cor 1, 17).
Amen.

 

10.ª Estação
Jesus é despojado das suas vestes

Ó Jesus, Filho do Homem,
que Vos deixastes despojar para nos revelar
a nova criatura ressuscitada dentre os mortos,
rasgai em nós o véu que nos separa de Deus
e tecei em nós a vossa presença divina.
Concedei-nos vencer o medo
frente aos acontecimentos da vida
que nos despojam e deixam nus,
e revestir o homem novo do nosso Batismo
a fim de anunciar a Boa Nova,
proclamando que Vós sois o único Deus verdadeiro
que guia a história.
Amen.

 

11.ª Estação
Jesus é pregado na Cruz
 

Eis o Messias esperado, suspenso no madeiro da cruz entre dois ladrões. As duas mãos que abençoaram a humanidade estão trespassadas. Os dois pés que palmilharam a nossa terra para anunciar a Boa Nova estão suspensos entre a terra e o céu. Os olhos cheios de amor, que, com um simples olhar, curaram os enfermos e perdoaram os nossos pecados, já não fixam senão o Céu.

Senhor Jesus,
fostes crucificado pelas nossas iniquidades.
Rezais a Deus Pai e intercedeis pela humanidade.
Cada golpe de martelo
ressoa como um latejo do vosso coração imolado.
Como são belos no monte Calvário
os pés d’Aquele que anuncia
a Boa Nova da Salvação.
O vosso amor, Jesus, encheu o universo.
As vossas mãos trespassadas
são o nosso refúgio na angústia;
acolhem-nos sempre que
o abismo do pecado nos ameaça,
e encontramos nas vossas chagas
a cura e o perdão.
Ó Jesus,
pedimo-Vos por todos os jovens
que se sentem oprimidos pelo desespero,
pelos jovens vítimas da droga,
das seitas e das perversões.
Libertai-os da sua escravidão.
Ergam os olhos e acolham o Amor;
descubram a felicidade em Vós, e salvai-os Vós,
nosso Salvador.
Amen.

 

12.ª Estação
Jesus morre na Cruz

Do alto da cruz, um grito! Grito de abandono no momento da morte, grito de confiança no sofrimento, grito do parto de uma nova vida. Vemo-Vos, suspenso na Árvore da Vida, entregar o vosso espírito nas mãos do Pai, fazendo jorrar a vida em abundância e moldando a nova criatura.

Hoje, também nós enfrentamos os desafios deste mundo: sentimos que as ondas das preocupações nos submergem e fazem vacilar a nossa confiança. Senhor, reforçai intimamente a nossa certeza de que, enquanto repousarmos nas mãos que nos formaram e acompanham, nenhuma morte nos vencerá.

E possa cada um de nós exclamar:

«Ontem, estava crucificado com Cristo,
hoje, estou glorificado com Ele.
Ontem, estava morto com Ele,
hoje, estou vivo com Ele.
Ontem, estava sepultado com Ele,
hoje, ressuscitei com Ele»
(Gregório Nazianzeno).

Nas trevas das nossas noites,
nós Vos contemplamos.
Ensinai-nos a dirigirmo-nos ao Altíssimo,
ao vosso Pai celestial.
Hoje rezamos
para que todos aqueles que promovem o aborto
tomem consciência de que o amor
só pode ser fonte da vida.
Pensamos também nos defensores da eutanásia
e naqueles que incentivam
técnicas e procedimentos
que colocam em perigo a vida humana.
Abri os seus corações,
para que Vos conheçam de verdade,
para que se comprometam na construção
da civilização da vida e do amor.
Amen.

 

13.ª Estação
Jesus é descido da Cruz e entregue a sua Mãe

Parece que não há nada que possa acabar com o mal, o terrorismo, o homicídio e o ódio. «Diante da cruz, na qual o vosso Filho estendeu as suas mãos imaculadas para a nossa salvação, ó Virgem, nos prostramos neste dia: concedei-nos a paz» (Liturgia Bizantina).

Rezamos
pelas vítimas da violência e das guerras
que devastam, neste nosso tempo,
vários países do Médio Oriente
e também outras partes do mundo.
Rezamos para que os desalojados e os emigrantes forçados
possam voltar o mais rápido possível
às suas casas e às suas terras.
Fazei, Senhor,
que o sangue das vítimas inocentes
seja semente de um Oriente novo,
mais fraterno, mais pacífico e mais justo,
e que este Oriente
recupere o esplendor da sua vocação de berço
de civilização e de valores espirituais e humanos.
Estrela do Oriente,
indicai-nos a vinda da Alvorada!
Amen.

 

14.ª Estação
Jesus é depositado no sepulcro

Aceitar as dificuldades, os acontecimentos dolorosos, a morte… exige uma esperança firme, uma fé viva.

Recebemos a liberdade de filhos de Deus, para não voltar à escravidão; a vida é-nos dada em abundância, para não mais nos contentarmos com uma vida sem beleza nem significado.
Senhor Jesus,
fazei de nós filhos da luz,
que não temem as trevas.
Nós Vos pedimos hoje
por todos aqueles que buscam o sentido da vida
e por quantos perderam a esperança,
para que acreditem na vossa vitória
sobre o pecado e a morte.
Amen.

 

© SNPC | 29.03.13

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FotoPapa Francisco
Coliseu, Roma
29.3.2013

 

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