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29 livros para ler a vida e o mundo

A revista “Atual”, publicada este sábado com o jornal “Expresso”, sugere 50 obras literárias e ensaísticas «essenciais para ler na mítica ilha deserta», deixando de antemão o aviso de que «não há listas perfeitas».

Os livros apresentados «têm uma qualidade literária acima de qualquer suspeita», ainda que possam não ser consensuais, refere o texto de apresentação do artigo.

Do elenco propomos 29 obras, acompanhadas pela apreciação de Ana Cristina Leonardo (ACL), Clara Ferreira Alves (CFA), Henrique Monteiro (HM), José Mário Silva (JMS), Luísa Mellid-Franco (LMF) e Pedro Mexia (PM).

A Bíblia não foi mencionada mas essa é uma sugestão de sempre.

 

1984
George Orwell
Antígona
Creio que foi Harold Bloom que deu cabo deste livro do ponto de vista estilístico, “1984” não é um grande romance e George Orwell foi muito melhor ensaísta do que romancista. Mas este livro tornou-se um livro-culto, alegórico. É uma narrativa do autoritarismo na sua forma extrema, de devassa e violência do indivíduo em nome de um coletivo sem identidade, que vigia todos os gestos. É sobre a perda da inocência quando se perde a liberdade. Orwell estilizou o estalinismo, mas o século XX demonstrou que a imaginação do exterminador consegue superar o horror orwelliano. Profético, o livro adapta-se ao espírito do tempo. “Big brother is still watching you”, num ecrã digital ou num algoritmo que providencia uma base de dados sobre a nossa identidade e os nossos hábitos computorizados. (CFA)

 

A divina comédia
Dante Alighieri
Bertrand
Poucas obras perduram há tanto no imaginário cultural, artístico e popular como esta “Comedia” (1304-1321), que só mais tarde foi batizada de divina. A visita de Dante e de Virgílio, o clássico poeta da “Eneida”, ao inferno, purgatório e paraíso, através dos vários círculos de cada um daqueles destinos post-mortem (à imagem da ideia da época, de um universo construído de círculos concêntricos), retrata uma intensa crítica social, política e de costumes. Escrita em italiano (toscano), com rimas em tercetos (de que existe cuidada tradução de Vasco Graça Moura), a “Comédia”, assim chamada não por ser divertida mas por ter um final feliz, termina no Paraíso, onde o autor é guiado pela puríssima Beatriz. Aí, ser-lhe-á permitida a visão de Deus, uma rosa celeste de luz e harmonia. (HM)

 

À espera de Godot
Samuel Beckett
Cotovia
Embora Samuel Beckett tenha uma importantíssima obra de ficção narrativa (digamos assim), foi o teatro que lhe deu notoriedade e lhe valeu o Nobel (que ele, que detestava publicidade, não foi receber, refugiando-se em Cascais). E embora “À Espera de Godot” (que se estreou em 1953) não seja a sua melhor peça (nem sequer a sua favorita), foi “Godot” que ganhou a imortalidade como texto fundador do chamado Teatro do Absurdo. Mas o teatro de Beckett não é minimamente absurdo, pelo menos não mais do que a própria «condição humana». É verdade que “À Espera de Godot” não tem enredo propriamente dito, nem vai de A a B, e que se passa numa estrada à beira de uma árvore, enquanto não chega o tal Godot, que de facto nunca chega; mas os dois comparsas que esperam, Vladimir e Estragão, são criaturas bastante concretas, tão concretas como Bucha e Estica (Beckett adorava vaudeville e cinema mudo), homens sem eira nem beira que se entretêm com jogos e picardias, enquanto discutem tudo e (literalmente) um par de botas, da teologia ao suicídio. Seria uma peça intragável se tudo isso se tornasse “simbólico”, mas Beckett detestava símbolos e recusou-se sempre a explicar o significado do texto, negando apenas que “Godot” fosse “god” (deus); mas facilmente seria um ciclista francês chamado Godeau, do qual ele era fã. Beckett foi depurando o seu teatro e escreveu alguns brilhantes monólogos e “dramatículos”, mas nada entrou na imaginação do século como aquela espera talvez em vão. (PM)

 

