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“1917”: Só por denunciar a insensatez da guerra, já merecia um Óscar

«A primeira vez que compreendi o que é uma guerra foi quando o meu avô, era eu criança, me contou a sua experiência da primeira guerra mundial. Mas este filme não explora a história do meu avô, mas o espírito que a permeava, os acontecimentos vividos por aqueles homens, os seus sacrifícios, o que queria dizer acreditar em algo que ia para lá deles próprios.»

Sam Mendes, vencedor do Óscar para melhor realizador “Beleza americana” (1999), inspirou-se nas memórias do avô Alfred H. Mendes, descendente de portugueses cristãos presbiterianos expulsos da ilha da Madeira, soldado durante o conflito de 1914-1918.

Em 1917, Alfred era um rapaz de 19 anos que se tinha alistado no exército britânico, e que foi escolhido para levar mensagens entre os vários acampamentos da frente ocidental, atravessando a terra de ninguém, esse perigoso território indefinido situado entre os Aliados e as trincheiras inimigas.

O trabalho do cineasta (“007 – Skyfall”) a partir da memória pessoal torna-se uma tomada de consciência sobre o horror da guerra e da insensatez dos nacionalismos. Escreveu “1917” com a escritora Krysty Wilson-Cairns, baseando-se, para esta ficção, também em histórias e diários dos soldados da época.



Trata-se de uma experiência imersiva entre as trincheiras e as batalhas, com um ritmo de um jogo de vídeo, e uma “pietas” de grande tragédia grega



O filme (119 minutos, M/14) evoca os acontecimentos ocorridos na chamada Linha Hindenburg, no noroeste de França. Dois soldados, sós e aterrorizados, numa terra desolada repleta de armadilhas, minas antipessoal, atiradores, destruição e morte, fazem uma viagem «épica» que oferece ao espetador o cenário do primeiro conflito global da humanidade através de uma pequena história humana.

Após o triunfo nos Globos de Ouro, onde mereceu os prémios para melhor filme dramático e realização, o intenso trabalho de Mendes é candidato a dez Óscares, tendo também recolhido, no sábado, o galardão para melhor realizador em longa-metragem nos prémios do Sindicato de Realizadores de Hollywood.

A monumental reconstrução de acontecimentos propõe-se, e aqui está a sua originalidade, como uma narração contínua, criada através de um conjunto de longos e ininterruptos “takes” que foram ligados entre eles, de modo a sugerir uma única gravação única.

Trata-se de uma experiência imersiva entre as trincheiras e as batalhas, com um ritmo de um jogo de vídeo, e uma “pietas” de grande tragédia grega. O virtuosismo de Mendes está bem patente, e é potenciado por dois talentos britânicos: o cabo Schofield, um jovem burguês incarnado por George MacKay, e o extrovertido cabo Blake, genuíno rapaz do campo interpretado por Dean-Charles Chapman.



A corrida contra o tempo torna-se cada vez mais agitada e cheia de perigos, ainda que o perigo maior resida na dureza de coração daqueles que querem continuar a combater, cultivando "horizontes de glória"



Aos dois é confiada uma missão aparentemente impossível: entregar uma mensagem no coração do território inimigo ao coronel McKenzie (Bendict Cumberbatch), que pode salvar a vida de 1600 soldados ingleses, entre eles o irmão de Blake, que caírão numa armadilha se atacarem os inimigos.

A tensão percecionada quase leva o espetador a sentir os corações destes bravos soldados, perdidos no meio do “deserto dos tártaros” entre medo, horror, saudades de casa e sentido do dever.

A corrida contra o tempo torna-se cada vez mais agitada e cheia de perigos, ainda que o perigo maior resida na dureza de coração daqueles que querem continuar a combater, cultivando "horizontes de glória".

Sam Mendes faz-nos compreender a guerra não tem nada de belo ou heroico, e só por isso já mereceria o Óscar.








 

Angela Calvini
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "1917" | D.R.
Publicado em 29.01.2020

 

 
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