

«É preciso contrapor ao fanatismo e ao fundamentalismo, às fobias irracionais que encorajam incompreensões e discriminações, a solidariedade de todos os crentes», vincou hoje o papa Francisco perante as autoridades políticas turcas, em Ancara.
Antes, na visita ao mausoléu de Atatürk, considerado o fundador da República da Turquia, ponto de passagem obrigatório para chefes de Estado estrangeiros, Francisco já tinha recordado o papel do país no cruzamento de crenças e culturas.
«Formulo os votos mais sinceros para que a Turquia, ponte natural entre dois continentes, seja não apenas uma encruzilhada de caminhos, mas também um lugar de encontro, de diálogo e de convivência serena entre os homens e mulheres de boa vontade de cada cultura, etnia e religião», escreveu o papa no livro de honra.
Na primeira das intervenções programadas para a viagem à Turquia, que começou esta sexta-feira e termina no domingo em Istambul, o papa recordou que S. Paulo nasceu no atual território turco, onde também se situa a casa de Maria, em Éfeso, e onde se realizaram sete concílios da Igreja.
Depois do passado, o presente: um país que tem o denominado “Estado Islâmico” à porta da fronteira, que procura equilíbrios internos e que restringe a liberdade de expressão.
«É preciso prosseguir com paciência o compromisso de construir uma paz sólida fundada sobre o respeito dos direitos fundamentais e deveres ligados à dignidade do homem», afirmou Francisco.
No entender do papa, a liberdade religiosa e a liberdade de expressão «estimularão o florescimento da amizade, tornando-se um eloquente sinal de paz».
Para este efeito, «é fundamental que os cidadãos muçulmanos, judeus e cristãos, tanto nas disposições da lei como na sua efetiva atuação, usufruam dos mesmos direitos e respeitem os mesmos deveres».
A visita de estado de Francisco é a primeira que se realiza no novo e imponente palácio presidencial de Ancara, situado sobre uma colina que domina a cidade, e que custou mais de 600 milhões de dólares.
No seu discurso, o presidente turco, Recep Tayyp Erdogan, manifestou concordância com o papa no que diz respeito ao «terrorismo, violência no mundo e contra a supremacia do capital».
O responsável observou que no Ocidente está a aumentar a islamofobia e que há quem pretenda fazer com que o islão se torne sinónimo de violência.
Erdogan denunciou os grupos fundamentalistas, como o Boko Haram e o Estado Islâmico, atacou o «terrorismo de estado» por parte da Síria e criticou o seu presidente, «o tirano» Assad, assim como o silêncio da comunidade internacional a seu respeito.
«Por quanto tempo deverá sofrer ainda o Médio Oriente por causa da falta de paz? Não nos podemos resignar à continuação dos conflitos, como se não fosse possível uma mudança para melhor da situação», assinalou Francisco, para quem é necessário «renovar sempre a coragem da paz», por exemplo com o recurso ao diálogo inter-religioso e intercultural.
De modo particular na Síria e no Iraque, «a violência terrorista não dá sinais de aplacar»: «Regista-se a violação das mais elementares leis humanitárias no que respeita aos prisioneiros e de grupos étnicos».
Por outro lado, continuam as perseguições a «grupos minoritários, especialmente – mas não só – aos cristãos e yazidis: centenas de milhares de pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas e a sua pátria para poder salvar a própria vida e permanecer fiel ao próprio credo», afirmou Francisco.
A Turquia, lembrou o papa, «está a acolher generosamente uma grande quantidade de refugiados», pelo que «a comunidade internacional tem a obrigação moral de a ajudar» no cuidado por eles.
Centrando-se nas causas do conflito que provoca milhares de deslocados, Francisco reiterou que «é lícito deter o agressor injusto, mas sempre no respeito pelo direito internacional», embora não se possa deixar a solução do problema «apenas à resposta militar».
«E necessário um forte compromisso comum, baseado na confiança recíproca, que torne possível uma paz duradoura e permita destinar finalmente os recursos não aos armamentos mas às verdadeiras lutas dignas do homem: contra a fome e as doenças, para o desenvolvimento sustentável e a salvaguarda da criação, em socorro de tantas formas de pobreza e marginalidade», salientou o papa.
A Turquia, dada a sua história e importância na região, «tem uma grande responsabilidade: as suas escolhas e o seu exemplo possuem um valor especial, e podem ser de grande importância no favorecimento de um encontro de civilizações e na identificação de caminhos realizáveis de paz e de autêntico progresso», concluiu Francisco.
Andrea Tornielli