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«Vivam com alegria a vossa consagração. Essa é a maior propaganda vocacional»

O papa recebeu hoje, no Vaticano, cerca de 850 religiosas de 80 países que participam no encontro da União Internacional das Superioras Gerais, tendo-lhes lançado um repto, precisamente na antevéspera do Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que se assinala no domingo: «Vivam com alegria a vossa consagração. Essa é a maior propaganda vocacional».

«Cultivem a paixão por Cristo e a paixão pela humanidade. Sem paixão por Cristo e pela humanidade, não há futuro para a vida religiosa e consagrada. A paixão lançar-vos-á para a profecia, a serem fogo que incendeia outros fogos», escreveu Francisco num discurso «aborrecido», e que não quis ler, tendo preferido o diálogo com as religiosas.

Na intervenção escrita, de que apresentamos excertos, com subtítulos da nossa responsabilidade, o papa frisou que a internacionalização das comunidades não é uma ameaça ou o preço a pagar pela subsistência, antes uma tendência irreversível, e acentuou que «orar, louvar e adorar não é perder tempo»: «Quando mais unidos estamos ao Senhor, mais próximos estaremos da humanidade, particularmente da humanidade que sofre».

 

Renovar sem cessar o encontro com Cristo para o anunciar a quem precisa

Nada nos pode roubar a paixão pela evangelização. Não há Páscoa sem missão: «Vão e anunciem o Evangelho a todos os homens» (cf. Mateus 16,15-20). À sua Igreja, o Senhor pede que mostre o triunfo de Cristo ressuscitado como a fonte da alegria que nada de nada nos pode arrebatar. Renovem constantemente o seu encontro com Jesus Cristo ressuscitado e serão suas testemunhas, levando a todos os homens e mulheres amados pelo Senhor, particularmente quantos se sentem vítima da cultura da exclusão, a doce e confortadora alegria do Evangelho.

 

«Tenham pânico de deixar de ser sal que dá sabor à vida»

A vida consagrada, como já afirmou S. João Paulo II, como qualquer outra realidade da Igreja, está a atravessar um tempo «delicado e duro». Perante a diminuição numérica que a vida consagrada vide, particularmente a feminina, a tentação é a do desânimo, a resignação ou o “empedernimento” no “sempre se fez assim”.

Neste contexto, repito-vos com força o que lhes disse noutras ocasiões: não tenham medo de ser poucas, mas de ser insignificantes, de deixar de ser luz que ilumine a quantos estão mergulhados na “noite escura” da história. Não tenham medo tão-pouco de «confessar com humildade e com grande confiança no amor de Deus a fragilidade». Tenham medo, melhor, tenham pânico de deixar de ser sal que dá sabor à vida dos homens e mulheres da nossa sociedade. Trabalhem sem descanso para ser sentinelas que anunciam a chegada da aurora; para ser fermento onde quer que se encontrem e com quem se encontrem, ainda que isso, não vos dê benefícios tangíveis e imediatos.

 

Há muitos que esperam e precisam do testemunho e ação das religiosas

Há muita gente que necessita de vós e vos espera. Necessita do vosso sorriso amigo que lhes devolva confiança; das vossas mãos que a apoiem no seu caminhar; da vossa palavra que semeie esperança nos seus corações; do vosso amor ao estilo do de Jesus, que cure as feridas mais profundas causadas pela solidão, a rejeição e a exclusão.

 

Abrir caminhos novos às culturas e às sociedades

Nunca cedam à tentação da autorreferencialidade, de se converterem em “exércitos cerrados”. Tão-pouco se refugiem «numa obra para eludir a capacidade operativa do carisma». Desenvolvam, antes, a fantasia da caridade e vivam a fidelidade criativa aos vossos carismas. Com eles serão capazes de «reproduzir a santidade e a criatividade dos vossos fundadores», abrindo novas sendas para levar o alento e a luz do Evangelho às diferentes culturas em que vivem e trabalham, nos mais diversos âmbitos da sociedade, como eles [fundadores] fizeram no seu tempo. (…) A vida consagrada é como a água: estagnada, apodrece». E desta forma, sem perder a memória necessária sempre para viver o presente com paixão, evitarão tanto o “restauracionismo” como a ideologia, de que tendência seja, que tanto dano fazem à vida consagrada e à Igreja.

