França
Vida de S. Francisco de Assis e arte de Giotto visitam a prisão
O pequeno grupo avança quase timidamente para a reprodução do primeiro fresco. A comentadora começou por escolher propositadamente um painel representando o jovem Francisco no tribunal, acusado pelo pai, o rico comerciante de tecidos Pietro Bernadone, de lhe ter roubado um pano para financiar a restauração de uma velha capela. “Um santo no tribunal?”, pergunta Jacques. A apresentadora, uma leiga das Fraternidades Franciscanas, responde: “E verdade! A vida dele nem sempre foi fácil. Ainda por cima esteve na cadeia durante um ano. Por isso soube o que era estar preso.”
Jacques acena a cabeça em silêncio. Não se sabe o que pensa no seu íntimo, mas não deixará de acompanhar até ao fim as explicações que lhe são oferecidas na sala polivalente da prisão de Bois d’Arcy, França. Como ele, perto de 80 reclusos foram separados em pequenos grupos em torno dos painéis que reproduzem as delicadas cambiantes dos frescos do mestre italiano Giotto, que no séc. XIV revolucionou a pintura europeia.
A iniciativa deveu-se a Élisabeth de Balanda, responsável das edições Ars Latina, especialistas em exposições e em belíssimas edições sobre o mundo latino. A ideia foi imediatamente acolhida pelos Franciscanos, no quadro do oitavo centenário da Ordem. “Dissemos logo que sim”, sublinha o P. Thierry Gournay. “Esta iniciativa está na linha directa do Evangelho: Deus não considera um homem por aquilo que fez, mas por aquilo que pode ser. Os lugares de crise e de exclusão, como as prisões, são também os que melhor dizem o Evangelho. Basta um olhar para transformar um malfeitor num irmão. Foi o que o nosso fundador nos ensinou, quando recomendou aos seus amigos que dessem de comer aos ladrões que os aterrorizavam: a seguir, os ladrões seguiram a comunidade.”
Transformar lobos em anjos? “Não exageremos”, tempera Yannick Le Corre, visitador de prisões e presidente da Associação Educativa e Desportiva de Bois d’Arcy, que assumiu uma parte importante da organização. “Mas os reclusos fizeram prova de uma atenção incrível aquando destas visitas guiadas, que se prolongaram durante hora e meia, uma duração excepcional para este tipo de público. Eu, que há anos organizo espectáculos nas prisões (...), posso dizer-vos que é uma proeza manter o seu interesse durante tanto tempo.”
Magia da vida e da mensagem de S. Francisco, mas também qualidade dos intervenientes escolhidos para animar as visitas. Em Bois d’Arcy, a exposição foi organizada no seguimento do pedido da capelania; a responsabilidade dos comentários sobre as pinturas pertenceu a membros da família franciscana. “Além da beleza dos frescos, o que conta é a qualidade da interacção com os reclusos. E para isso, a vida de Francisco é um suporte formidável”, explica Violette Canelle. A mensagem do percurso do santo, que renunciou a uma existência fácil e confortável para abraçar uma vida miserável, defendendo os mais pobres e os excluídos, passa muito bem para os prisioneiros, acrescentou a responsável.
Jacques expressa novamente a sua concordância com um acenar de cabeça. Mas desta vez rompe o silêncio: “Francisco era um tipo como nós, e nunca vi algo tão belo. Para mais, é bom haver quem possa comentar. Para mim é muito difícil entender as descrições sob os quadros porque não sei ler bem.” Por vezes a conversa pode tornar-se um tudo nada mais dura, como a provocação que Gilbert fez a Charles Coulon, o outro conferencista: “O teu Francisco disse: Nunca matarás. Mas como é se for o teu país a exigir-te que vás para a guerra?” Antes de lhe tocar no ombro: “Deixa lá, eu bem sei que não tens as respostas todas. Mas é muito bom falar contigo. Não é assim tão frequente que nos venham visitar...”
Jean-François Fournel
In La Croix
Trad. e adapt.: rm
© SNPC (trad.) |
27.05.09

S. Francisco dá o manto a um pobre
Giotto
Igreja de S. Francisco de Assis, Itália







