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Ramalho Eanes apresenta livro de D. Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal

Imagem Capa do livro (det.) | D.R.

Ramalho Eanes apresenta livro de D. Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal

Ramalho Eanes, presidente da República de 1976 a 1986, vai apresentar o mais recente livro do bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, intitulado “Pregões de esperança”, em sessão que decorre a 12 de novembro, no Porto.

Nascido em Leça do Balio, Matosinhos, no ano de 1927, D. Manuel Martins tornou-se próximo do bispo D. António Ferreira Gomes aquando do seu regressou ao Porto, após o exílio, ao ser nomeado vigário-geral da diocese portuense.

Em 1975, D. Manuel Martins foi nomeado primeiro bispo da diocese de Setúbal, tendo-se notabilizado na defesa aberta e persistente das pessoas mais carecidas, bem como na denúncia de situações de fome e pobreza no distrito.

«Nas mais variadas circunstâncias, tenho gritado mensagens de justiça. Fiz apelos de solidariedade e de paz, chamei à esperança. (...) Aqui ficam para continuarem a alertar, a incomodar e, se possível, a transformar», escreve o autor ao abrir o livro publicado pela Paulinas Editora.

A 25 de abril de 2011, por ocasião do discurso que proferiu no âmbito das comemorações do 37.º aniversário da “Revolução dos Cravos”, Ramalho Eanes recordou a figura do prelado.

«Lembro, em 1983, o dramatismo da crise, social mesmo, com salários em atraso e fome, situação que, aliás, suscitou muitas intervenção da Sociedade Civil, entre elas, a justa e ousada intervenção, quase ultimato à própria sociedade e ao governo de D. Manuel Martins, então Bispo de Setúbal», afirmou o ex-presidente da República.

A sessão de lançamento do livro “Pregões de esperança” realiza-se às 18h00, no Palácio da Bolsa.

Apresentamos, seguidamente, um excerto do volume.



Despertar para a partilha de bens
D. Manuel Martins
In "Pregões de esperança", ed. Paulinas


1. Estamos chegados a mais uma «Semana de Solidariedade».

Várias ações estão programadas a nível da Diocese e das Comunidades Paroquiais, todas elas já suficientemente anunciadas e oxalá assumidas. Levam como objetivo principal despertar os cristãos e todas as pessoas de boa vontade para a necessidade da partilha de bens, gesto eminentemente humano e evangélico, infelizmente cada vez mais premente e necessário.


2. Vai para três anos, alertámos para o fenómeno da fome que começava a grassar, sobretudo nesta região de Setúbal. Os homens do Poder ficaram muito incomodados e contrariaram frontalmente esse alerta, para virem depois, sei lá por que razões, confirmá-lo e secundá-lo. Hoje toda a gente sabe e aceita que há situações de fome, e muitas, em Setúbal e não só. O Plano de Emergência, de iniciativa governamental, é bom, mas é evidente que não resolve tudo; assim como o Fundo de Solidariedade da Diocese, que colheu e continua a colher magníficas adesões de todo o lado, até do estrangeiro; e muito menos os Fundos Paroquiais que, a nosso pedido, se constituíram.

Precisamos, pois, de continuar esta mobilização, solidários, como somos, uns dos outros, e, principalmente, de quantos passam necessidade.

Confrange a situação de muitos irmãos nossos que recorrem às instituições da Igreja em busca de pão; mas confrange mais a situação, de imensas famílias envergonhadas, que ainda ontem viviam bem e que agora é preciso descobrir, porque, por si, não são capazes de recorrer nem aos serviços oficiais nem sequer aos serviços da Igreja. Não se esqueça – e isto baste – que, em três anos, nesta região fecharam cerca de setenta empresas!


3. Esta partilha dos bens materiais, não obstante o esforço das entidades oficiais, continua, pois, a ser necessária por parte de todos nós. Mas há outra espécie de partilha, primeira e mais importante, para a qual me permito chamar a atenção. Esta diz principalmente respeito aos políticos:

– Acabem, por sentido solidário e patriótico, com o partidarismo, com o clubismo partidário e sectário e deixem-se conduzir pelo bem do Povo, que está cansado de lutas, de instrumentalização e de exploração!

– Abram caminho a situações em que se crie e fomente o gosto do trabalho, do investimento, do progresso, do entendimento e da harmonia entre os Portugueses!

Portugal não pode continuar a ser um palco de campeonato em que os clubes, e sobretudo alguns dos seus responsáveis, indiferentes à sorte e miséria dos espectadores (exceto em tempo de propaganda eleitoral), continuem a digladiar-se, nem sempre pelos melhores processos, para ocuparem, eles e os seus apaniguados, os mais rendosos lugares e as mais vistosas posições.

Esta conversão ao serviço do Povo, a forma de partilha, importante e fundamental, que é preciso promover, porque, sem ela, não podemos sequer iniciar o caminho da justiça social, que já tarda.


4. Peço encarecidamente aos meus diocesanos que, por exigência da sua fé em Jesus Cristo, não deixem de estar atentos à situação do homem concreto. A fé não aliena; pelo contrário, obriga-nos a incarnar nos problemas e nas situações do nosso mundo e dos homens do nosso tempo. Não tenhamos medo. Foi o Papa que disse que o «homem é o caminho da Igreja». Sem esta incarnação, estaremos muito longe de ser cristãos e de ser a Igreja de Jesus Cristo. Com efeito, a Igreja tem de ser sempre a primeira a dar o alerta e a ir à frente na defesa e na promoção dos direitos humanos. Perante situações de injustiça, ficar-se em generalidades é qualquer coisa que sabe a blasfémia...

Vamos, durante esta semana, refletir sobre todas as vertentes da partilha e vamos assumir as consequências com coragem e generosidade.

 

Publicado em 05.11.2014

 

Título: Pregões de esperança
Autor: D. Manuel Martins
Editora: Paulinas
Páginas: 160
Preço: 10,00 €
ISBN: 978-989-673-394-0

 

 
Imagem Capa do livro (det.) | D.R.
Vai para três anos, alertámos para o fenómeno da fome que começava a grassar, sobretudo nesta região de Setúbal. Os homens do Poder ficaram muito incomodados e contrariaram frontalmente esse alerta, para virem depois, sei lá por que razões, confirmá-lo e secundá-lo
Acabem, por sentido solidário e patriótico, com o partidarismo, com o clubismo parti dário e sectário e deixem-se conduzir pelo bem do Povo, que está cansado de lutas, de instrumentalização e de exploração
Peço encarecidamente aos meus diocesanos que, por exigência da sua fé em Jesus Cristo, não deixem de estar atentos à situação do homem concreto. A fé não aliena; pelo contrário, obriga-nos a incarnar nos problemas e nas situações do nosso mundo e dos homens do nosso tempo. Não tenhamos medo
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