A montanha mágica
Thomas Mann
Dom Quixote
É uma grande peça sinfónica. É também um romance exigente. Uns dirão que é um bildungsroman; outros que é uma meditação sobre o tempo; outros qu eé sobre a modernidade; outros que é sobre a doença; outros que é sobre a Europa. Dirão ainda que não se pode compreender a burguesia alemã, nem a Alemanha, nem Weimar, sem subir a Montanha. Hans Castorp vai visitar um amigo a um sanatório nos Alpes e fica porque descobre que tem tuberculose. A praxis obrigatória, as personagens, a solidão da doença e a proximidade da morte transformam-no. E o tempo, longo, oferece-lhe uma consciência naquele espaço fechado com vista para a eternidade. Pensar, filosofar. Castorp e Mann pensam com erudição, mas não a destituem da ironia sem a qual toda a erudição é um fardo doentio. (CFA)

 

A terra sem vida
T.S. Eliot
Ática
T.S. Eliot acreditava que a poesia devia ser difícil e impessoal. O «talento individual» de cada poeta dialogava com a «tradição», de modo que o texto poético não era a expressão de uma personalidade mas uma fuga à personalidade e à transparência. O poema devia ser «novo» e portanto «moderno», mas não ter ilusões acerca da «originalidade». Essa teoria crítica de Eliot manifestou-se também na sua obra poética, escassa mas monumental. “A Terra sem Vida” (1922) é um longo poema, em cinco partes, com várias vozes, e vai muito além dos monólogos dramáticos que Eliot escrevera antes. «Escorar as ruínas» através de «fragmentos», eis a formulação que o escritor encontrou para definir este texto cheio de citações e alusões: de Homero às cançonetas populares, de Agostinho a Baudelaire, da mitologia do Graal à antropologia, num palimpsesto de referências, idiomas, variações. Eliot espelha o desencanto civilizacional do pós-I Guerra mas não escapa a um estado de espírito mais autobográfico (o poeta escreveu o primeiro esboço num sanatório suíço, onde a mulher estava internada com problemas mentais, e ele também andava depressivo). Ezra Pound teve uma influência definitiva na versão final do livro, criticando, sugerindo, rasurando, de modo que é a ele, «il miglior fabbro», que o livro é dedicado. Eliot não conseguiu que “A Terra sem Vida” fosse realmente «impessoal», mas não há dúvida de que é «difícil», um dos mais obscuros textos modernistas, de tal modo que o autor decidiu incluir umas bizarras notas finais (que explicam pouco e apenas criam novas complicações). Com “A Terra sem Vida”, o conservador Eliot escreveu o grande poema vanguardista: uma elegia radical mas «canónica» por excelência. (PM)

 

As elegias de Duíno
Rainer Maria Rilke
Assírio & Alvim
O annus mirabilis de 1922 assistiu à publicação de “A Terra sem Vida”, de Eliot, e da segunda parte de “As Elegias de Duíno”, do checo de língua alemã Rainer Maria Rilke. Começadas no castelo de Duíno, perto de Trieste, em 1919, e terminadas no castelo de Muzot, na Suíça, as “Elegias” nasceram de um momento de inspiração torrencial, que Rilke explicava em termos mais ou menos místicos, como convinha a uma poesia metafísica mas não religiosa, de um fausto lírico formidável, ainda que austero, hermético. Beneficiando do mecenato de amigos aristocratas, Rilke conciliava um certo temperamento romântico, instrospetivo, elevado, com a noção aguda de que o mundo tal como o conhecia terminara com o eclodir da I Guerra. Daí que as elegias sejam ao mesmo tempo profecia e luto. (PM)

 

As ondas
Virginia Woolf
Relógio D’Água
É um romance feito de solilóquios encadeados que abarcam as vidas de seis personagens, mais uma sétima, que não fala mas cujas reflexões surgem ao leitor em diferido, através de referências dos restantes. A fórmula, altamente experimental, resulta em pleno sobretudo quando esta espécie de recitativo contínuo e alternado é quebrado por nove interlúdios escritos na terceira pessoa descrevendo um episódio – ele também em vários andamentos –, num determinado dia, do amanhecer ao pôr do sol. Desta conceptualização do que é individual e do que é comum e que reúne os amigos numa mesma linguagem, resulta uma espécie de poema em prosa, construído por blocos que parecem uma transcrição quase em bruto do fluxo espontâneo da consciência e que emergem sob a forma de «vozes». (LMF)

 