 

Orar não é perder tempo

E tudo com a vossa presença e o vosso serviço humilde e discreto, animado sempre pela oração gratuita e a oração de adoração e de louvor. Orar, louvar e adorar não é perder tempo. Quando mais unidos estamos ao Senhor, mais próximos estaremos da humanidade, particularmente da humanidade que sofre. «O nosso futuro estará repleto de esperança», como afirma o lema desta assembleia, e os nossos projetos serão projetos de futuro na medida em que nos detivermos diariamente diante do Senhor na gratuidade da oração, se não queremos que o vinho se converta em vinagre e o sal se torne insípido. Só será possível conhecer os projetos que o Senhor fez para nós se mantivermos os nossos olhos e o nosso coração voltados para o Senhor, contemplando o seu rosto e escutando a sua Palavra. Só assim sereis capazes de despertar o mundo com a sua profecia, nota distintiva e prioridade do vosso ser religiosas e consagradas. Quanto mais urgente é descentrar-se para ir às periferias existenciais, mais urgente é centrar-se nele e concentrar-se nos valores essenciais dos nossos carismas.

 

Luzes e sombras da vida em comunidade

Entre os valores essenciais da vida religiosa está a vida fraterna em comunidade. Comprovo com muita alegria os grandes feitos que se alcançaram nessa dimensão: comunicação mais intensa, correção fraterna, busca da sinodalidade na condução da comunidade, acolhimento fraterno no respeito pela diversidade…, mas ao mesmo tempo preocupa-me que haja irmãos e irmãs que conduzam a sua vida à margem da fraternidade; irmãs e irmãos que ficam anos ausentes ilegitimamente da comunidade, e por isso acabo de promulgar um “Motu Proprio”, “Communis vita”, com normas bem precisas para evitar esses casos.

 

Multiculturalidade não é ameaça, mas boa notícia

Quanto à vida fraterna em comunidade, também me preocupa que haja institutos em que a multiculturalidade e a internacionalização não são vistas como uma riqueza, mas como uma ameaça, e vivem-se em conflito, em lugar de as viver como novas possibilidades que mostram o verdadeiro rosto da Igreja e da vida religiosa e consagrada. Peço às responsáveis dos institutos que se abram ao novo próprio do Espírito, que sopra onde quer e como quer, e que preparam as gerações de outras culturas para assumir responsabilidades. Vivam irmãs a internacionalização dos vossos institutos como boa notícia. Vivam a mudança de rosto das vossas comunidades com alegria, e não como um mal necessário para a conservação. A internacionalidade e a interculturalidade não têm volta atrás.

 

«Os jovens correm muito, mas os maiores conhecem o caminho»

Preocupam-me os conflitos geracionais, quando os jovens não são capazes de levar por diante os sonhos dos anciãos para os fazer frutificar, e os anciãos não sabem acolher a profecia dos jovens. Como gosto de repetir: os jovens correm muito, mas os maiores conhecem o caminho. Numa comunidade são necessárias tanto a sabedoria dos anciãos, como a inspiração e a força dos jovens.

 

O multiforme trabalho das religiosas

Queridas irmãs: em vós agradeço a todas as irmãs dos vossos institutos o grande trabalho que realizam nas distintas periferias em que vivem. A periferia da educação, na qual educar é ganhar sempre, ganhar para Deus; a periferia da saúde, na qual são servidoras e mensageiras da vida, e de uma vida digna; e a periferia do trabalho pastoral nas suas mais variadas manifestações, na qual, ao testemunhar com as vossas vidas o Evangelho, manifestam o rosto materno da Igreja. Obrigado pelo que são e por aquilo que fazem na Igreja. Nunca deixem de ser mulheres. «Não faz falta deixar de ser mulher para igualar-se».

 

Trabalho na Igreja e em Igreja

Ao mesmo tempo, peço-vos: cultivem a paixão por Cristo e a paixão pela humanidade. Sem paixão por Cristo e pela humanidade, não há futuro para a vida religiosa e consagrada. A paixão lançar-vos-á para a profecia, a serem fogo que incendeia outros fogos. Avancem dando passos na missão partilhada entre diversos carismas e com os leigos, convocando-os para obras significativas, sem deixar nenhum sem a devida formação e o sentido de pertença à família carismática.

Trabalhem nas mútuas relações com os pastores, incluindo-os no vosso discernimento e integrando-os na seleção de presenças e ministérios.

O caminho da vida consagrada, tanto masculina como feminina, é o caminho da inserção eclesial. Fora da Igreja, e em paralelo com a Igreja local, as coisas não funcionam. Prestem grande atenção à formação, tanto permanente como inicial, e à formação de formadores capazes de escutar e de acompanhar, de discernir, saindo ao encontro dos que batem às nossas portas. E, mesmo no meio das provações por que podemos estar a passar, vivam com alegria a vossa consagração. Essa é a maior propaganda vocacional.


 

Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Imagem: D.R.
Publicado em 10.05.2019

 

 
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