Investigação
Revista Portuguesa de Filosofia dedica novo fascículo ao tema "O rito dá que pensar"
“O rito dá que pensar” é o tema da mais recente edição da Revista Portuguesa de Filosofia, fundada há 69 anos e integrada na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Braga).
O assunto estudado radica no enunciado «lex orandi, lex credendi», dos primeiros séculos da era cristã, segundo o qual «a ordem da devoção ritualizada dá forma à ordem do acreditar, isto é, do pensamento», explica o texto de apresentação, assinado pelo diretor da publicação, Manuel Sumares.
Os ensaios que compõem as mais de 400 páginas do fascículo visam demonstrar a validade desta regra, começando pelo de João Duque, sobre a “Linguagem do Mito”, inspirado na tese de Gadamer sobre a constituição linguística do mundo.
O artigo salienta que «a doação fenomenológica do fundamento infinito na linguagem finita é que caracteriza a especificidade do rito, como linguagem do fundamento e como fundamento da linguagem».
Em “Repetition as resumption”, Dan Chitoui «procura demonstrar a peculiaridade do filosofar bizantino, bem como o grau ao qual este, implicitamente, se refere
à dimensão litúrgica, que organiza e aprofunda o pensamento e a experiência através da repetição».
Por seu lado, Ricardo Barroso Batista, com o estudo “Reposicionando o Endurantismo na atual metafísica da Persistência, segundo a analogia do ser”, sustenta que «o pensamento analógico é ainda muito promissor para a filosofia».
Os três artigos seguintes centram-se na «dimensão narrativa e comunicacional da experiência humana».
Pedro Valinho abre esta unidade temática com “A diferença da Cidade de Deus. O mythos cristão e o nada a partir de John Milbank e David Bentley Hart”, análise que visa uma alternativa ao facto de o mundo contemporâneo ocidental, «herdeiro de uma ruptura com a tradição cristã», se mover «por entre fragmentos do que outrora se lhe oferecera como seu esquema concetual».
«A declaração nietzschiana da morte de Deus marca profeticamente essa rutura, abrindo portas àquilo que David Bentley Hart apelidará do único culto possível depois do cristianismo: o culto da subjetividade absoluta, isto é, do nada», contextualiza o autor.
Ao escrever sobre «o denso simbolismo contido na figura da paternidade espiritual, na tradição ortodoxa oriental», Liviu Barbu «procura enfatizar o contexto eclesial necessário para a plena consciencialização ontológica da presença divina, sempre sob a orientação de alguém que já tenha alcançado essa forma de estar».
Yolanda Espiña estuda a Teologia da Forma, de Marshall McLuhan, «que, apesar de não ser geralmente reconhecida, está na base do trabalho revolucionário» do autor sobre a Teoria dos Média, «conferindo-lhe uma profundidade surpreendente».
“Metamorfoses da consciência religiosa. Uma hermenêutica do testemunho de Malcom X” «sublinha o efeito do testemunho na mente de alguém que aspira a uma visão do mundo coerente com os seus compromissos políticos».
«A noção de rito de passagem aparece no centro do ensaio de Alberto Araújo sobre o mito de Teseu: «Tendo por base Mircea Eliade, o autor reconhece nas transformações interiores do sujeito humano (…) a importância da iniciação nas provações, experienciadas ritualisticamente como uma passagem através de um labirinto».
Castor Ruiz, em “A condição de Homo Sacer. O Direito e a Arqueologia do Sagrado, um diálogo com Giorgio Agamben» apresenta a tese de que, «entre o direito e sacralidade da vida há uma relação paradoxal que não se resolve negando um dos aspetos, nem dissolvendo-os».
A secção “Ad Extra” oferece um estudo de António Martins Costa, que «procura observar o impacto do pensamento de Bergson no de Leonardo Coimbra», pensadores que «indicaram a persistente necessidade da renovação da razão, em ordem a ser razão», enquanto que Clara Costa Oliveira analisa o «potencial da teoria da rivalidade mimética de René Girard no livro de Dostoiévski “Os Irmãos Karamazov”.
A Revista Portuguesa de Filosofia, de «inspiração cristã», tem por missão «a publicação de artigos inéditos de reconhecido mérito, aceitando textos de qualquer horizonte de pensamento, em qualquer área de filosofia, escritos nas principais línguas europeias».
Rui Jorge Martins
© SNPC |
13.03.14









