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Fé e cultura

Uma Igreja que toma balanço: desafios ao catolicismo português após a visita de Bento XVI

O que é que fica do que passa? É evidente que o balanço desta Visita Apostólica [de Bento XVI] não se faz pelo exterior. Os indicadores puramente sociológicos ou contabilísticos são curiosos, como tudo o que é humano, mas secundaríssimos se nos fixarmos na natureza predominantemente espiritual do que se viveu. A própria lógica de acontecimento, tão ao gosto das tendências contemporâneas, pede aqui para ser ultrapassada. Não se tratou de um happening isolado, ou do consumir coletivo de uma emoção. É no âmbito do consumar, e da consumação profunda da própria existência, que devemos inscrever quanto «vimos, ouvimos e lemos». Por isso, o essencial não será tanto circunscrever estaticamente o evento em si, quanto partir dele para construir ou relançar a nossa história crente. Na sua alocução de despedida, Bento XVI não podia ser mais claro: «O meu desejo é que a minha visita se torne incentivo para um renovado impulso espiritual e apostólico». Não foi, portanto, o fechar do pano sobre os quatro dias de visita, mas o rasgar de cena para uma estação nova que a Igreja portuguesa começa.

 

Um Papa que aterrou na nossa realidade

O Papa não aterrou apenas no nosso território: aterrou na nossa realidade. Desde a conversa com os jornalistas, ainda em plena viagem, até à despedida, no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, a sua opção foi encontrar-se efetivamente com o chão português. Os seus discursos e homilias constituem uma espécie de radiografia interior, não apenas do que historicamente fomos, mas do que somos hoje e do que somos chamados a ser. Quem quiser, portanto, compreender este tempo português, na sua articulação cultural e espiritual, encontra ali pontos essenciais para um lúcido e comprometedor diagnóstico. Respiguemos alguns dos tópicos centrais:

 

1. No plano cultural

- «Nestes últimos anos, alterou-se o quadro antropológico, cultural, social e religioso da humanidade».

- No sentir de muitos «a fé católica deixa de ser património comum da sociedade»

- «A cultura reflete hoje uma «tensão», que por vezes toma formas de «conflito», entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro»

- O conflito entre a tradição e o presente «exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo. Um povo, que deixa de saber qual é a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objetivos grandiosos claramente enunciados»

- Persiste o risco de se absolutizar a razão, esquecendo que «esta toca somente uma parte do homem» e não a sua totalidade (que justamente se encontra a si mesmo no encontro da razão e da transcendência). «Muitos dos nossos irmãos vivem como se não houvesse um Além».

- Assiste-se a tentativas de marginalizar e privatizar a essencial consideração do sentido humano da vida.

 

2. No plano sócio-económico

- «Os enormes problemas do desenvolvimento dos povos quase nos levam ao desânimo e à rendição».

- Confiámos por demasiado tempo a organização social a um «puro pragmatismo económico, que prescinde da realidade do homem» e da ética e estamos agora a colher as consequências.

- A pressão exercida pela cultura dominante, apresenta com insistência um estilo de vida fundado sobre a lei do mais forte e sobre o lucro fácil e atrativo.

 

3. No plano eclesial

Foi sobretudo para a Igreja que o Bento XVI falou, de modo exaustivo e profético, fazendo connosco um maturado exame de consciência, sem derrotismos, mas numa linha de conversão. Esse percurso de reconhecimento das dificuldades, dos desvios e limites constitui um exercício de purificação necessária ao trabalho da esperança.

 

A Igreja no seu todo

- «Temos de vencer a tentação de nos limitarmos ao que ainda temos, ou julgamos ter, de nosso e seguro: seria morrer a prazo, enquanto presença de Igreja no mundo»

- A Igreja vive frequentemente a fé num cómodo individualismo, voltando costas às coisas concretas do mundo e pensando «somente na salvação individual, nos atos religiosos, sem ver que estes implicam uma responsabilidade global pelo mundo».