Confissões
Santo Agostinho
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
Diz-se que é o mais extenso mea culpa da história, mas do que não há dúvida é de que se trata da primeira autobiografia digna desse nome. Aurélio Agostinho, conhecido por Agostinho de Hipona, na atual Argélia, onde faleceu, foi na realidade um dos pais da Igreja Católica. Filho de Santa Mónica, tardou, porém, a aderir ao cristianismo, deambulando pela religião gnóstica fundada por Mani, na Pérsia, que pretendia fundir todas as outras – o maniqueísmo. É precisamente sobre o percurso da sua juventude “pecadora” até à conversão às mãos do bispo de Milão, Santo Ambrósio, que o livro versa (inclui, ainda, reflexões sobre o significado do Génesis e da Trindade). Juntamente com outra grande obra de Agostinho, “A Cidade de Deus”, as “Confissões” (395?) tornaram-se o modelo da literatura cristã que marcaria os séculos posteriores. Considerada uma obra-prima nos domínios da literatura, filosofia e teologia, apesar de escrita há mais de 1600 anos, continua a ser objeto de leitura e estudo nos dias de hoje. O neoplatonismo de Agostinho, que se plasma através do livro, estabelece a possibilidade de concórdia entre graça divina e liberdade individual, ao mesmo tempo que explora, com uma modernidade ainda hoje admirável, os estados de espírito e as inflexões da mente humana na relação entre o desejável e o possível. A sua espécie de autocrítica pela luxúria em que passou alguns anos da juventude é admirável, assim como a sua análise das dinâmicas de grupo, quando, por exemplo, tenta explicar a razão pela qual um grupo de rapazes sem dificuldades (entre os quais o próprio) roubava peras por puro divertimento. Livro obrigatório para crentes, pelo que representa do triunfo da vontade e da razão sobre as paixões e o desejo, contém das passagens mais belas e comoventes jamais utilizadas na literatura. (HM)

 

Crime e castigo
Fiódor Dostoievski
Relógio D’Água
A que ponto podem ir os remorsos de um homem? Que impulso benéfico nos pode dar uma prostituta? O genial e denso romance de Dostoievski transporta-nos por diversas histórias e levanta-nos um sem-número de questões a partir do drama psicológico de Raskolnikov, um estudante de Direito orgulhoso e pobre que um dia sonha com uma pequena égua a ser espancada pelo seu dono, bêbado. O pesadelo leva-o a matar e roubar uma destestável agiota bem como, devido a circunstâncias do momento, a irmã da prestamista. O arrependimento fulmina-o de imediato, com febres, convulsões, desespero. Do enredo sobressai a ideia de que o castigo é um inferno interior. Mas será Sónia, uma jovem prostituta de 18 anos, a conduzir o protagonista à confissão que lhe alivia a consciência. (HM)

 

Dom Quixote de La Mancha
Cervantes
Dom Quixote
Numa terra de La Mancha, de que o narrador prefere não se lembrar, vive Alonso Quijano, um homem que por excesso de leituras passou a linha que separa a sanidade da loucura. Ao sair da sua biblioteca, ele só consegue apreender o mundo com os olhos da literatura: a bacia do barbeiro é um elmo; o decrépito jumento parece-lhe um cavalo a sério (Rocinante); em prostitutas vê castas donzelas; numa estalagem manhosa, um palácio. Transforma-se assim o «engenhoso fidalgo» num «cavaleiro da triste figura», partindo estrada fora na companhia de um escudeiro que não o compreende (Sancho Pança) mas vai alimentando a ilusão. Lado a lado, arremetem contra moinhos que para Quixote são gigantes e para Pança nunca deixam de ser moinhos. Raras vezes foi tão nítidom como nesta dupla picaresca, o contraste entre a imaginação à solta e a materialidade concreta das coisas, entre a utopia e o pragmatismo. Publicada em 1605, a primeira parte do “Quixote”, com os seus elementos paródicos, fazia a transição entre modelos narrativos antigos (novelas pastoris, romances de cavalaria) e a literatura moderna. Mas a genialidade intemporal de Cervantes manifesta-se dez anos mais tarde, em 1615, com a edição da segunda parte da obra. Tendo o primeiro livro obtido um êxito enorme em toda a Espanha, as personagens que se cruzam com a dupla Quixote/Pança leram-no; ou seja, já conhecem os seus feitos, os seus falhanços, e aproveitam esse conhecimento para lhes criarem novos embaraços. Dito por outras palavras, Cervantes inventou, há quatro séculos, a metaficção. Querem algo mais moderno do que isto? Aliás, ainda na primeira parte, quando o barbeiro revista a biblioteca de Quijano, para lhe queimar os livros, encontra o primeiro romance de Cervantes (“A Galateia”) e poupa-o. A multiplicação dos narradores, bem como o seu carácter ambíguo, é outra marca de modernidade. “El Ingenioso Don Quijote de La Mancha” foi provavelmente o primeiro de todos os romances dignos desse nome. Podia ser o último. (JMS)

 

