Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Zaqueu: Bem-aventurados os distantes

Imagem

Zaqueu: Bem-aventurados os distantes

Não é por acaso que Zaqueu não fazia parte da multidão. Embora, como chefe dos cobradores de impostos, Zaqueu ocupasse uma importante e lucrativa posição, ele era uma pessoa situada nas margens da sociedade, tal como o mendigo cego à beira da estrada de Jericó, a quem Jesus curara pouco antes de se encontrar com ele. Zaqueu estava afastado dos seus vizinhos pelo simples facto de ser um funcionário alfandegário, isto é, alguém que desempenhava um trabalho banido por questões políticas, nacionais, rituais e morais. Esses funcionários cobravam impostos para o odiado poder ocupante, manuseavam moedas que ostentavam a imagem do imperador - dinheiro em que um judeu piedoso, segundo os ensinamentos de rigorosos rabinos, nem sequer devia tocar. Ainda por cima, metiam ao bolso quantias ilegais. Zaqueu era desprezado pelos seus conterrâneos, embora estes talvez também o invejassem, visto que ele era, como está escrito, um homem muito rico.

A conversa de Jesus com Zaqueu não constitui um incidente isolado no Novo Testamento. Poder-se-ia até descrevê-la como uma espécie de «Evangelho em miniatura», no qual descobrimos, em algumas frases concisas, uma rigorosa imagem e ilustração da missão de Jesus: conversão, cura, descoberta, acolhimento das suas «ovelhas perdidas». Isso explicará, provavelmente, por que razão esta passagem viria a ser um dos temas preferidos de sermões e ensaios de alguns dos grandes pensadores cristãos, como Santo Ambrósio, Santo Alberto Magno, Erasmus e Martinho Lutero - bem como de milhares de representações artísticas, desde os sarcófagos cristãos primitivos até aos evangeliários dos imperadores alemães Otão II e Henrique II, os frescos medievais da igreja de Sant' Angelo in Formis, o saltério do Mosteiro Pantokrator, no Monte Atos - e todos os outros lugares onde deparamos com a figura do pequeno cobrador de impostos.

Jesus nunca deixou de procurar os que estavam «distantes». Nas suas parábolas, o rabino de Nazaré costumava atribuir papéis positivos a grupos desprezados, tais como os samaritanos, os detestados publicanos, as prostitutas e outros pecadores. Dedicou-se aos leprosos, aos deficientes físicos e a outros, que eram excluídos da sociedade. O seu interesse não derivava de qualquer predileção romântica pelas «maiores profundezas», ou de irada revolta juvenil contra o "statu quo", aliás, nem sequer da «previdência social» ou da solidariedade política para com os pobres, os oprimidos e os explorados, tal como as entendemos hoje em dia. Como alvo da sua atenção, a par dos pobres, encontravam-se os doentes, «pecadores» de todos os tipos, e também ricos fun­cionários da alfândega e cobradores de impostos como Zaqueu. (Note-se que, mesmo depois da conversão de Zaqueu, Jesus não instou com ele para que abandonasse a sua profissão, e nós não somos obrigados a assumir que Zaqueu caiu na pobreza, depois de ter cumprido a sua promessa de compensar aqueles que prejudicara). Aquilo que todos eles têm em comum é que todos se situam - por várias razões - nas franjas do ambiente em que Jesus agia, um ambiente que põe fortemente em questão as classificações sob os títulos de Estado, nação ou Igreja que nos são familiares, e que é quase sempre descrito no Novo Testamento como «este mundo».

À luz da sua presença, o mundo em que Jesus entrou apresentava-se doente, vazio e introvertido - um mundo sem coração. Os que nele ocupavam as posições mais elevadas tinham corações de pedra e não de carne; os seus corações eram incircuncisose estavam endurecidos;eram como sepulcros caiados, cheios de imundícies. Num mundo assim, muitas pessoas sentiam-se abandonadas como ovelhas sem pastor. E o próprio Jesus não consegue encontrar um lugar onde morar; Ele não tem onde reclinar a cabeça. É essa outra razão pela qual fala sobretudo a «pessoas situadas nas franjas» e se identifica com elas.

