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Evocação

Cinquenta anos depois do anúncio do Concílio Vaticano II, o que falta fazer?

Há cinquenta anos, a 25 de Janeiro de 1959, o Papa João XXIII surpreendia a Igreja e o mundo em geral, ao anunciar a decisão de convocar um Concílio. O Página 1 olhou de perto para o que se passou no Concílio Vaticano II, iniciado em 1962 e concluído em 1965.

 

D. Manuel Clemente
Bispo do Porto

Lendo hoje os documentos conciliares, reparamos que, em todos eles, tirando uma ou outra nota da época, há muita coisa ainda para concretizar. Quer na vida interna da Igreja – por exemplo, na co-responsabilidade de todos os cristãos na comunidade, na liturgia e no culto cristão – quer na relação com o mundo. Ora, se algo falta ainda no Concílio é o seu aprofundamento e a sua concretização. Mas era bom, antes de mais, que nesta altura os católicos aproveitassem para ler ou reler os documentos conciliares.

 

Cón. João Peixoto
Liturgista, Pároco de Ermesinde

O processo de recepção de um concílio é sempre moroso e não se esgota numa geração. A matéria da colegialidade e da co-responsabilidade ainda tem caminho para fazer. O próprio Papa Bento XVI, ao permitir que as propostas dos Sínodos dos Bispos sejam divulgadas, está a dar um sinal nesse sentido. No futuro creio que o sínodo será o mais importante órgão ordinário pelo qual se expressa a colegialidade dos bispos de todo o mundo com o sucessor de Pedro, e sobre o sucessor de Pedro. Quem diz a colegialidade ao nível da Igreja Universal diz co-responsabilidade.

 

Cón. João Seabra
Canonista, Pároco da Igreja da Encarnação, Chiado, Lisboa

O ponto fundamental do Concílio, que ilumina e clarifica todos os outros, é a vocação universal à santidade. Todo o Cristão é chamado a ser santo, a unir-se totalmente a Cristo. Isto tem consequências importantíssimas na vida da Igreja e do mundo. Penso que em tudo isto estamos muito no princípio. O que é que isto vai ser no século XXI, para onde vamos? Isto é menos percebido como central. É como se o concílio fosse ter conselhos pastorais nas paróquias, uma nova maneira de organizar a estrutura clerical, mas não é esse o ponto central, o ponto central é a concepção de que todos nós, pelo mesmo baptismo, somos chamados a ser santos e é isso que tem de continuar a ser trabalhado durante muitos séculos ainda.

 

P. Peter Stilwell
Director da Faculdade de Teologia da UCP

A partir do Concílio há um acompanhamento do quotidiano da vida dos povos que leva por exemplo a que a Doutrina Social da Igreja tenha ganho outra dimensão, que as palavras dos Papas, a sua intervenção nas questões da paz e da justiça tenham tido um impacto cada vez maior. Mas isso traz consigo outros riscos, como se viu com a Teologia da Libertação em que se sente que a parte litúrgica, a parte doutrinal, é secundária e aquilo que é importante é conseguir mudar estruturas políticas
e económicas nos países para que os povos possam viver de forma mais pacífica. Se chegássemos a esse ponto de desequilíbrio ter-se-ia perdido alguma coisa. Neste momento o que estamos a viver é esse pêndulo, deslocando-se entre uma atenção ao mundo e depois uma preocupação com a vida interna da comunidade cristã. Creio que o Concílio ainda tem um caminho a fazer até se encontrar um equilíbrio justo.

 

P. Tolentino Mendonça
Director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura

Há uma espécie de pedagogia que é utilizada na construção da Gaudium et Spes que é sempre um desafio para a Igreja de cada tempo. Não é que não esteja já a ser ensaiada e não tenha já sido concretizada, mas parece-me que é sempre um desafi o para que não seja apenas a Igreja a interpelar e a desafiar o mundo, mas a Igreja manter-se à escuta e deixar que o mundo diga também alguma coisa de significativo sobre a Igreja e sobre os caminhos que a Igreja deve seguir. É interessante que o próprio ritmo da construção da Gaudium et Spes é fundamental porque primeiro questiona o que é que o mundo diz acerca da Igreja e depois o que à Igreja cabe dizer acerca do mundo. Este ritmo é sempre um caminho a encontrar pela Igreja de cada tempo e em cada lugar.

 

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in Página 1

05.02.2009

 

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