Em busca do tempo perdido
Marcel Proust
Relógio D’Água
É uma procura em elipse, cujo ponto de partida mergulha numa chávena de chá com madalenas, anos depois da infância. É o cheiro e o sabor, o barulho da colher e a textura do guardanapo que lhe oferecem o tempo perdido em que, criança, descobria o mundo através dos sentidos e da leitura. E o tempo é efetivamente reencontrado, anos de escrita mais tarde, quando o narrador toma consciência de que, ao ouvir um excerto musical, o ruído de uma taça de porcelana a pousar no prato, a mesma emoção o revisita. Agarrando a impressão, compreende enfim que a memória involuntária é a chave que lhe devolve o passado e o poder de o transmitir e que a obra de arte é o que permite viver cultivando o essencial e desprezando o supérfluo, neutralizando os limites do tempo. (LMF)

 

Ensaios
Michel de Montaigne
Relógio D’Água
Se a “Bíblia” é a palavra de Deus, os “Ensaios” são a palavra de um homem. De um homem complexamente simples, como foi Michel Eyquem de Montaigne, figura por excelência do Renascimento e da redescoberta do classicismo no século XVI. De que tratam os “Ensaios”? De tudo! Mas rigorosamente de tudo, desde a filosofia a medicina, passando por assuntos do quotidiano, como o desempenho dos criados, a horticultura, cavalos, estados de espírito, morte, amizade ou clima. É um livro único, conjunto de pensamentos e aforismos que têm o condão de romper com uma mundivisão centrada na transcendência, nos arquétipos, na pureza dos conceitos, para a centrar num olhar subjetivo, pessoal, que recai sobre os assuntos mais banais para procurar o eu – Michel de Montaigne – e através do eu reconhecer toda a condição humana. Para Montaigne, a perfectibilidade é possível e desejável no plano individual; já a sociedade no seu conjunto, bem como as suas convenções, são objeto de um ceticismo ora amargurado ora humorado. Acima de tudo, o pensamento de Montaigne fundamenta-se na tolerância e na liberdade. Profundamente moral, redescobrindo a tradição clássica da consciência individual como contraponto à imposição da palavra divina que prevalecera na Idade Média, consegue, apesar de sofrer algumas críticas que o apontam como herege, nunca afrontar a Igreja Católica. Montaigne constitui um paradoxo se utilizarmos uma grelha de análise atual. Sendo um homem intrinsecamente livre, como sublinhou Stefan Zweig na genial biografia que sobre ele escreveu, não deixa de se apresentar como um conservador. Opositor feroz da Reforma e do protestantismo, a que atribuía a origem das desordens na Europa e na França, é um crítico de Platão e de Maquiavel e das suas ideias de governo ideal. Da sua biblioteca, onde quase se encerrou nos últimos anos de vida, decreta o bom senso como guia. Um legado de estoicismo que fora buscar aos clássicos e ao seu amigo e mestre Etiènne de La Boètie, autor do “Discurso da Servidão Voluntária” – algo que Montaigne apreciava. (HM)

 

Ficções
Jorge Luís Borges
Teorema
Argentino de cultura anglófona, Borges viveu a infância na biblioteca do pai e atravessou a vida como se nunca de lá tivesse saído. O seu universo é livresco no melhor sentido da palavra, erudito, especulativo, fantástico, reinventando permanentemente os grandes temas (o tempo, o infinito, a ordem secreta do mundo). Em vez de «compor vastos livros», preferiu «simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário». Poeta maior, ensaísta agudíssimo e enciclopédico, escreveu dezenas de contos perfeitos, atravessados por tigres, espelhos, labirintos, simulacros e parábolas. Alguns dos mais geniais estão em “Ficções”: “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, “Pierre Menard, Autor do Quixote”, “O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam”, “A Biblioteca de Babel”. (JMS)

 

