Vemos, ouvimos e lemos
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

Férias

Tempo livre, tempo de graça

Tempo de graça é, na perspetiva cristã, uma expressão particularmente feliz que me foi dada para designar o tempo que num outro quadro referencial nos habituamos a designar como tempo livre.

Quando nos centrávamos fundamentalmente não só na contraposição entre trabalho e lazer, como na dicotomia de tempo imperativo e tempo disponível, parecia que a liberdade em dispormos de tempo para todas as atividades desejadas, era o que antes de mais caracterizava este tempo. Durante ele se construía o que, para muitos, constituía o seu projeto, de certo modo mais pessoal e intimista, da pessoa consigo própria, com Deus, com a natureza e a restante realidade, tempo em que se vivia sobretudo em grupos primários, espontâneos, informais.

Visto, embora nem sempre ajustadamente, o tempo de trabalho como limitativo, senão como opressivo, e encarado o tempo imperativo (o dedicado às outras atividades também necessárias para a nossa sobrevivência e dos que connosco de algum modo estão ligados) como igualmente restritivo, aparecia o tempo livre como sendo o da liberdade da realização pessoal, familiar, grupal, comunitária. Era como se fosse o tempo da verdadeira vida, face ao da vida como tinha de ser.

FotoReuters/Andy Clark

Embora as condições sociais não tenham muitas vezes mudado assim tão profundamente, outras começam a ser as perspetivas centrais da atualidade.

 

Tempo de graça, porquê?

Numa primeira evocação, tempo de graça significa tempo não pago, gratuito portanto. Trata-se de uma aceção que embora mais primária, valerá a pena explorar, até porque, cada vez mais, só em parte é verdadeira.

De facto, já lá vai o tempo em que o lazer era predominantemente gratuito em termos económicos ou, talvez melhor dito, já lá vai o tempo em que não se tomava consciência dos encargos que o lazer acarreta. De qualquer forma, o desenvolvimento das indústrias da cultura e a cada vez mais intensa estruturação empresarial e económica, até do próprio desporto e de tantas outras atividades associadas aos tempos livres, fazem com que mesmo a pessoa mais distraída quanto às suas contas, tome consciência dos por vezes tremendos encargos do tempo livre. Não será portanto por esta razão que valerá a pena chamar ao tempo livre, tempo de graça!

Foto Topic Photo Agency/Corbis

Será tempo de graça porque dele não esperamos contrapartida? Valerá a pena conotá-lo com a gratuidade, não tanto por não ter contrapartida, mas por não ser avaliado na nossa quotidianidade com ratios económicos, por não ser remunerado e por dele não esperarmos vantagens padronizáveis em termos materiais. Mesmo numa sociedade tão monetarizada como a nossa, parece que afinal nem todo "o tempo é dinheiro", pelo menos para quem o sabe fruir. É que, para que todo o tempo renda, é fundamental que nem todo o tempo tenha de ser dinheiro.

 

Tempo de graça, embora tempo de permuta

Mas o tempo de graça é também um tempo de permuta; é um tempo com contrapartidas, umas previstas, outras surpreendentes.

Saber libertar-se dos tempos padronizados, medidos, faz parte da arte de viver; é o complemento e a compensação fundamental da outra quotidianidade prevista, calculada, marcada, competitiva. Hoje, talvez como quase sempre, embora com critérios e escalas de medida com natureza diferente, estas são duas faces da vivência do tempo.

FotoAP Photo/ Kerstin Joensson

Uma é a face fortemente condicionada de modo explícito, que dá os frutos mais imediatos, imprescindíveis para a sobrevivência, tempo das atividades mais terra a terra, por mais complexas que sejam. Nesta face esperamos contrapartidas claras e explícitas.

A outra face é a do tempo que não se mede, a do tempo que se gasta (até porque no outro tempo se entesourou), cujos frutos hão de chegar sem se saber exatamente nem quais, nem onde, nem quando; tempo gratuito em que nos damos sem cálculo, tempo de certo modo mais exigente porque sem limites de espaço e de tempo. Mas é, porventura mais ainda, tempo com sentido.

