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Leitura: "Terramoto doutrinal"

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Leitura: "Terramoto doutrinal"

«A polémica obra», o «atrevimento» e as «posições audazes» do padre João Moutinho na oposição à Inquisição em Portugal constituem o núcleo do livro "Terramoto doutrinal", do bispo português D. Carlos Azevedo.

Nas páginas iniciais do volume, o delegado do Conselho Pontifício da Cultura sublinha que «tem merecido pouco interesse dos estudos sobre a Inquisição a polémica obra, escrita pelo ex-oratoriano portuense João Moutinho e publicada por impressor florentino, em 1755, até ser suspensa a impressão e condenada à fogueira privada».

O historiador consultou o processo da Inquisição romana que reduziu a cinzas quase todos os exemplares que o religioso português dirigiu ao rei D. José I, publicados poucos meses antes do sismo de 1 de novembro de 1755, que destruiu parte significativa de Lisboa e outras cidades.

"Terramoto doutrinal - A 'Carta dogmático-política' (1755) do P. João Moutinho contra a Inquisição", publicado pela editora Temas e Debates, começa por apresentar sinteticamente «o ambiente crítico do Tribunal da Inquisição», passando depois «a recolher os dados possíveis» relativos à biografia de João Moutinho.

«Conseguimos obter a data do seu nascimento (12 de setembro de 1698). Seguimos os passos do professor de filosofia em Braga e do seu abandono da Congregação do Oratório, no ano de 1732, em ordem a rumar para Roma. Em 1750 e 1751 desloca-se a Lisboa para apresentar ao Rei a sua "Carta dogmática"», explica o autor.

Todavia, não consegue acolhimento, pelo que «regressa a Roma até decidir publicar as suas ideias, em Florença, no ano significativo de 1755. O livro impresso até mais de metade do manuscrito é objeto de processo do Tribunal romano da Inquisição», assinala D. Carlos Azevedo.

O livro revela «dados inéditos sobre o processo inquisitorial e a vontade de Sebastião José de Carvalho e Melo aniquilar a divulgação do perigoso ideário de João Moutinho».

«Encontrada a lista das proposições condenadas, percebemos o que estava em causa e publicamos a versão portuguesa desta classificação teológica. Resta-nos analisar o conteúdo da obra», indica o prelado, acrescentando que a pesquisa se completa «com as poucas notícias que se conhecem após a prisão de Moutinho, no Castelo de Santo Ângelo, onde morre, em data ignorada».

Na segunda parte da obra é transcrita, «em grafia atualizada, o que resta da "Carta dogmático-política", acrescida com anotações».

É na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa, onde a investigação foi apresentada, que estão guardadas as «190 páginas» do «único exemplar que se conserva no mundo mais completo» da missiva do religioso, realçou D. Carlos Azevedo, em declarações à Rádio Vaticano.

A prisão de João Moutinho, personalidade «visionária» que nos dias de hoje inspira «ousadia profética», resultou «do nítido desejo de que não publicasse mais nada na vida», sustentou o autor.

«A crítica evangélica e teológica à Inquisição é muito rara e é um complemento às figuras críticas, como António Vieira, Ribeiro Sanches e Luís Cunha», afirmou D. Carlos Azevedo.

«A vida e a obra do padre João Moutinho conjugam abertura mental, erudição e ironia perante a Inquisição, o Estado e a Igreja no Portugal do século XVIII», assinala a sinopse do volume.

O «quase desconhecido» religioso vê-se envolvido num «verdadeiro caso de polícia», aquando do «início da edição, em Florença, da obra em português, "Carta dogmático-política", na qual é manifesta «a sua ironia para com a Igreja portuguesa que considera herética, por manter a Inquisição».

A sinopse adianta que «a produção da obra foi interrompida pela Inquisição, mas o autor conseguiu retirar 90 exemplares à tipografia, do já composto, e enviar, mesmo incompleto, ao rei, ao marquês de Pombal e a amigos. Todo o resto foi destruído».

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 24.11.2015

 

Título: Terramoto doutrinal
Autor: Carlos A. Moreira Azevedo
Editora: Temas e Debates
Páginas: 276
Preço: 18,80 €
ISBN: 9789896443832

 

 
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«A crítica evangélica e teológica à Inquisição é muito rara e é um complemento às figuras críticas, como António Vieira, Ribeiro Sanches e Luís Cunha»
O «quase desconhecido» religioso vê-se envolvido num «verdadeiro caso de polícia», aquando do «início da edição, em Florença, da obra em português, "Carta dogmático-política", na qual é manifesta «a sua ironia para com a Igreja portuguesa que considera herética, por manter a Inquisição»
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