Relação entre fé e cultura é essencial numa sociedade onde Deus «não entra nos indicadores de bem-estar»
«A relação entre fé e cultura não é secundária mas estrutural», considera o italiano Carmelo Dotolo, professor numa das mais prestigiadas universidades católicas do mundo.
Para o docente da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, a Igreja Católica precisa de «novas escolhas culturais, pastorais, teológicas» capazes de «interagir» com a sociedade.
Na conferência que proferiu a 3 de dezembro em Braga, o professor sustentou que a Igreja deve ser «um sinal credível e confiável» para revelar a «frescura de uma mensagem que tem como objetivo humanizar a vida e a sociedade», ao mesmo tempo que permite a todo o ser humano «encontrar o sentido e significado da própria existência».
O papa Paulo VI realçou que «se a fé não é capaz de elaborar cultura, arrisca-se a ser tangencial à vida», não incorporando «elementos significativos na existência», lembrou Carmelo Dotolo na intervenção intitulada "Novas linguagens na transmissão da fé".
Os católicos enfrentam o desafio de «o cristianismo poder ser, ainda hoje, expressão de uma modo de vida e, portanto, de um estilo com o qual se leva adiante a construção de um mundo melhor e diferente», sublinhou.
O professor leigo referiu a necessidade de este tempo «pós-cristão» ser avaliado «não com um juízo negativo» mas na convicção de que o «Espírito Santo» oferece aos católicos a possibilidade da «conversão cultural do crer».
Numa sociedade marcada pelo «neo-paganismo», vive-se «como se Deus não existisse» e o divino «não entra nos indicadores do bem-estar», observou.
A fé cristã é um «movimento de procura» de bem-estar que, ao contrário de outras correntes, não se baseia na busca «narcísica» de si mas aponta para um «processo de construção de uma identidade relacional, aberta ao bem».
«Jesus Cristo, que não é facilmente domesticável ao nosso bem-estar», reclama do ser humano uma «corresponsabilidade muito séria», vincou o docente, acrescentando que um Deus à «imagem e semelhança» do ser humano pode encontrar-se em «qualquer supermercado religioso».
O professor está convicto de que deixou de ser suficiente uma «participação passiva» na Igreja, dado que ser-se cristão implica «pôr-se em movimento» e a fé torna-se uma «formalidade» se não implicar o dinamismo existencial.
A escuta das palavras do quotidiano e de Deus, a redescoberta da «fraternidade eclesial» que se abre à «colaboração na diversidade», o alargamento dos ministérios (serviços) na Igreja, a contribuição para a «transformação do mundo» e a «coragem de alimentar a interioridade de espiritualidade» constituem os desafios que, segundo Carmelo Dotolo, os católicos são chamados a responder.
Rui Jorge Martins
In Agência Ecclesia
11.12.12