- Não basta pregar por palavras. A «mera enunciação da mensagem não chega ao mais fundo do coração da pessoa, não toca a sua liberdade, não muda a vida. Aquilo que fascina é sobretudo o encontro com pessoas crentes que, pela sua fé, atraem para a graça de Cristo dando testemunho d'Ele»

- «Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções» mas o sal tem deixado de salgar. «Quanto tempo perdido, quanto trabalho adiado, por inadvertência deste ponto! Tudo se define a partir de Cristo, quanto à origem e à eficácia da missão».

- «O campo da missão ad gentes apresenta-se hoje notavelmente alargado e não definível apenas segundo considerações geográficas; realmente aguardam por nós não apenas os povos não-cristãos e as terras distantes, mas também os âmbitos sócio-culturais e sobretudo os corações que são os verdadeiros destinatários da atividade missionária do povo de Deus».

- Hoje compreendemos, talvez com dramática clareza, que «a maior perseguição da Igreja não vem de inimigos externos, mas nasce do pecado na Igreja, e que a Igreja, portanto, tem uma profunda necessidade de re-aprender a penitência, de aceitar a purificação, de aprender por um lado o perdão, mas também a necessidade de justiça».

 

Aos Pastores e Presbíteros

- Os Pastores não são apenas pessoas que ocupam um cargo: «são responsáveis pela abertura da Igreja à ação do Espírito Santo».

- Os Pastores são chamados a conhecer e compreender melhor os diversos fatores sociais e culturais, avaliar as carências espirituais e programar eficazmente os recursos pastorais num mundo em mudança.

- Há «um certo esmorecimento dos ideais sacerdotais» e, por vezes também, a dispersão dos presbíteros por tarefas que não são as prioritárias do seu ministério.

- Durante demasiado tempo se relegou para segundo plano a responsabilidade da autoridade como serviço ao crescimento dos outros, e nomeadamente dos próprios sacerdotes.

 

Ao Laicado

- É urgente formar «um laicado maduro, identificado com a Igreja, solidário com a complexa transformação do mundo». Nomeadamente nos meios políticos, intelectuais e entre os profissionais da comunicação.

- Nem sempre é fácil conseguir uma síntese satisfatória da vida espiritual com a acção apostólica. E todavia a referida síntese é decisiva par que os cristãos sirvam Cristo na humanidade que os espera.

- Importa que as instituições sociais da Igreja tenham clara a sua orientação de modo a assumirem uma identidade coerente: «na inspiração dos seus objetivos, na escolha dos seus recursos humanos, nos métodos de atuação, na qualidade dos seus serviços, na gestão séria e eficaz dos meios».

 

Uma Igreja que toma balanço

Hoje claramente a Igreja portuguesa está numa encruzilhada. Dois números, a título de exemplo, descrevem bem a grandeza e a complexidade da hora presente. Por um lado, a percentagem de portugueses que se dizem católicos é de 89,9 por cento, enquanto que o número total de praticantes não atinge, segundo o censo de 2001, os dois milhões. Isto quer dizer que há uma energia nova ne­cessária, um espaço de criatividade pastoral e cultural, uma presença dialogante e um serviço evangélico que não se compadece com rotinas e automatismos. No discurso muito franco que o Presidente da Conferência Episcopal, D. Jorge Ortiga, dirigiu a Bento XVI ficou a promessa: «neste contexto e ambiente, os bispos estão empenhados em "repensar" uma pastoral voltada para os novos desafios que a mudança civilizacional nos proporciona. Desejamos caminhar para um novo estilo de vida». A visita de Bento XVI pede, por isso, não apenas um balanço, mas que a Igreja ganhe um impulso novo. Do conjunto da mensagem que nos foi oferecida, parece-nos poder identificar dez desafios:

 

1. Que a Igreja redescubra a sua centralidade cristológica

«A nossa esperança tem fundamento real, apoia-se num acontecimento que se coloca na história e ao mesmo tempo excede-a: é Jesus de Nazaré»; «Cristo não está a dois mil anos de distância, mas está realmente presente entre nós e dá-nos a Verdade, dá-nos a luz que nos faz viver e encontrar a estrada para o futuro».

 

2. Que a Igreja se redescubra Povo de Deus

«Há uma solidariedade profunda entre todos os membros do Corpo de Cristo». Urge reforçar e promover um vasto esforço capilar «para que cada cristão se transforme em testemunha capaz de dar conta a todos e sempre da esperança que o anima».