Guerra e paz
Lev Tolstói
Presença
Como explicar este livro em meia dúzia de linhas? Começando por não explicar. “Guerra e Paz” deve ser lido sem prefácios, introduções, recurso a enciclopédias, teorias ou biografias. Esqueçam as versões, as traduções, as polémicas, as variações. Deve ser lido como se lê um livro pela primeira vez. É sobre os fenómenos inexplicáveis do amor, da guerra, da morte. É sobre a História como grande movimento humano comandado por força divina, tal como a tragédia grega. É sobre dois homens que se amam e amam a mesma mulher e para que um deles fique com ela o outro tem de morrer. É sobre Napoleão e a campanha da Rússia, a derrota do imperador da Europa. É sobre a impossibilidade da felicidade plena e da infelicidade plena. O sofrimento tem um limite, como a liberdade. Nesta guerra mata-se e morre-se e morre-se de amor. No princípio do livro está o diálogo entre Pierre Bezukhov, o anti-herói, diálogo que é um código. André diz que não quer falar sobre ele porque é «o homem de ontem». Pierre diz que nada há para dizer sobre ele porque é «um bastardo». Filho ilegítimo de um conde riquíssimo, herdará o título e a fortuna. E o amor de Natacha, que vê morrer-lhe o príncipe André nos braços. Esta morte, mil vezes cantada e contada, é o génio de Tolstói para tornar o pensamento complexo em emoção quimicamente pura, sem gota de sentimentalismo. “Guerra e Paz” não é um romance, é o romance, a definição de uma cultura qu eé russa e também europeia, nesse eixo que anuncia a modernidade e que vai de São Petersburgo a Paris. Ninguém escreveu sobre a guerra como Tolstói e ninguém o fará. Tendo estado na guerra da Crimeia, conhece o que descreve. A agonia dos soldados russos e franceses, a retirada de Moscovo são páginas canónicas, que impõem um respeito místico. Um filme com a vida lá dentro, com close-ups e panoramas. Pierre, Natacha, André ficam com os leitores para o resto da vida. Mil páginas onde o conde Tolstói nos ensina a inutilidade ontológica do cinismo nos escravos e nos príncipes. Nas nações e nos salões. (CFA)

 

Macbeth
William Shakespeare
Relógio D’Água
Quem diria que podia haver tanto sangue dentro de um livro tão pequeno. A mais curta tragédia shakespeariana conta a história de Macbeth, o guerreiro escocês que queria ser rei por causa de uma profecia das bruxas e da bruxa maior, a mulher, Lady Macbeth. Os Macbeth são serial killers, matam por ambição e por poder, matam com crueldade e com tirania. Claro que o fim desta violência desenfreada é a morte precedida da loucura como tormenta moral. “Macbeth” tem algumas das melhores citações shakespearianas e tam tanta violência verbal que os leitores podem duvidar do que estão a ler ou ouvir no teatro. Orson Welles fez um “Macbeth” inesquecível. Lawrence Olivier nunca chegou a fazer. O casal Macbeth ocupa o centro, e a maldade dela funde-se com a ambição dele. Uma fusão nuclear. (CFA)

 

Memórias póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis
Cotovia
A narração é assumida por um autointitulado «defunto-autor», que a inicia com a sua morte e funeral e vai recuando dos delírios antes de falecer até uma infância de filho mimado da elite abastada no Brasil do século XIX. Depois de uma infância com todos os privilégios imagináveis, em adulto gasta fortunas com uma prostituta de luxo, festas e frivolidades. O pai aplica-lhe a receita da época, mandando-o para Coimbra garantir o título de bacharel. Já com o diploma, apaixona-se por Virgília, familiar de um ministro da corte. E começa o declínio das ilusões: ela casa com outro, inviabilizando-lhe quer o casamento quer uma entrada na política, vista como ascensão social. O fio do enredo é precisamente o das sucessivas frustrações de expectativas, a esterilidade de uma existência que se pressentia auspiciosa. (LMF)

 

Moby Dick
Herman Melville
Europa-América
«Call me Ishmael» («Chamem-me Ishmael»). Uma frase, três palavras, e já estamos presos no sortilégio de Melville. Antigo mestre-escola, Ishmael é um jovem que decide trocar uma vida segura em terra pela experiência da aventura no mar alto. Após algumas experiências na marinha marcante, embarca num baleeiro de Nantucket: o “Pequod”. Em “Moby Dick”, é ele que narra a viagem do navio e a loucura do seu capitão, Ahab, um homem obcecado pela ideia de vingança. A grande baleia branca, monstro do oceano que escapa a todos os perseguidores, levou-lhe há muito tempo uma perna e a paz de espírito. Enquanto não a reencontrar, enquanto não lhe cravar o arpão fatal que tinja as águas de vermelho, Ahab não descansa. Mesmo que isso implique enfrentar uma tripulação que só quer fazer o seu trabalho – a faina de sempre – e voltar para casa. Melville publicou este livro portentoso a meio do século XIX (1851) e a receção foi fria ou negativa. Para alguns críticos da época, “Moby Dick” era um livro desequilibrado, lento, com problemas estruturais e de escrita. O que umas décadas mais tarde seria visto como antecipação do que aí vinha (o hibridismo entre vários géneros, o olhar caleidoscópico sobre a realidade, o fôlego de uma empresa ficcional que rebenta com os espartilhos romanescos), na altura foi entendido como defeituosa execução de um escritor ambicioso. Melville sabia que tinha escrito o seu magnum opus, mas morreu sem o ver no cânone da literatura norte-americana e universal, onde está hoje de pleno direito. A sua baleia branca é a metáfora perfeita porque pode ser tudo o que quisermos que ela seja: a morte, Deus, o Mal. A bordo do “Pequod” vai a humanidade inteira. E no fim, consumada a tragédia, só sobrevive um, Ishmael, o que ficou para contar. (JMS)

