

Quando o papa Francisco presidiu à missa no Parque Nu Guazu, no Paraguai, em julho, ficou diante de um retábulo de 22 metros de altura por 40 metros de comprimento. Para criar esta peça única, o artista paraguaio Koki Ruiz usou 32 mil espigas de milho, 200 mil cocos bebés, mil abóboras e 350 kg de sementes e grãos.
«Fazê-lo com os frutos da nossa terra é um símbolo que pretende fazer as pessoas refletir e pensar na nossa Terra e na importância da natureza», afirmou Ruiz. «Renova o valor que os povos guaranis deram aos frutos da terra.»
Ruiz, de 58 anos, é um conhecido artista no Paraguai que se notabilizou pelas suas pinturas rurais pitorescas e pela sua performance artística realizada anualmente na Sexta-feira Santa.
Para Ruiz, cada elemento do seu altar inspirado no Barroco tem uma ligação propositada à natureza e ao ambiente, coincidindo com a mais recente encíclica do papa, "Louvado sejas".
Ruiz recorreu ao milho como material principal porque, explicou, os povos guaranis do Paraguai conferiam-lhe grande valor. «Na cultura europeia usavam ouro para dourar um altar. Para os guaranis, o mais precioso que tinham eram os frutos da terra, por isso dourámos este altar com milho, substituindo o ouro na sua cor e brilho».
O artista e a sua equipa não usaram qualquer pintura em todo o altar. Foram utilizadas sementes e grãos coloridos para criar os retratos de Santo Inácio de Loyola e S. Francisco de Assis, de 2,5 m por 4 m.
A imagem de Santo Inácio foi escolhida para homenagear os missionários jesuítas que converteram o povo guarani, e S. Francisco foi eleito em virtude do seu amor pela natureza e pelos animais, e por ser o nome escolhido pelo papa.
«Para que o altar representasse o Paraguai, todos tinham de gostar dele e de o compreender», disse Ruiz, que trabalhou com uma equipa de 20 trabalhadores, além da colaboração de centenas de voluntários que deram frutos e trabalho.
Raramente Ruiz, se alguma vez acontece, usa a primeira pessoa para falar do trabalho; é com orgulho que refere as pessoas que participaram na sua execução. De todos os pontos do país foram muitos os que inscreveram os seus nomes, mensagens e orações nos pequenos cocos verdes.
Tornar a arte e a fé acessíveis às massas é uma parte crucial do trabalho de Ruiz, que começou a trabalhar ambos em 1992, no seu evento de Sexta-feira Santa.
«Quis fazer arte com as pessoas na minha cidade», explicou. «Observei que a maneira como a maior das pessoas aqui comunica entre elas é através de experiências religiosas partilhadas».
Diz-se «fascinado» ao ver como, mediante a «religiosidade popular», as pessoas se ligavam entre si pela sua fé. Na década de 90, apontou, os habitantes da sua cidade, San Ignacio, sentiam que a Igreja católica tinha alienado os aspetos culturais da celebração da fé, focando-se apenas na teologia e na leitura da Bíblia.
«Pensei que as pessoas precisavam de se expressar e de sentir, e a melhor maneira de o fazer é através da sua religião», considerou Ruiz.
Em 1992 juntou os amigos e a família para participar numa via-sacra à luz das velas, entoando antigos hinos guaranis durante o percurso. Hoje, a "sua" Sexta-feira Santa atrai 15 a 20 mil visitantes, ao longo de quatro horas.
De 2004 a 2014 Ruiz encenou quadros vivos, com participantes que recriavam pinturas religiosas famosas como a "Última Ceia", de Leonardo Da Vinci, e obras de artistas como El Greco e Salvador Dali.
Este ano, os quadros vivos foram exibidos num museu afastado da procissão porque Ruiz notou que as pessoas iam a Tañarandy para tirar fotografias das representações, não dando atenção à experiência espiritual da procissão.
«Esta arte religiosa transformou-me e renovou grandemente a minha fé», vincou Ruiz. «Experiências como esta apoiam e ajudam e são importantes porque a razão não pode dar o que dá a fé.»
O evento de Tañarandy é gratuito, sendo financiado por Ruiz, desejoso de que todos possam experienciar a arte, independentemente do seu estatuto social e económico. O seu sustento, da sua família e deste projeto provém das suas pinturas a óleo, que vende a clientes de países como EUA, Alemanha, Espanha e Holanda.
As pinturas de Ruiz captam a atmosfera quotidiana da vida rural paraguaia: agricultores, músicos, crianças a jogar à bola, uma mãe que alimenta a peito o filho. Ruiz oferece calor e emoção às suas pinturas afetivas através da composição e da palete de cores.
O retábulo de milho não comestível, culminar do trabalho artístico participativo de Ruiz, obteve atenção internacional, foi distinguido pelo governo e chegou a ser elogiado pelo papa Francisco.
Lorena O'Neil