Impressão digital
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

Evocação

Václav Havel: história de liberdade semelhante a uma obra de arte

Em dezembro de 1989, numa entrevista dada à revista francesa “Le Nouvel Observateur”, Milan Kundera não teve hesitações em responder ao jornalista que lhe pedia um comentário sobre o novo líder que dentro de poucos dias haveria de assumir a presidência da República checoslovaca. A vida de Havel (1936-2011), explicou o escritor checo exilado em França durante anos, «é inteiramente construída sobre apenas um grande tema; não tem caráter vagabundo, não conhece mudança de orientação. É só uma gradação contínua e dá a impressão de uma perfeita unidade de composição». Em síntese, a vida de Václav Havel assemelha-se a «uma obra de arte».

Não existe, provavelmente, uma definição mais apaixonada da biografia humana e política do último presidente da Checoslováquia e primeiro presidente da República Checa, que morreu este domingo, 18 de dezembro, aos 75 anos, que esta definição do autor de “A insustentável leveza do ser”. Aquelas palavras, no entanto, não eram apenas uma declaração de amor relativamente ao dramaturgo que em janeiro de 1977, juntamente com Jan Patočka, Zdeněk Mlynář, Jiří Hájek e Pavel Kohout redigiu a “Charta 77”, um dos mais destacados documentos de dissensão no regime comunista, que o fez passar quase cinco anos na prisão. Aquelas palavras apontavam para algo muito mais profundo e politicamente fundamental.

Foto

Havel, efetivamente, permanecia um intelectual mesmo no momento em que assumia o mais alto cargo do Estado. Todavia era um artista intimamente ligado aos aspetos mais profundos da vida do seu país, radicado na especificidade da tradição popular, e que, por isso, podia ser considerado um “herói moderno”.

Nas palavras de Kundera, Havel era «o primeiro representante moral» do seu país. Era um intelectual que assumia a responsabilidade política e espiritual de construir um regime de liberdade, depois de ter contribuído para abater um regime ditatorial que durante décadas negou a liberdade. O mesmo regime a que teve coragem de escrever uma longa carta, a 8 de abril de 1975.

FotoReuters

Naquela belíssima missiva dirigida a Gustáv Husák – secretário geral do Comité Central do Partido Comunista checoslovaco, que tinha sucedido a Dubcek durante a trágica primavera de Praga de 1968 – Havel condenava a «omnipresente e omnipotente polícia do Estado», a «castração» intelectual, o «conformismo exterior» do regime e o estabelecimento da ordem social «à custa da crise espiritual e moral da sociedade». Um preço altíssimo que, mais cedo ou mais tarde, segundo o dramaturgo, haveria de levar ao fim do regime comunista. Um regime que haveria de acabar «vítima do seu próprio princípio mortífero» porque «a vida, pode ser violentada longa e profundamente, pode ser esmagada e mortificada, mas é impossível enclausurá-la definitivamente».

Foto

Uma vida pública que na Checoslováquia teve um novo início entre 17 de novembro e 29 de dezembro de 1989, quando a denominada «revolução de veludo» - nos jornais da época alguns definiam-na também como «revolução delicada» - afastou o regime comunista sem derramamento de sangue. Um novo início onde também os sinais e os símbolos pareciam levar a melhor sobre a crise moral e espiritual que o dramaturgo tinha denunciado 14 anos antes. De facto, Havel jurou fidelidade à nova república na sala Ladislau do castelo de Praga. Na mesma sala onde durante séculos foram coroados os antigos reis boémios, onde em 1935 nasceu a primeira república e onde o regime comunista tinha celebrado a sua áspera grandeza.

Foto

Contudo a cerimónia não terminou no castelo boémio mas prosseguiu na catedral com a missa do Te Deum, presidida pelo primaz checo František Tomášek. Não sucedia algo semelhante desde 1948. «Estamos aqui na catedral de São Vito – disse o cardeal – mãe de toda a nossa igreja. Como sucedeu nos séculos anteriores, nos momentos de alegria reunimo-nos para louvar a Deus pela grande esperança que nos concedeu nestes dias».

Havel atravessou a Porta de Ouro e entrou na igreja acompanhado pela mulher Olga, com quem casou em 1964. Antes de entrar na capela de São Venceslau, onde era esperado pelo bispo Jan Lebeda, Havel ajoelhou-se e fez o sinal da cruz diante do túmulo dos reis boémios e das relíquias de Santa Inês, recentemente canonizada por João Paulo II. A seguir, sob a esplêndida e enorme nave gótica, ressoaram as notas do “Te Deum laudamus” de Antonin Dvořák, interpretado pela Filarmónica de Praga.

FotoVáclav Havel e o cardeal František Tomášek. 28.12.1989 (AP)

A cerimónia não foi apenas a redescoberta de uma antiga liturgia que unia política e tradição, cultura e religião, mas representou o início de uma nova história. Uma história de liberdade de que Václav Havel era o símbolo mais importante.

 

Andrea Possieri
In L'Osservatore Romano, 20.12.2011
Trad.: Rui Martins
© SNPC | 21.12.11

Foto

 

Ligações e contactos

 

Artigos relacionados

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página