 

O coração das trevas
Joseph Conrad
Dom Quixote
Talvez a grandeza de “O Coração das Trevas” esteja na forma contraditória como é lido ainda hoje o romance de Joseph Conrad, que Coppola adaptou ao cinema, chamando-lhe “Apocalypse Now” e transferindo-o do Congo para o Vietname: para uns, libelo anticolonialista, para outros, representação racista de África. Polémicas à parte, é uma obra maior da literatura mundial, escrita numa língua que Conrad, nascido na Polónia, só dominaria tarde. Retrato do traficante Kurtz feito por Marlow, marinheiro experiente que relata a sua viagem ao «coração das trevas» a uma pequena audiência de camaradas. A escrita de Conrad transporta-nos, então, para um cenário vivo que se desenrola diante dos nossos olhos, encantamento sombrio que nos enfeitiça também a nós, leitores. (ACL)

 

O homem sem qualidades
Robert Musil
Dom Quixote
O volumoso “O Homem sem Qualidades” (1930-42) é na verdade um romance incompleto, no qual Musil trabalhou durante duas décadas. Em três volumes dispersivos, abundantes, especulativos, assistimos a uma das grandes autópsias da decadência austríaca, exercício cultivado por gente tão mordaz como Kraus ou Schnitzler. O Império Austro-Húngaro surge aqui sob nome excrementício de “Cacânia”, e Ulrich, o protagonista, é um «homem sem qualidades» porque absorve passivamente tudo o que lhe acontece, das celebrações imperiais a casos incestuosos, passando por crimes e boémias. Ninguém faz tanto como Musil para tornar o romance uma «obra de arte total», um género onde cabe tudo, uma sucessão ambiciosa e caótica de ideias, temas e personagens. E a escrita é subtil, irónica, muito céptica. (PM)

 

O processo
Franz Kafka
Assírio & Alvim
Quando Joseph K. acorda um dia e é detido sem qualquer motivo que se conheça, começa uma enorme caminhada. Mais do que a saga de um cidadão a braços com uma justiça opaca, burocrática e inumana, o romance de Franz Kafka, escritor nascido em Praga mas que optou sempre por escrever em alemão, descreve a importância do indivíduo contra uma opressão sem rosto, onde uns veem o Estado e outros, como Sartre ou Steiner, uma forma de exegese rabínica ou o modo como os judeus viam o mundo nesses anos de chumbo de antissemitismo. Há igualmente quem queira explicar a obra (aliás inacabada e só publicada depois da morte do autor pelo seu amigo Max Brod) como uma parábola de uma rotura amorosa de Kafka ou mesmo do modo como a sua personalidade criativa era esmagada pelo pai. Seja qual for a boa explicação, o livro é carregado de uma constante revolta contra a opressão, tecido com uma descrição inquietante do poder de uma tirania difusa (dele nasce a expressão “processo kafkiano”) à qual o protagonista, exemplo do anti-herói, opõe apenas a sua humanidade, que, como noutras obras do mesmo autor, ninguém parece entender e menos ainda dar valor. Nesta obra perpassa aquela espécie de absurdo tipicamente checo, presente em Jaroslav Hasek e que perdura em Bohumil Hrabal e, mais recentemente, em Milan Kundera. (HM)

 

O som e a fúria
William Faulkner
Dom Quixote
Livro difícil. Quem já leu, sabe que é assim; quem nunca leu, fica avisado que só à segunda leitura se consegue começar a digerir a obra-prima de William Faulkner, voz inimitável que tantos tentaram imitar. “O Som e a Fúria” (1929) condensa todas as obsessões literárias do autor, dos temas à técnica narrativa: a decadência dos Compson, torrente arrasadora contada pelos filhos, começando por Benjy, autista adulto que vamos acompanhando com dificuldade; Quentin, filho atormentado que cometerá suicídio; e Jason, cínico e violento. Uma serva negra e um narrador sem nome dão sentido (final) ao quadro, que inclui ainda uma irmã banida e uma sobrinha rebelde. Anormalidade, pecado, sexualidade, racismo... tragédia sulista «Told by an idiot, full of sound and fury, Signifying notihng» (“Macbeth”). (ACL)