Este tempo gratuito é por excelência o tempo da relação, daquela que nos liga profundamente com as pessoas, com a realidade no tempo e para além do tempo, que nos liga no espaço e para além do espaço, aqui e agora e libertos de cada momento e lugar.

A troca, a permuta, assim entendida, que nos "obriga" a viver uns com os outros, já a analisou Mareei Mauss no seu célebre Essai sur le Don, em finais do primeiro quartel deste século; é a dádiva e o dom de si próprio, plenamente gratuitos, mas sempre retribuídos material e espiritualmente, e tanto mais retribuídos quanto mais gratuitamente os vivermos.

FotoWolfgang Weinhäupl/Westend61/Corbis

 

Recuperar a gratuidade do tempo

O padrão básico da sociedade atual é o da troca instantânea em que os bens e serviços se produzem, propõem e pagam dentro de parâmetros pré-estabelecidos, do mesmo modo que a vida se concentra em atividades se possível definidas previamente quanto à sua natureza, tempo e lugar.

Uma vez feito o pagamento, quebra-se a relação, ou pelo menos nada exige que ela prossiga; uma vez realizada a atividade, passa-se a outra, cessando quantas vezes a memória do que acabara de ser feito.

Este estatuto da troca e da ação delimitadas no tempo, espaço e relação - até mais que delimitadas, por estatuto precárias - tem-se revelado imprescindível para a viabilização de uma sociedade complexa e aberta a tudo e a todos, mas tem mostrado igualmente a sua trágica insuficiência.

FotoAP Photo/The Flint Journal, John Ehlke

É que se todos pudermos, quanto a tudo e quanto a todos e em cada momento, prescindir de qualquer ligação estável, caímos necessariamente no isolamento pessoal e na desagregação social, a menos que tenhamos descoberto como pessoas e como sociedade que precisamos de estar para além deste mercado não só instantâneo como tendencialmente precário e volátil. Cada vez se percebe melhor como o próprio mercado se mantém pelo que está para além do mercado, pela teia das relações e expectativas cultivadas ao longo do tempo, que não "cessam" com o pagamento, mas que se encadeiam tecendo laços de fidelidade.

 

Gratuidade e aliança

Ligamo-nos uns aos outros e à vida, não só pelas ideias e emoções, mas pela troca material e espiritual em que os bens, não necessariamente materiais, simbolizam o que afinal comungamos e nos "obrigam" a prosseguir em permutas e vivências que nos levam cada vez mais longe.

Quem não tem a liberdade de saber também viver gratuitamente e em permuta, acaba por ficar só, por muito que se cruze momento a momento em trocas precárias que se esgotam sem qualquer continuidade.

FotoCraig Tuttle/Corbis

A gratuidade, vivida com permutas e contrapartidas abertas, é o caminho para a aliança que nos arranca à solidão, nos abre os horizontes do desenvolvimento pessoal e grupal, nos faz ir mais além do que somos em cada momento; até ao "amor que com amor se paga".

Quem dá gratuitamente tem, assim, de estar disposto a receber, porque disposto a aliar-se e porque consciente de que por mais rico que seja, carece da vida que também está fora de si, carece sobretudo de que Deus o ame também gratuita e criativamente e de que os outros lhe digam quem é, e que o digam com emoção.

 

Gratuidade e disponibilidade

Ressoam em finais do século XX estas verdades enunciadas não só há mais de setenta anos, mas há largos séculos. Vale a pena ouvir a voz de S. Gregório Nazianzeno, no séc. IV, dirigindo-se aos homens também ricos e poderosos do seu tempo: "Irmãos e companheiros da pobreza - pois somos todos pobres, os que necessitamos da 'divina graça, ainda se, mensurados por pequenas medidas, possamos parecer mais ricos uns que os outros - recebei este discurso sobre o amor à pobreza. Recebei-o não pobremente, mas ambiciosamente, a fim de conseguirdes a riqueza do reino dos céus."

FotoReuters/Giampiero Sposito

Então como agora, se pedia, a quem dava, uma atitude de disponibilidade para receber. Em todos os tempos a reciprocidade gratuita é afinal a base por vezes latente em que assenta a viabilidade da pessoa e da sociedade.

