

«A valorização da cultura passa por analisar o sentido prático dos custos mas também as suas possibilidades de transcendência», sublinha a vice-reitora da Universidade de Coimbra para a Cultura, Clara Almeida Santos.
Na conferência que proferiu durante a 12.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, que no último sábado analisou, em Fátima, o tema "Cultura e economia: implicações e desafios", a responsável citou o descrente Henry Miller, segundo o qual «a arte, como a religião, não serve para nada, a não ser para mostrar o sentido da vida».
«Habitando num mundo onde, claramente, compreendemos e sofremos a falta de sentido e de sentidos para a vida, há um caminho enorme a percorrer em várias áreas, a começar pela educação para a cultura», acentuou.
Durante a intervenção, a professora universitária doutorada em Ciências da Comunicação recordou que a atividade cultural em Portugal movimenta quase três por cento do PIB e recorre ao trabalho 88 mil pessoas, o que representa dois por cento do emprego nacional, números que não contabilizam a atividade a tempo parcial, que tem presença importante no setor.
Os espetáculos ao vivo constituem a fatia de leão das verbas económicas, o mercado de edição, tanto o livreiro como a imprensa, assim como os meios de comunicação social, explicou Clara Almeida Santos, para quem «a irracionalidade parece ter tomado conta da economia».
«O lucro é o motor da economia, e isso não tem mal nenhum, mas não o lucro à custa de qualquer coisa. Falta muitas vezes na economia contemporânea um sentido de retribuição à sociedade», alertou.
Referindo-se à intervenção do Estado na cultura, a docente deu como exemplo a Casa da Música, no Porto, depois de na conferência de abertura António Lobo Xavier tem referido o condicionamento da estratégia da instituição por parte da tutela estatal.
«É preciso dizer que foi o Estado a pagar a Casa da Música; são dinheiros públicos, e por isso faz algum sentido que queira ter alguma interferência. Senão acontece, como tantas vezes em Portugal, que o Estado paga e os provados gerem. É bastante fácil atingir o "break even" [ponto de equilíbrio entre custos e receitas] nesta circunstância, em que o trabalho mais difícil está feito à partida», acentuou.
Clara Almeida Santos aludiu também à «"incultura" que considera a cultura como subsidiodependente e desvaloriza a sua capacidade de criar valor e valores»: «Os subsídios públicos e privados à cultura não podem ser vistos como perniciosos; são investimentos, como os que se fazem na ciência fundamental».
«Uma sociedade será, seguramente, muito mais pobre se não houver diversidade e se existir apenas, em termos culturais, aquilo que as pessoas gostem. As pessoas não podem gostar do que não conhecem; portanto, se damos o que elas gostam, estamos necessariamente a empobrecer», defendeu.
A intervenção integral da conferência, integrada no painel em que participaram António Gomes de Pinho, presidente da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, e Manuel Castelo Branco, presidente da Coimbra Business School, está disponível no vídeo seguidamente apresentado.
Rui Jorge Martins