 

O vermelho e o negro
Stendhal
Relógio D’Água
André Gide considerava este livro, escrito em 1830, a primeira obra do século XX, por estar muito à frente no tempo. Romance psicológico, realista e inspirado em factos ocorridos em França, tem por personagem central Julien Sorel, filho de um carpinteiro que revela uma inteligência e uma vontade de aprender invulgares. Julien vive dividido entre a sua atração pela vida de armas (é admirador de Napoleão) e o compromisso de seminarista, mas acima de tudo a sua vida será marcada pela relação sucessiva com duas amantes, ambas casadas com ricos donos de casas para as quais trabalha, uma na província, outra em Paris, não faltando o desfecho trágico. Pelo romance perpassa a guerra, a oposição entre a cidade e o mundo rural, o conflito religioso jansenista e a traição amorosa. Uma obra-prima. (HM)

 

Obra poética
Sophia de Mello Breyner Andresen
Caminho
Em geral, quando um poeta escolhe, ou prefere, os motivos clássicos, intuímos que recusa veementemente os «valores cristãos»; mas Sophia de Mello Breyner Andresen nunca viu qualquer incompatibilidade entre o culto greco-latino da beleza e da justiça e a devoção cristã pela dignidade e a redenção. Mais: Sophia insistiu na ideia de que mesmo uma poesia tendencialmente «pura» nunca podia alhear-se do sofrimento e da opressão, ou seja, tinha sempre de ser também «impura». Por isso, estes poemas luminosos e lapidares indignam-se com a mesma frequência com que se extasiam; são pequenas esculturas musicais que evitam tanto a trivialidade quanto o dogmatismo. Sem prejuízo da “Obra Poética”; indispensável, a elegante reedição livro a livro é preciosa. (PM)

 

Odisseia
Homero
Cotovia
A base, a basezinha, como se costuma dizer. Sem a “Odisseia” não haveria literatura nem literatura europeia. Não haveria Shakespeare nem Camões. Não haveria o gosto por uma aventura humana que desafia os deuses e a nossa inteligência, Não haveria poesia. É bom avisar que a “Odisseia” não existiu como livro autónomo escrito por um autor grego chamado Homero por volta do século VIII a.C. O texto, que sofreu inúmeras fixações e versões e traduções, tornou-se com o tempo uma invocação do classicismo na literatura, fundação do Cânone. E começou por ser literatura e tradição oral, passada de boca em boca e de memória em memória, um longuíssimo poema que ajudou a gerar uma língua, a grega, e uma nação, a Grécia. Junto com a “Ilíada”, a “Odisseia” conta dos heróis da guerra de Troia, uma guerra que começa por um engano de amor. Acabada a guerra, o herói Odeisseu, ou Ulisses, regressa a casa, Ítaca. Demora-lhe dez anos o regresso, e a “Odisseia” é a história das aventuras envolvendo Ulisses, a mulher, Penélope (que espera),  e o filho, Telémaco. Em Ítaca, os Pretendentes querem a casa, a mulher e a terra. Ulisses enfrenta inimigos extraordinários, dos gigantes ciclópicos às sereias, da deusa Circe a Éolo, deus dos ventos. A aventura é superior a qualquer jogo vídeo, na imaginação e no prodígio. A versão para jovens de Frederico Lourenço, que faz a tradução da “Odisseia” integral, torna a história acessível sem lhe roubar o sopro fantástico. O regresso a casa, onde Ulisses chega como um vagabundo desconhecido, apanhando os rivais em falta, é um momento de triunfo olímpico. A “Odisseia” (adaptada) deve ser lida quando se é jovem, quando a imaginação cavalga tanto como as palavras. A composição literária homérica não ganhou uma ruga. E, quando os anos assentarem, deve ser lida a integral. O verso épico como primeira pedra do Ocidente.