Ter tempo de graça faz assim apelo à arte da gratuidade recíproca, com contrapartidas não mensuradas nem rigorosamente escalonadas no tempo.

Tempo de gratuidade é tempo ligado, contínuo que cimenta não só a história pessoal em relação, como cimenta a base de todas as sociedades, a "obrigação" livremente aceite de viver em comum e não só lado a lado.

Godbout, em O Espírito da Dádiva, como muitos outros autores atuais desde Titmuss em 1972, mostra como na atualidade as novas correntes de análise sociológica se interessam de novo por esta dimensão imprescindível da sociedade e a teorizam.

São as próprias populações atuais quem eleva de novo esta dádiva ao nível mais exigente de dar alto significado ao dom a desconhecidos, ao altruísmo gratuito que curiosamente precede a generosidade recíproca e dela talvez seja propedêutico.

FotoFrank Krahmer/Corbis

Crescer na gratuidade do tempo é assim um imperativo deste final de século, que se concretizará não só na obtenção de tempo livre mas talvez sobretudo no modo como é vivido, dado, permutado.

A criança a quem deixam ser criança é um mestre da gratuidade do tempo. Se a deixarem ser quem é e se tiver pessoas queridas perto de si, "ligando-lhe" sempre que precisa, brinca com as pessoas, com as coisas e as situações, relaciona-se de modo gratuito com o que está à sua volta e explora o que a vida lhe dá. Recebe constantemente a vida e dá vida a tudo e todos quantos estão à sua volta. Saboreia a vida concretizada em grandes e pequenas situações, está sempre a dar e a receber, provoca, desafia, desconcerta, cria.

E também por esta razão que temos de nos fazer como crianças para entrarmos no reino dos Céus. A gratuidade da criança é uma centelha de Deus. Aliás, na criança se encontra não só a gratuidade, mas a graça que nela está e que não se reduz a ser engraçada; a criança mantém a frescura da criação renovada: em cada dia nasce de novo.

FotoReuters/Ali Jarekji

Mas será que hoje abundam entre nós as crianças assim evocadas? Fazemos o possível para que deixem de existir...

Além de termos poucas crianças, achamos que temos de fazer a toda a hora coisas muito mais importantes do que estarmos com elas e com elas nos renovarmos e sobretudo, quanto ao que aqui nos interessa, somos muito interesseiros a seu respeito. Parece que as crianças só têm de corresponder aos padrões que lhes impomos, sejam eles padrões de aprendizagens "cientificamente" escalonadas, sejam padrões de realização que satisfaçam as expectativas dos pais e de quem delas cuida.

Ao contrário do que parece, há crianças, muitas crianças, que não têm tempo livre nem gratuidade na sua vida, nem encontros que para elas sejam significativos. São crianças que estão só pautadas e não aliadas com alguém. Ficam-se pela sua finitude, dóceis ou rebeldes, sem tempo para respirar, saborear, reconhecer, sem tempo para serem mestres do viver no que é o contributo próprio da sua idade para todas as idades.

Entre a criança selvagem e a domesticada, entre a pura espontaneidade e a robotização, entre o boneco sobreprotegido e o "pau mandado", precisamos de encontrar o espaço e o tempo para que as crianças possam brincar e jogar, aprender, crescer, treinar, sorrir, viver, encantar. É de pequenino, e com gratuidade, que se começa a ser alguém.

FotoAP Photo

Os adolescentes e os jovens não terão um acesso muito mais aberto ao tempo gratuito. O problema não está em porventura não conseguirem ter tempo livre. Tê-lo-ão ou não, mas para muitos faltam outras condições de gratuidade.

O tempo livre só por si pode tornar-se um tempo vazio. Tempo de isolamento em casa e na rua, de isolamento não porque não estejam com outras pessoas - até estarão muitas vezes com gente demais - não porque não façam isto e aquilo, não porque não pairem sem conversar, mas porque não têm com quem crescer.

