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«Um dia enviei a uma dezena de amigos um telegrama que dizia: “Foge imediatamente. Descobriram tudo”. Pois bem, todos aqueles amigos deixaram a cidade sem pensar duas vezes.»
Em português cunhou-se a expressão «rabo-de-palha» para rotular quem, não obstante ostentar segurança e honestidade, sabe que tem a consciência suja. A partida feita aos amigos por aquele terrível personagem que era o escritor norte-americano Mark Twain (1835-1910) é emblemática.
Mal recebida a mensagem, todos se apressaram a tomar medidas, bem sabendo que tinham alguns esqueletos no armário (e esta é também uma viva e iluminante locução, com paralelo noutras línguas).
Na base está a hipocrisia, vício que se auto-absolve e autojustifica mas que não consegue tornar a consciência tranquila quando ela é tudo menos límpida.
Aliás, o próprio Twain ironizava sobre a chamada boa educação porque, em última análise, segundo ele, «consiste em esconder o quanto de bem pensamos de nós próprios e o quanto de mal pensamos dos outros».
Cristo, como é sabido, foi severo e áspero em relação aos hipócritas porque o seu orgulho os torna coriáceos, envolvendo-os num manto dourado intransponível, debaixo do qual se escondem as vergonhas.
Jesus recorria às imagens dos «sepulcros caiados, belos vistos de fora mas por dentro cheios de ossos de mortos e de toda a podridão» (Mateus 23, 27). Por isso é necessário para todos um exercício impiedoso: o do exame de consciência e da sinceridade, sabendo que todos têm alguma mancha oculta.