 

3. Que a Igreja floresça na pluralidade dos carismas

Os Pastores são responsáveis pela abertura da Igreja à ação do Espírito Santo. Em momentos «de fadiga da Igreja», o Espírito Santo gera novas primaveras, «fazendo despertar nos jovens e adultos a alegria de serem cristãos» e «a radicalidade do Evangelho». Cabe também aqui o apelo à formação de novas lideranças no laicado cristão, como ficou sublinhado no encontro com as Organizações da Pastoral Social.

 

4. Que a Igreja na fragilidade aprenda a unir as suas forças

Sobretudo no discurso aos Sacerdotes, Religiosos, Diáconos e Seminaristas o Santo Padre apelou a uma cultura de corresponsabilidade, «o Senhor quer também que saibais unir as vossas forças», estimulando-os a estilos de vida menos individualista e mais fraterna.

 

5. Que a Igreja viva em atitude permanente de conversão

Este foi um ponto muito reforçado, e que Bento XVI uniu explicitamente à Mensagem de Fátima: há um sofrimento que vem «do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja». Por isso, afirmou também na Celebração da Missa naquele Santuário: «Iludir-se-ia quem pensasse que a missão profética de Fátima esteja concluída». Fátima apela a Igreja à conversão permanente, à penitência e à oração.

 

6. Que a Igreja se descubra convocada para a Missão

A Igreja é impelida ao anúncio, assumindo ativa e criativamente a sua condição de sal e fermento. «Os tempos que vivemos exigem um novo vigor missionário dos cristãos». «Vivei» e «Testemunhai» foram dos verbos mais repetidos, sabendo que as fronteiras da Missão estão hoje não nas paragens distantes, mas a nosso lado. E que a linguagem da Missão não é simplesmente pastoral, mas cultural.

 

7. Que a Igreja esteja disponível para o diálogo

A Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. «De facto, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai», disse o Papa em Lisboa. «Nada impomos, mas sempre propomos», recordou-o no Porto. Nesta linha, Bento XVI traçou uma imagem de uma Igreja discente, disponível para a aprendizagem («o respeito por outras «verdades» ou pela verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer»).

 

8. Que a Igreja ouse interpretar os tempos

«Nestes últimos anos, alterou-se o quadro antropológico, cultural, social e religioso da humanidade; hoje a Igreja é chamada a enfrentar desafios novos» - afirmou o Santo Padre. Isso pede dela discernimento, aprofundamento da sua própria verdade, conhecimento. Há uma aposta a reforçar na Formação teológica e catequética do tecido eclesial.

 

9. Que a Igreja se renove geracionalmente

Os jovens estiveram permanentemente no pensamento do Papa e isso constitui um sinal muito importante passado à Igreja portuguesa. Uma reactualização vital e fecunda do cristianismo não os dispensa. Estando já tão perto a comemoração dos 100 anos das Aparições de Fátima, não poderia Portugal oferecer-se para acolher umas Jornadas Mundiais da Juventude?

 

10. Uma Igreja que vive um cristianismo de profecia e beleza

No discurso aos Bispos, o Papa recomendou: «Mantende viva a dimensão profética sem mordaças no cenário do mundo atual»; e ao Mundo da Cultura desafiou: «Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza». A Igreja toma balanço espiritual sempre que é profética, propondo com audácia a civilização do amor, que se expressa antes de tudo no dom, defesa e cuidado dos pobres. Mas uma das misérias do mundo contemporâneo é precisamente aquela simbólica. Sem a beleza a própria experiência cristã permanece incompleta, porque Deus é beleza, esplendor e glória. Jesus não é apenas o "Bom Pastor", é também o "Belo Pastor" que leva o nosso coração a saciar-se no deslumbre infinito do Amor com que o Pai nos ama. Ser cristão é ser peregrino e profeta dessa beleza!

 

P. José Tolentino Mendonça
In Bento XVI em Portugal, ed. Secretariado da Pastoral da Cultura da Diocese do Porto
© SNPC | 26.07.10

Foto
Bento XVI
Centro Cultural de Belém, Lisboa
12.5.2010
Getty Images
















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