Conversar e ser conversado, ter interesses, saber que é bom ser capaz de se deslumbrar, de se dedicar, de conquistar a persistência, de cultivar a disponibilidade, de ganhar confiança em si "próprio e manter a confiança nos outros apesar das desilusões, que é bom saber esperar sem desanimar, saber como é bom ousar comparar-se com os outros sem desesperar, são outros tantos pressupostos da gratuidade que se aprendem à própria custa, mas que dificilmente se aprendem sozinho ou só com gente da mesma idade, sem adultos disponíveis capazes de acolher, aguentar, incitar e também de saber estar.

FotoAP Photo/Charles Krupa

É que muitos adultos pensam ser "mais barato", embora menos gratuito, deixar que os adolescentes e jovens se entendam uns com os outros, e só uns com os outros, nos espaços aparentemente abertos, mas de "redoma", porque fechados na sua idade, que para eles sabemos criar. Criamo-los fora de casa ao encararmos a escola como instituição fechada, criamo-los nos locais de diversão, se possível fora de portas, das nossas portas, para que não incomodem, quais novas judiarias - espaços de exclusão -, criamo-los até na rua que deixou de ser de todos para já não ser de ninguém.

Quem tem familiaridade institucional com adolescentes e jovens -os pais, os professores, os outros familiares e próximos - vive com demasiada ansiedade a mudança cultural e o choque cultural.

Face à diversidade de estímulos, de situações, de princípios, de opiniões e modas, pensam que não entendem as linguagens de adolescentes e jovens, do mesmo modo que não sentem nem entendem, por exemplo, a sua música, e "quedam-se" sem ousar partilhar a arte de viver que sentem ou como anacrónica ou incompreendida.

FotoReuters/Yannis Behrakis

O mais curioso é que adolescentes e jovens com a sua sensibilidade viva propõem aos mais velhos, embora de forma por vezes abrupta, as expressões do lazer, embora sem a arte que dá sentido à expressão. Mas desafiam, e desafiam violentamente por vezes, para um "combate" em que todos ganharíamos se o aceitássemos, construindo alianças de vida fundamentais para uns e outros. Arte da gratuidade, da disponibilidade é, também neste domínio, arte da partilha, embora nem sempre calma, idílica.

Adolescentes e jovens não podem viver num mundo segregado, pago pelos adultos para que eles não incomodem. O adulto precisa de saber "perder" gratuitamente tempo com eles, também para que o adulto deles receba estímulo, e mais que o estímulo os saberes e os recursos para ser capaz de descobrir novos interesses, novas dimensões da vida que esqueceu, para receber o acesso a tecnologias novas e a novas áreas em que se movimenta muito mal.

Faltam-nos, e em Portugal faltam-nos dramaticamente, "movimentos" de adolescência e de juventude, não como novos modos de nos desembaraçarmos destes "excluíveis", mas como instâncias em que adultos e jovens se cruzem gratuitamente.

FotoJonathon Burns

Pagam-se, para crianças, adolescentes e jovens, pequenos cursos e aulas disto e mais daquilo, diversões, saídas, passeios, tudo quanto os possa manter entretidos em "outro mundo" desde que não seja o mundo dos adultos porque estes estão cansados e têm muitas coisas para fazer. Sai mais barato, aqui também, pagar do que dar, porque se se desse, tinha de se trocar e isso tocava, incomodava.

Os adultos precisam de em muitos sentidos ser incomodados com o tempo gratuito. Uma análise realizada no princípio desta década por Christian d'Epinay, publicada sob o título Vieillir ou a vie à inventer, mostra como as histórias de vida dos mais idosos, em variados contextos sociais, revelam as limitações no desenvolvimento do tempo gratuito ao longo de toda a vida, mas sobremaneira durante o tempo em que estiveram ativos.

Quando a reforma chega - para aqueles em cuja vida o facto de se reformarem significa uma cessação de emprego e de atividade de algum modo laborai - a reforma surge não só como libertação repentina de tempo, mas como uma indefinição do tempo e do projeto de vida, particularmente penosa, embora possa ter sido esperada e querida intensamente.

FotoJeffrey Chitek

Muitos, de todas as condições sociais e com as mais diversas histórias de vida, não só não sabem que fazer ao tempo de que dispõem, como esse vazio e indefinição conduz a uma rápida degradação, constituindo aquilo a que o autor chama uma velhice de risco.

