
O oratório de S. Nicolau, de Peter Zumthor (4/4)
O mais recente dos três projectos de arquitectura religiosa realizados por Peter Zumthor situa-se em Mechernich, na zona ocidental da Alemanha. Dedicado ao santo suíço Niklaus von Flüe, resulta de uma encomenda de Hermann-Josef, agricultor alemão que desejou construir um ex-voto a São Nicolau em agradecimento dos anos vividos após o diagnóstico de uma grave doença de coração.
A resposta do arquitecto suíço a este pedido singular ganhou a forma de um marco territorial de grande simplicidade e elegância que se eleva na paisagem. Mas é o seu interior pleno de dramatismo que se revela profundamente marcante, pela capacidade de nos tocar no mais íntimo de nós próprios. A penumbra que ali se encontra – iluminada apenas pela parca luz que penetra pelo pequeno vazio superior - é alegoria perfeita da caverna de Platão ou de Elias, e convida-nos à meditação, da vida de Klaus Bruder ou na nossa própria, e, quem sabe, a ver o mundo com outros olhos graças à luz que do alto nos ilumina…

Esta brilhante peça arquitectónica, rica na poesia mas também na relação entre estética e função, teve na sua origem a montagem de uma estrutura de suporte constituída por 112 barrotes de bambu convergentes, deixando aberto um óculo no topo. Paredes de 12 metros de altura foram depois erguidas pelos habitantes locais, que durante 24 dias subiram 50 centímetros à construção, fazendo uso de um processo rudimentar de cofragem de betão, ao qual se juntaram algumas matérias do solo daquela região, o que lhe conferiu uma tonalidade única e exclusiva. No final, os barrotes foram queimados e as bases orgânicas que sustentavam a parede exterior acabaram cristalizadas num processo de homogeneização do interior, resultando num acabamento de tremendo efeito estético.

Peter Zumthor, ao falar da solução construtiva, sublinha a dificuldade que teve em saber se o resultado seria o pensado. No entanto, e numa atitude mais própria de um artista que de um arquitecto profissional – que tudo prevê, controla e desenha -, Zumthor optou por confiar na imagem que criou para esta obra. Ao contrário do que muitos desejariam ou imaginariam, é (apenas) arte em estado puro.

“Depois de construída, alguns suíços vieram ter comigo e disseram-me ‘Claro que a escuridão com apenas alguns raios de luz deve-se ao facto de São Nicolau ter terminado a sua vida numa cela escavada na rocha!’. E eu disse ‘Não, essa não é a razão.’ Depois disseram ‘Bem, então tem a forma de torre em referência à anterior carreira de São Nicolau como soldado!’ E eu disse ‘Não, não é por isso. Eu não estava a pensar nisso. Eu pensei que seria importante que a capela se erguesse de forma a se destacar desde longe no meio dos campos. Era preciso que marcasse o seu território.’ ‘E a sua planta circular? Não tem ela a ver com a roda de São Nicolau, o símbolo que ele meditava diariamente?’ ‘Não, não está relacionado com isso.’

Assim como as 24 camadas de cimento que são visíveis na parede exterior nada têm a ver com as horas dos dias e noites que São Nicolau permaneceu continuamente a rezar. Peter Zumthor sorri a todas estas leituras místicas. Ele, que apenas quis trabalhar com os elementos para fazer arquitectura, experimentar e refazer técnicas de construção, para criar uma obra de arte.

“O tema do projecto parte de uma ideia que lida de um modo profundo com a existência humana e com os elementos: pedra, água, fogo, terra e céu. Tentei fazer aquilo que hoje pode ser um espaço essencial. Nada mais. Ou, mais correctamente, nada menos! Um espaço essencial no meio do campo.”

Certamente por isso, o arquitecto inglês Norman Foster chamou Peter Zumthor para projectar a futura igreja de Santa Júlia, a integrar a área de desenvolvimento que está a desenhar na periferia de Milão. Ficamos à espera de novidades de Hadenstein...






Assista a uma animação relativa ao processo construtivo da capela de São Nicolau
Visite o interior
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João Alves da Cunha
Arquitecto
10.10.2008
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