

vladek/Bigstock.com
«Como poderá alguma vez ser verdadeira a verdade religiosa se aquilo que ensina é tão distante da vida?»
Mikhail A. Bakunin (1814-1876) é uma figura mítica do anarquismo: encontro esta sua citação num artigo que estou a ler. Nele explica-me também que a palavra russa “pravda”, verdade, significa também justiça, através da qual teoria e prática, pensamento e ação deverão coexistir, ao contrário do que muitas vezes acontece.
A frase áspera do revolucionário russo, motivada ainda por uma experiência da religiosidade apenas sacral, desincarnada e ritual, faz-nos compreender a outra e muito mais famosa, e igualmente redutora, asserção de Marx, na sua crítica à filosofia hegeliana do direito público: «A religião é o ópio dos povos».
Os seus incensos, o seu contemplar o céu, as suas consolações funcionariam como um poderoso sedativo contra as injustiças, um narcótico precioso para quem tem de administrar o domínio sobre os outros e a sua exploração.
Sabemos, ao contrário, quanto a verdadeira religiosidade – sobretudo a cristã – é não só culto, mas vida. Com efeito, a incarnação, Jesus Filho de Deus e de Maria que se faz homem, especialmente celebrada no Natal, é a dimensão central de uma fé que quer transfigurar a história estabelecendo a paz, a justiça, o amor.
Outro russo, o poeta Fedor Tjutcev (1803-1873), exclamava: «Esmagado pelo peso da cruz e revestido de farrapos,/ o Rei do céu atravessou-te toda,/ ó Terra!». Cristo, efetivamente, entra no emaranhado das injustiças, combate as hipocrisias, desce até ao ventre negro do mal e sobre a um patíbulo como vítima.
A verdadeira religião é, portanto, carne e sangue; a fé é luta contra cada mal. A meta última, que é transcendente, não nos deve impedir de caminhar nas etapas penúltimas da história com coerência, constância e generosidade. Verdade é também justiça, como na palavra “pravda”.