Jesus vive num estado de constante tensão com os indivíduos, grupos, instituições e símbolos que constituem o centro, a elite dessa sociedade - tal como o Templo e os sacerdotes à sua volta, os juízes e os dignitários religiosos, os que «se sentaram na cátedra de Moisés», sobretudo os escribas e os fariseus, que encarnavam a autoridade moral e intelectual. A certa altura, Jesus entra em conflito fatal com o poder político do Império Romano, embora Ele próprio tenha evitado esse confronto.

No seu "best seller", "What Jesus Meant", Garry Wills tem toda a razão ao descrever Jesus como um adversário explícito da «religião da elite do Templo» - centro espiritual de Israel nessa época - e ao interpretar no mesmo tom, não só a cena bem conhecida de Jesus e dos cambistas, mas também várias outras passagens dos Evangelhos, incluindo a maldição da figueira estéril e a sua declaração subsequente de que «este monte» - o Monte do Templo! - podia ser levantado e lançado ao mar pela fé dos seus discípulos (Marcos 11,22-24). Não é coincidência que essa passagem termine com a promessa de que as orações serão ouvidas: a fé e a oração são as únicas coisas necessárias para comunicar com Deus; as ofertas no Templo já não são necessárias. De forma muito semelhante, no Evangelho de João, Jesus diz à samaritana que chega a hora em que já não serão necessários templos, nem o de Jerusalém, nem o da Samaria - o Monte Garizim -, porque os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade(João 4,21-23).

Todo o ministério de Jesus, os seus ensinamentos e as suas ações, poder-se-iam caracterizar utilizando a expressão de Nietzsche: «valores de reavaliação». É prefigurado de forma impressionante, no Evangelho de Lucas, pelo hino de Maria à «revolução de Deus»: «[Deus] manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias» (Lucas 1,51-53). A bênção e a «maldição», sua contrapartida, são expressas através de paradoxos semelhantes, tal como a sua famosa afirmação de que «os primeiros serão os últimos, e os últimos serão os primeiros» (Mateus 19,30).

Bem-aventurados sois vós os que estais nas franjas, pois ficareis no centro, no coração! - Nisso se poderia perfeitamente resumir o grosso de tudo o que Jesus disse e fez. Jesus ignorou completamente grande parte daquilo que era considerado pelas outras pessoas o centro inamovível - isso revela-se de modo particular na sua atitude frente às provisões rituais da Lei. Além disso, colocou no centro apenas um valor, um valor que era absoluto para Ele: o amor, convidando todos os que se encontravam «nas franjas» a este novo centro.

O Reino que Ele veio proclamar, o futuro escatológico prometido, que se deverá revelar em plenitude no fim dos tempos, também é aqui e agora - em Cristo, por Ele, com Ele e nele. É essa a boa-nova do Evangelho. Os que estavam nas franjas encontram-se agora no centro, porque Jesus se sentou à mesa com eles e os fez entrar no seu coração. Mas o seu coração pode estar mais oculto do que se poderia pensar ao ver algumas pinturas piedosas. «Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração», diz Jesus (Lucas 12,34). E não consiste o seu tesouro, precisamente, em todas aquelas pessoas situadas nas franjas - incluindo as que duvidam e as que procuram?

 

Tomás Halík
Paciência com Deus, ed. Paulinas
Publicado em 3.11.2013 | Atualizado em 14.04.2023

 

 
Imagem
Jesus nunca deixou de procurar os que estavam «distantes». Nas suas parábolas, o rabino de Nazaré costumava atribuir papéis positivos a grupos desprezados, tais como os samaritanos, os detestados publicanos, as prostitutas e outros pecadores. Dedicou-se aos leprosos, aos deficientes físicos e a outros, que eram excluídos da sociedade
Bem-aventurados sois vós os que estais nas franjas, pois ficareis no centro, no coração! - Nisso se poderia perfeitamente resumir o grosso de tudo o que Jesus disse e fez. Jesus ignorou completamente grande parte daquilo que era considerado pelas outras pessoas o centro inamovível
«Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração», diz Jesus (Lucas 12,34). E não consiste o seu tesouro, precisamente, em todas aquelas pessoas situadas nas franjas - incluindo as que duvidam e as que procuram?
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos