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"Requiem" e "Judas", de António Pinho Vargas

Imagem Capa do CD (det.) | D.R.

"Requiem" e "Judas", de António Pinho Vargas

«Sinto-me obrigado a confessar (palavras ambíguas, estas) que o período de composição desta obra foi pesado para mim. Talvez porque a educação católica que tive, somada às leituras juvenis da Bíblia e aos valores judaico-cristãos da nossa civilização, tornam cada palavra do texto litúrgico plena de significações e possíveis interpretações que a vastíssima exegese bíblica e a enorme literatura sobre o episódio confirmam.»

É com estas palavras que o compositor português António Pinho Vargas (n. 1951) começa por apresentar a oratória "Judas (segundo Lucas, João, Mateus e Marcos)", estreada em 2002 na sequência de uma encomenda do Festival de Música Sacra de Viana do Castelo, e recentemente lançada no mercado português pela editora Naxos.

António Pinho Vargas considera que «o recente regresso do sagrado tem produzido inúmeras obras com texto litúrgico que continuam a grande tradição da música sacra», como é o caso da "Passio", "Te Deum", "Miserere", "Requiem", "De Profundis", «peças compostas maioritariamente por compositores religiosos, mas igualmente agnósticos, como Ligeti».

«As interrogações ontológicas não são exclusivo dos teólogos e as questões da morte, da traição, da culpa, da dúvida, do determinismo e do livre arbítrio são eminentemente humanas», assinala o autor.

 

O compositor explica que na «impossibilidade de usar solistas, por razões de ordem financeira», foi obrigado a «procurar uma solução para as falas de Jesus e Judas»: «Optei no caso de Jesus por usar quase sempre vozes femininas como modo, sem dúvida arbitrário, de realçar uma qualquer noção de fragilidade humana. Não existe nenhuma especulação sexual ou transsexual nesta opção».

«Há dois milénios que Judas Iscariotes carrega o fardo da delação infame sem perdão. É a hipótese de isso estar tão determinado como a morte de Cristo, sem a ressurreição e glória posterior, que torna a sua figura trágica no sentido que os gregos, com os seus deuses demasiado humanos, manipuladores do destino dos homens, davam ao termo. Jesus, por vezes demasiado humano ("Pai, afasta de mim este cálice"), traído por um dos seus escolhidos, igualmente com a morte sacrificial no horizonte, em nome da redenção dos homens, não é menos trágico, apesar da condição particular e ambivalente de Deus feito homem», conclui António Pinho Vargas.

A obra voltou a ser apresentada em Lisboa, na Gulbenkian, em maio de 2004: «Estes concertos mantêm-se na minha memória como inesquecíveis. O compositor faz o seu trabalho com o máximo empenho, mas cabe aos cantores e aos músicos dar-lhes realidade, transformar aquele conjunto de signos escritos na partitura no evento sonoro que é dado à perceção sensível dos ouvintes. Uma partitura, por si só, nunca é inesquecível. Essa qualidade só pode ser atribuída a uma obra quando se verificar o momento de mediação – o concerto –, efetuado pela realização dos músicos. Aqueles foram sempre excecionais», sublinha Vargas.

A primeira parte do disco da Naxos é reservada ao "Requiem", estreado em 2012. Ambas as obras são interpretadas pelo Coro e Orquestra Gulbenkian, neste caso por Joana Carneiro, e Fernando Eldoro para a gravação da peça sobre o apóstolo que traiu Jesus.

O "Requiem" surgiu de uma proposta que o compositor apresentou em 2009 à Fundação Calouste Gulbenkian, solicitando uma encomenda que lhe permitisse dar continuidade à oratória "Judas".

«Escrever um "requiem" é, em primeiro lugar, dar uma “resposta” particular a uma história de numerosas obras musicais do passado, umas conhecidas de todos, outras – serão centenas – hoje desconhecidas», aponta António Pinho Vargas no texto de apresentação.