Todos os inquiridos se exprimiam no sentido de que era então fundamental ter uma vida disciplinada e ritualizada, como condição de nela se poderem inscrever os projetos mais variados.

Numa outra investigação mais recente, coordenada por Claudine Attias-Donfut, alguns dos mais conhecidos analistas dos fenómenos familiares e intergeracionais, como Segalen, Sohaber e Kellerhals, comentam, por seu turno, o alcance das permutas gratuitas não só na manutenção de uma anciania "saudável" como, de algum modo, na viabilização da vida de todos os que chegam precocemente a esta libertação de tempo.

FotoReuters/Stringer

Os mesmos fenómenos são tratados em idêntica perspetiva por Gilles Provonost numa obra mais englobante, publicada em 1996 sob o título Sociologie du Temps, na qual o autor reporta análises feitas no Canadá. Em todos estes trabalhos se mostra como a anciania, precoce ou não, revela as disfunções da restante idade adulta.

Em breves palavras se podem condensar estas disfunções, verificando-se que durante toda a vida a maioria das pessoas, seja qual for o seu género de vida, tenderem na atualidade a desenvolver atividades, sendo essas atividades programadas ou por outros ou pelo próprio, de maneira bastante rigorosa face a constrangimentos externos, e ainda no facto de a maioria das pessoas cultivar um leque muito restrito de interesses e de permutas continuadas ao longo da sua vida. Valerá a pena examinarmos a esta luz, o tempo dos adultos:

 

1. O tempo livre só por si não liberta

Será esta a primeira conclusão a destacar ao longo de toda a vida. Ter tempo livre é uma condição necessária mas não suficiente para se "saber viver". Pelo contrário, ter tempo livre pode em todas as idades ser uma condição de degradação.

FotoAnne Saarenoja/Arcaid/Corbis

Esta condição de degradação pode advir não só do emprego desse tempo em atividades degradantes, como, de um modo mais subtil, pode advir da indefinição e do vazio de projeto que conduzem a uma perda de dignidade e de identidade.

Bernard Valade, num artigo sobre cultura do Tratado de Sociologia de Boudon relembra como para os gregos a paideia, através da qual se preparavam as crianças para se tornarem homens capazes de ser alguém, pressupunha a disciplina. Di-lo quase nos mesmos termos em que os mais idosos suíços a reclamavam, na palavra de D'Epinay.

Tempo livre, tempo de graça, deve ser um tempo autodisciplinado que mantenha viva a capacidade de projeto ao longo de toda a vida.

Não é que não se possam fruir, também na idade adulta, dias sem horas para nada, vivendo ao sabor da fantasia. Estes tempos podem constituir o contraponto necessário à asfixia do dia a dia, mas não devem constituir a única alternativa em qualquer género de vida.

FotoBill Holden/cultura/Corbis

 

2. O tempo gratuito não se deve concentrar só em atividades

Vivemos, como sublinha D'Epinay, num conjunto de culturas que privilegiam as atividades, em detrimento dos modos de estar mais livres e contemplativos. Essa é a nossa linguagem de base que será difícil e desnecessária por um lado, se bem que o desenvolvimento dos media, dos espetáculos e dos novos géneros culturais tenha já atenuado este ativismo constante das nossas culturas.

Saber estar, saber conversar à vontade, ser capaz de meditar, saber até observar e também relaxar são dimensões da vida, vivida connosco, com Deus e com os outros que é preciso voltar a desenvolver.

Muitos, mais jovens e menos jovens, procuram estes saberes e modos de estar em culturas orientais, quantas vezes durante um limitado período das suas vidas.

FotoEssdras M Suarez/Boston Globe

Para quando a capacidade de buscarmos na nossa própria tradição cultural estes velhos/novos modos de viver, não em honra de qualquer etnocentrismo, mas porque, enquadrando-se melhor na linguagem das nossas culturas, poderiam fundamentar atitudes mais constantes, embora sem a aura do exotismo?

 

3. O tempo gratuito é a época em que se cultiva um vasto leque de interesses

Os adultos têm, a uma primeira aproximação, interesses va­riados e tão mais variados quanto a "indústria da cultura" os solicita constantemente com novos desafios.

