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Talvez Sophia não gostasse de ir para o Panteão, diz Miguel de Sousa Tavares

O escritor Miguel de Sousa Tavares não tem a certeza de que a sua mãe, Sophia de Mello Breyner, gostasse de vir a ser trasladada para o Panteão Nacional, decisão aprovada por unanimidade pela Assembleia da República a 20 de fevereiro, ainda que «enquanto cidadão» considere que se trate de um «ato de justiça».

«Enquanto filho da minha mãe, não sei se ela gostaria de estar no Panteão, porque toda a sua literatura são terraços, são jardins, são noites de luar, são praias, são mar, é tudo isto... não é um sarcófago de mármore fechado numa sala, com dez pessoas à roda, por mais ilustres que sejam. Tenho muitas dúvidas sobre isso», declarou em entrevista ao programa de cultura "Ensaio geral", da Renascença, transmitido a 21 de fevereiro.

Questionado sobre a situação social em Portugal, o cronista lamentou a emigração dos jovens: «O que me faz mais impressão é ver miúdos a ir embora. Acho que é uma tragédia inominável. É mais do que o falhanço de qualquer política, é o falhanço de qualquer sentido objetivo daquilo que se está a fazer».

«Um país onde os miúdos têm de ir embora aos 20 ou 30 anos, é um país que está condenado a morrer de velho, sem futuro. É absolutamente inacreditável», acentuou Miguel de Sousa Tavares, em entrevista à margem da 15.ª edição do festival literário Correntes d'Escritas, que decorreu entre 20 e 22 de fevereiro na Póvoa de Varzim.

O autor de "Equador", "Rio das Flores" e "Madrugada suja", o livro mais recente, considera que escreve «menos do que gostaria e mais devagar do que precisaria», o que atribui às outras atividades pessoais e profissionais com que se comprometeu.

«A maior parte dos meus livros têm uma componente histórica, o que envolve muito trabalho de pesquisa. E eu faço a pesquisa muito empenhadamente, não só nas leituras como também vou aos locais para ver com os meus olhos e sentir na pele os ambientes», explicou.

O processo de escrita inicia-se lentamente, até que chega um dia em que o ritmo dispara: «Quando arranco, faço-o muito devagarinho; depois há um momento - suponho que todos os escritores o terão - em que dispara uma campainha que diz "tu vais acabar este livro"; a partir daí sou metódico e faço 10 a 12 horas por dia a escrever de seguida».

Ainda no domínio do universo literário, Miguel de Sousa Tavares comentou a passagem da "Leya" para uma editora independente: «Tenho a teoria de que na edição small is beautiful. Quando comecei a escrever, fui eu que procurei a editora, não foi ela que me procurou. E procurei uma editora chamada "Oficina do Livro", de que eu não conhecia as pessoas, apenas a maneira de trabalhar, que gostei».

«Depois a "Oficina" foi comprada pela "Leya", como aconteceu com tantas outras editoras, e as suas personalidades própria diluíram-se na grande babel da "Leya". E comecei a sentir que não havia acompanhamento nem de autores nem de obra, não havia gente que conhecesse o métier. As pessoas que estavam à frente da "Oficina do Livro" foram saindo, uma por uma, fizeram o "Clube do Autor", e eu, a certa altura - não foi por uma questão de mercado "futebolístico", aliás, fui ganhar exatamente o mesmo -, quis voltar a ter um tratamento não direi personalizado, mas de amigos», afirmou.

Para o escritor, «um editor é muito mais do que a pessoa que está à espera que o autor lhe entregue o original e que de três em três meses telefona a saber quando é que está pronto»: «É muito mais do que isso. É uma pessoa em que temos de confiar mesmo muitas coisas. Muitas. E isso eu não tinha na "Leya" e agora voltei a ter».

Referindo-se à situação do jornalismo em Portugal, Miguel de Sousa Tavares sublinhou que «não há espaço para investigação a sério, não há espaço para reportagem a sério, não há espaço para gastar dinheiro a sério em fotografia, por exemplo. Tudo o que se passa na imprensa escrita é altamente preocupante».

«Os jornais dão menos espaço para escrever aos jornalistas. As coisas são mais apressadas e mal escritas. Hoje eu não teria o espaço e a liberdade que tive quando comecei a fazer reportagens escritas», assinalou.

Com Miguel de Sousa Tavares, participou também na emissão de 21 de fevereiro do “Ensaio geral”, da jornalista Maria João Costa, o escritor Manuel Jorge Marmelo, autor do livro "Uma mentira mil vezes repetida", vencedor da edição de 2014 do Prémio Literário Casino da Póvoa, atribuído no âmbito das Correntes d'Escritas.

O programa está disponível para ser ouvido na íntegra no site da Renascença.

 

Entrevista: Maria João Costa (Renascença)
Redação: Rui Jorge Martins (SNPC)
© SNPC | 24.02.14

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Foto
Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

 

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