Em segundo lugar, prossegue, é tratar um texto litúrgico pertencente à «tradição ocidental cristã, mas cujo significado mais profundo remete para aquele momento em que os homens primitivos começam a dar sepultura aos seus mortos, momento que os arqueólogos identificam como sendo o início, ainda pré-histórico, do longo percurso do ser humano a caminho da consciência de si».

«Colocadas as questões nestes termos, isto é, num sentido mais amplo do que a história da música, ou mesmo da cristandade, a questão central do texto da missa dos mortos – o
"requiem" é uma "missa defunctorum" – é talvez passível de ser descrita com uma só frase: “Deus, acolhe no teu seio aqueles que morreram”», sustenta.

Para António Pinho Vargas «não há nada mais universal para a humanidade do que a sequência inelutável nascimento, vida, morte».

«Mas um compositor, uma vez decidido a compor um "requiem", tem tarefas menos transcendentes, mas igualmente necessárias. A primeira é verificar os diversos tipos de seleção do longo texto que os compositores fizeram no passado relativamente ao estabelecimento do seu texto particular. (...) Depois, durante o ato compositivo, como sempre acontece perante um texto, certas secções dele adquirem, durante o trabalho da composição, diferentes graus de importância quer no quadro formal, quer na duração geral.»
«Se, hoje em dia, já quase ninguém reclama um plano prévio rígido como sendo indispensável, pelo contrário, devo sublinhar que aquilo que nunca se pode dispensar é o trabalho de escolha, de medida, de criticismo, de consideração de alternativas, de nova escolha, de verificação das proporções internas e da retórica expressiva finalmente existente, tanto no uso do texto em si, como no discurso musical resultante. Este é o trabalho do fazer do objeto artístico. Nele reside o essencial do trabalho do compositor e da inerente reflexão humana sobre a finitude que uma obra desta natureza coloca no centro e, como ponto prévio, do desejo criativo», conclui António Pinho Vargas.

A crítica Maria Augusta Gonçalves sustenta que na oratória "Judas", «tudo é drama. A perturbação é constante, intensificada pelos instrumentos de percussão. Orquestra e vozes combinam-se num complexo jogo de texturas, materializando as perspetivas que se acumulam».

O artigo publicado no "Jornal de Letras" de 15 de outubro detém-se também sobre o a oração pelos defuntos, que no entender da autora se coloca «necessariamente na linha dos grandes "Requiem" da história da música».

Jorge Calado escreve, no "Expresso" de 29 de novembro, que a oratória é composta por «seis números de duração sucessivamente decrescente, martelados pelos raios e coriscos da percussão, com o nó górdio do último, "Se suspendir" (Enforcou-se), antes do comentário final.

Na apreciação ao disco a que dá a nota máxima, o crítico refere-se também ao "Requiem", em que o "Kyrie" «surpreende pela brevidade e reticência», e a "Lacrimosa" escorre numa melodia».

«Tudo converge no drama do "Libera me", com as cacofonias vocais dos aflitos, um crescendo implorante que se apaga no acorde imperfeito final», assinala.

 










Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 03.12.2014

 

Título: Requiem / Judas
Compositor: António Pinho Vargas
Intérpretes: Coro e Orquestra Gulbenkian (Joana Carneiro / Fernando Eldoro)
Editora: Naxos
Duração: 01:04:27

 

 
Imagem Capa do CD | D.R.
As interrogações ontológicas não são exclusivo dos teólogos e as questões da morte, da traição, da culpa, da dúvida, do determinismo e do livre arbítrio são eminentemente humanas
Escrever um "Requiem" é tratar um texto litúrgico pertencente à «tradição ocidental cristã, mas cujo significado mais profundo remete para aquele momento em que os homens primitivos começam a dar sepultura aos seus mortos, momento que os arqueólogos identificam como sendo o início, ainda pré-histórico, do longo percurso do ser humano a caminho da consciência de si
Aquilo que nunca se pode dispensar é o trabalho de escolha, de medida, de criticismo, de consideração de alternativas, de nova escolha, de verificação das proporções internas e da retórica expressiva finalmente existente, tanto no uso do texto em si, como no discurso musical resultante
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