Muitos destes interesses são, porém, tremendamente esporádicos, e pouco interativos. Cada adulto é como um alvo bombardeado por estimulações que se apagam umas às outras.

FotoWolfgang Weinhäupl/Westend61/Corbis

A cultura cultiva-se e é um culto; hoje a cultura postula a opção e a fidelidade. Os adultos precisam de aprender a cultivar o tempo que lhes é dado gratuitamente, desenvolvendo o que para eles e para aqueles com quem vivem é significativo, não só criando hábitos, como desenvolvendo competências fora da sua profissão ou no seu prolongamento.

Para além dos interesses esporádicos, os adultos interessam-se em construir a sua casa e em obter um conjunto de bens tidos como preciosos, tais como carro, mobílias e outros sinais de posição social que lhes dão segurança e os fecham num pequeno mundo de privacidade. Viajam também, para obterem recordações que decorem o seu mundo privado.

Este leque muito fechado de interesses dá uma segurança que com o andar dos anos se torna precocemente asfixiante. Não deixa de ser muito revelador verificar o elevado número sobretudo de homens que, após os quarenta anos, se enclausura neste seu mundo privado, e que antes de qualquer reforma se defende no seu "território" de que é dono e senhor, vendo como particularmente hostil a vida ao seu redor.

FotoReuters/Thomas Peter

Sem prejuízo dos espaços de privacidade, os adultos precisam assim de se tornarem mais capazes de disponibilidade para o serviço dos outros e para a permuta extraprofissional sem a reduzirem ao circuito das compras e dos espaços comerciais.

Precisam de estar para além da ambiguidade do dom a desconhecidos, e só capazes desse dom, que por vezes aparece como uma "desobriga" em relação às permutas gratuitas efetivadas entre gente viva, face a face, que é importante realizar.

 

4. O tempo gratuito é aquele em que se reduz a ansiedade e se cultiva a confiança

Vive-se em frustração quando se perde a esperança, a capacidade de esperar sabendo que cedo ou tarde o que esperamos virá.

Já vimos como a matriz básica da quotidianidade atual é a da parametrização das prestações e contraprestações. O dia a dia profissional e imperativo é regulado e regulamentado quanto a tempos e espaços, quanto ao esforço/recompensa.

FotoAP Photo/Matt Rourke

Esta matriz que é prática numa sociedade complexa, tem, para além das disfunções já referidas, os inconvenientes de evidenciar o fracasso, por vezes de modo intolerável, e o de nos obrigar a viver sempre a curtíssimo prazo tornando-nos vulneráveis sempre que a espera se torna maior. Ficamos ansiosos porque nunca temos a certeza que a recompensa virá.

Viver o tempo, também em gratuidade, é fundamental para reconquistar a confiança na vida e nos outros, sem estar sempre a correr atrás das oportunidades, com tanto receio de perder a primeira oportunidade que se luta já pelas oportunidades precoces, antes de tempo, pois assim alguém se sente mais seguro.

A confiança interativa e não regulamentada automaticamente pelo sistema, a não exterior à pessoa, cria-se sabendo alargar o prazo ou até prescindir do prazo.

Foto Rodrigo Torres/Glowimages/Corbis

Por muito forte que seja a historicidade do tempo cristão, este tempo está também para além da história e está, desde hoje, na história e para além da história.

É o próprio dia a dia que precisa de tornar-se histórico e eterno em simultâneo, ajuízável por nós de modo relativo, mas suscetível de ser visto por outros olhos, por critérios que nos escapam.

É esta liberdade dos Filhos de Deus que liberta o tempo livre, fazendo-nos dar de graça o que de graça recebemos.

 

Fernando Jorge Micael Pereira
In Communio (1999/1)
27.07.12

Redes sociais, e-mail, imprimir

FotoGreg Dale/National Geographic Society/Corbis

 

Ligações e contactos

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Subscreva

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página

 

 

 

2012: Nuno Teotónio Pereira. Conheça os distinguidos das edições anteriores.
Leia a última edição do Observatório da Cultura e os números anteriores.