Teatro
"Vermelho" pinta um Rothko maior do que a vida
Em 1958, Rothko era um pintor à beira da consagração quando foi convidado a criar um conjunto de murais para um luxuoso restaurante de Nova Iorque e viu na encomenda a oportunidade de mostrar que a sua arte não era um bibelot de luxo. Ao verem as suas telas trágicas, os ricos perderiam o apetite. Em 1959, porém, depois de tinbta quadros, parou tudo.
“Vermelho” é uma investigação sobre os motivos dessa recusa, mostrando as etapas de trabalho de Rothko ao longo de dois anos, aconmpanhado por um jovem assistente (João Vicente) que não só assiste ao seu duelo interior, como também se bate com ele, a propósito das paixões, medos e dores do artista. Rothko é salvo por este assistente, que confronta o mestre e lhe revela a autoilusão: os quadros não tirarão o apetite a ninguém. Mas é o pintor quem dá a última lição, passando o testemunho ao aprendiz: «Faz qualquer coisa de novo».

Um dos momentos chave da peça é quando o assistente encontra o mestre com as mãos e os pulsos tintos de vermelho e pensa que ele se tentou suicidar. A cena antecipa o desespero do artista: em 1970, no mesmo dia em que chegavam à Tate Modern, em Londres, as últimas das trintas telas jamais entregues, Rothko pôs fim à vida, com um golpe profundo em cada braço.

O espetáculo mostra um ser humano em profunda reflexão sobre a consequência dos seus atos. O autor incrustou no texto pequenas pérolas do próprio Rothko, e inventou as situações que lhes poderiam ter dado origem. O resultado é um condensado muito plausível da vida anterior e posterior de Rothko. No fim de tudo, o pintor repete a pergunta que fez no início, a respeito de um quadro que estaria pendurado exatamente na plateia que dá para a plateia. «O que é que vês?» A resposta é a mesma: «Vermelho». Porém, o dito e feito durante o espetáculo tornou esta palavra mais rica e diversa. A peça faz uma das operações maravilhosas do teatro: a condensação em poucas e simples palavras de um drama pessoal excessivo.

João Lourenço focou os aspetos principais do texto, como se a encenação fosse a arte de permanecer invisível, tornando credível a tragédia pessoal do pintor. O cenário foi montado como se a plateia estivesse no atelier, e não num teatro. O espetáculo é não só realista, mas real.

António Fonseca dá vida a Rothko compondo uma trajetória emocional fala a fala e usando os dilemas interiores da personagem para dar vivacidade à cena. Nos momentos cruciais, tem todos os trunfos para ganhar o público. João Vicente faz bom uso dos argumentos que lhe foram confiados pelo dramaturgo para dar réplica maior-do-que-a-vida de Rothko. Mas Fonseca vai além disso, encarnando a ironia, a gravidade e o sentido do trágico com precisão e harmonia raras. As contradições do pintor, sensualista mas religioso, avaro mas desprendido, humanista mas amargo, requeriam uma atuação assim.

Se a dedicação de Rothko à arte prova a sua humanidade, a humanidade da encarnação de Fonseca demonstra a arte do ator (e demais criadores). Num tempo em que ser prazenteiro é quase uma obrigação, e a arte parece ter como única justificação essa utilidade, a fidelidade de “Vermelho” ao espírito de Rothko recorda que nem só de pão, nem de circo, vive o homem.
"Vermelho" sobe ao palco do Teatro Aberto, em Lisboa, até 26 de fevereiro.



Jorge Louraço Figueira
In Público, 23.1.2012
Fotos: Lusa, José Sena Goulão
23.01.12