 

Os miseráveis
Victor Hugo
Europa-América
A história decorre em França, entre a batalha de Waterloo (1815) e os motins de junho de 1832 nas barricadas da Rue Saint-Denis, num contínuo – em cinco volumes – que tem por eixo a vida de Jean Valjean. Marginalizado por todos quando termina 19 anos de reclusão, é recebido na casa do bispo Myriel, que lhe dá os meios para escolher o caminho da honestidade, o que consegue, tornando-se um próspero empresário. O passado, porém, não o deixa em paz, e a condição de ex-presidiário e fugitivo é-lhe sistematicamente devolvida pelo destino. Outras personagens, como Fantine, Cosette e Marius ou Javert, formam uma panóplia de figuras que, a par das circunstâncias históricas já referidas, compõem um enorme fresco da sociedade francesa da época. (LMF)

 

Poesia
Álvaro de Campos
Assírio & Alvim
Que seria de nós sem o engenheiro que «à dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctrica da fábrica» escreve odes, rangendo os dentes sobre a grande beleza da Idade Industrial? Assassinada esta pela Digital, que faria o nosso Campos assombrado na luz do iPad? Este é o meu heterónimo preferido, não por ser o mais perfeito autor, a mais perfeita criatura pessoana, mas por ser o poeta mais dramático e absurdo, o homem mais contraditório, o mais inconformado dos génios. O que tem como coração um almirante louco. Vamos por um instante imaginar que o Campos existira como poeta vivo e carnal e não como heterónimo. Se o Campos existisse assim, e tivesse deixado apenas estes versos deste livro, seria um Nobel. Um Nobel por nobelizar. Teresa Rita Lopes dividiu-o em três engenheiros: o Sensacionista, o Metafísico e o Aposentado. O Sensacionista, preso a nada, ansioso da viagem, desprendido de atilhos, é muito parecido com o Pessoa que tivesse enfrentado o cosmos em vez de o pensar. O Aposentado é o retirado, o que chega de viagem e desistiu de partir. Não há que fazer nada na véspera de não partir nunca. No Metafísico, repassado dessa melancolia lisboeta que o amarra ainda ao cais da partida, a Lisboa do Tejo e tudo, reencontramos a angst portuguesa, esse vago desejo de coisas perdidas que nunca foram nossas. Se quiserem compreender essa coisa de ser português, leiam o Campos, pela vossa saúde. Ele faz a sua saudação a Walt Whitman, dizendo que nos píncaros estão eles dois. E Homero. O Campos sabia. (CFA)

 

Poesia
Giuseppe Ungaretti
Dom Quixote
A poesia completa de Ungaretti foi recolhida num volume com um título aparentemente estranho: “Vita de un uomo”. Afinal, ele é conhecido como um dos mestres do «hermetismo», corrente modernista algures entre o simbolismo e o futurismo e que afastou a poesia italiana do discursivismo enfático e a tornou mais complexa, alusiva, minimalista. Mas de facto o poeta sempre escreveu sobre a sua vida, da experiência das trincheiras (“Il porto sepolto”, 1916) à morte de um filho (“Il dolore”, 1947). Nascido em Alexandria, Ungaretti viveu em Paris, frequentou as tertúlias florentinas, deu aulas no Brasil e nunca ganhou o Nobel que merecia, por causa das suas passageiras simpatias fascistas. Mestre da concisão, escreveu o mais curto poema do cânone contemporâneo: «M’illumimo/ d’immenso». (PM)

 

Se isto é um homem
Primo Levi
Teorema
Se há livro que devia ser de leitura obrigatória – se eu defendesse, e não defendo, os livros de leitura obrigatória –, este testemunho de Primo Levi seria decerto um deles. Embora «as Humanidades não humanizem», como diz Steiner, a leitura das memórias de Levi em Auschwitz remete-nos para a remota possibilidade de contrariar o horror e a barbárie, acendendo em nós a empatia e compaixão que nos fazem necessariamente melhores. Mas o que torna singular esta obra hoje tão lida, depois de tantas vezes recusada pelos editores, é o seu tom antiépico, antissentimentalista, desprovido de mensagens redentoras (ou outras) e despido de floreados estilísticos. Em suma, aquilo que transforma “Se Isto é um Homem” num livro extraordinário é a sua verdade radical. (ACL)

 

Ulisses
James Joyce
Livros do Brasil
Estará o mundo realmente dividido entre as pessoas que leram e as que não leram “Ulisses”? A pergunta é retórica, mas o facto é que a fama de «livro difícil», ou mesmo «impenetrável», persegue até hoje a obra maior de James Joyce. Tais adjetivos são manifestamente exagerados, apesar de “Ulisses” constituir uma tremenda enxaqueca para tradutores, ao transbordar de referências, enigmas e quebra-cabeças. Tudo se passa, porém, na simplicidade de um dia na vida de Leopold Bloom, inscrito em 18 capítulos, que encenam, parodiando-os, episódios da “Odisseia”, de Homero, com o regresso final a casa de Molly, Penélope infiel com cujo famoso monólogo se encerra o livro. Extravagante, “dirty”, diria Nora Barnacle, musa e amante de Joyce para a vida. (JCL)

 

In Expresso (Atual), 18.08.2012
21.08.12

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