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Só o Pobre se faz Pão: entrecruzar jejum, interioridade e compaixão

A multiplicidade, a dispersão e também as contradições dos nossos desejos fazem apelo a um processo de reconciliação. E quando se diz reconciliação, de nenhum modo se pretende dizer - nem faria sentido - marginalização de algum sentimento que nos habite.

É importante afirmá-lo, porque existe uma tentação comum de separar bons e maus desejos. Aliás, não o fazemos só com os nossos desejos. Gastamos uma boa parte da nossa energia a traçar fronteiras. Somos herdeiros de uma visão dualista do mundo e de nós próprios, geradora de tanto sofrimento.

Quantos de nós não carregámos, ou ainda carregamos, com o peso de um sentimento ou de um desejo que consideramos como mau? O moralismo é uma das piores ameaças a uma sã espiritualidade. Não deixa espaço à indagação, fecha todas as possibilidades de descoberta, destrói a autonomia e a consequente liberdade do sujeito, pois apresenta-se a priori como uma sentença definitiva, interiorizada acriticamente como reflexo de um determinado contexto cultural. Deveríamos ser mais perscrutadores atentos da vida do que catalogadores.

Somos movimento, somos fluir, somos alternância. Somos gente em acontecimento. Temos ainda para aprender uma suavidade no olhar sobre nós próprios e sobre os outros. Não terá sido esse o olhar de Jesus ante a mulher adúltera (João 8, 3-11)? Ele baixa os olhos, inclina-se para o chão, sabe que somos pó da terra. Recusa-se a julgar e a condenar. «Quem estiver sem pecado que lhe atire a primeira pedra!» - diz, criando assim um espaço de autointerrogação, convidando a um peregrinar da lei para o coração, possibilitando que cada um se confronte com a sua própria contradição. Ninguém sai condenado; todos partem, incluindo a mulher, num processo de reconstrução, que só o amor tornou possível.

O nosso itinerário existencial nada tem de linear. Bem que gostamos de nos imaginar numa linha contínua e ascendente, mas a própria vida encarrega-se de nos mostrar, até à saciedade, que não é assim. Poderíamos saber o que é a luz sem experimentar a escuridão? E o dia não é seguido pela noite e a noite pelo dia? Como também sabemos que não existe prazer sem dor, e que a capacidade para sentir prazer é proporcional à capacidade para sentir dor.

Não será um erro de perspetiva fixar-nos na luz, no dia, no prazer? E a escuridão, a noite, a dor, não são igualmente mestres na vida? São Paulo, numa referência autobiográfica, não diz que, onde abundou o pecado, superabundou a graça? Será possível traçar uma fronteira rigorosamente delimitada entre bem e mal?

Precisamos de abandonar olhares parcelares e crescer numa visão mais unificada. É precisamente a partir dessa visão que é possível a reconciliação dos nossos desejos. Trata-se de um caminho de autenticidade onde é fundamental não mascarar, não reprimir e não culpabilizar.

Nenhum desejo é irrelevante. Por detrás de um desejo que nos pode parecer obscuro esconde-se, tantas vezes, uma força vital ainda desconhecida. Importa seguir-lhe o rasto. Todos transportam uma mensagem que pede discernimento. As nossas múltiplas carências apontam no sentido da carência mais profunda. Este é o fio condutor que estamos chamados a seguir. Impõe-se aqui um trabalho interior comparável a uma viagem.

Cada ramificação do desejo conduzir-nos-à ao nosso desejo mais profundo. Trata-se de passar da multiplicidade para a unidade. Do plural para o singular. Do superficial
para o profundo. Qual é a minha carência mais profunda, a ausência maior que me habita, essa ferida que permanece aberta como se fosse insanável? Ou, de outro modo: qual é o meu desejo vital, essencial, absolutamente decisivo? De que estou à procura?

Reconciliar os nossos desejos é, pois, unificá-los em torno de um centro. Não um centro que eu construo, mas um centro que me é dado - essa marca indelével do divino inscrita na nossa carne. E essa marca é uma ferida. Teresa de Ávila di-lo de uma forma muito intensa, sob a forma de pergunta: «Poderão existir remédios humanos para os que estão doentes do fogo divino? Quem sabe até onde chega a profundidade dessa ferida?» É essa ferida que oferece a cada um de nós a possibilidade de sair da sua cidadela e de se religar com a Fonte. Neste movimento está desenhado o nosso desejo essencial.

«O meu coração murmura por ti,
os meus olhos te procuram;
é a tua face que eu procuro, Senhor» (Salmo 27 [26], 8)

 

Carlos Maria Antunes
In Só o Pobre se faz Pão, ed. Paulinas
27.02.13

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Capa

Só o Pobre se faz Pão

Autor
Carlos Maria Antunes

Editora
Paulinas

Ano
2013

Páginas
128

Preço
9,90 €

ISBN
978-989-673-293-6

 

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