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A Igreja tem de se aproximar dos invisíveis

No passado mês de abril, um ator cómico foi eleito presidente da Ucrânia. Depois de ter siso o presidente no ecrã televisivo, tornou-se o presidente real. A distinção entre virtual e real ofuscou-se. Tratou-se de um grito de raiva contra o “establishment” político. Uma situação similar levou Donald Trump ao poder na América. Ele queria «drenar o pântano» de Washington. Uma pesquisa conduzida pelo Conselho Europeu para as Relações Internacionais reconheceu que «os sentimentos pervasivos de alienação e a desconfiança em relação às classes políticas chegaram a um nível nunca atingido até agora». Está espalhado o sentimento de que a elite política e financeira está fora do raio de ação das pessoas comuns e não se preocupa com elas. O povo quer inverter este “statu quo”, mas ainda não há acordo sobre o que deverá tomar o seu lugar. E assim a investigação acima citada conclui que «o sistema político europeu acabou num imprevisível campo de batalha de alianças constantemente voláteis – entre grupos que se aliam momentaneamente antes de romperem logo depois dessa aliança». O nosso tempo tornou-se volátil e imprevisível.

Em 1919, o poeta irlandês W.B. Yeats escrevia um famoso poema em que evocava uma situação de semelhante dissolução e colapso: «Aos melhores falta toda a convicção, enquanto que os piores/ estão cheios de intensidade apaixonada». Os piores padecem hoje a tentação das motivações populistas, que são apresentadas com «uma intensidade apaixonada». Os políticos são guiados por slogans e tweets. Na Grã-Bretanha, o parlamento parece incapaz de debater o nosso futuro, hipnotizado por slogans sem sentido, como «O “Brexit” é o “Brexit”».



Os protestos dos “coletes amarelos” são o símbolo do sentido de invisibilidade que milhões de pessoas sentem. Elas usam aqueles refletores destinados a dar visibilidade a quem os veste para dizer: «Olhem para nós!»



Perdoai, caros leitores, esta simples evocação da nossa situação inglesa. Não sou um perito de política ou de sociologia, e não tenho espaço para posteriores análises sofisticadas. Então, perguntemo-nos: o que pode oferecer a fé perante esta raiva e incerteza? O cristianismo só será algo de relevante se for capaz de fazer duas coisas. Antes de tudo, devemos demonstrar que compreendemos a frustração e a raiva que tocam um número tão grande de pessoas, de outra forma elas não escutarão nada. Em segundo lugar, devemos desafiar alguns dos pressupostos que estão na base da cultura populista, de outro modo aquilo que dizemos não terá efeito.

Por isso, a primeira coisa é mostrar que estamos próximos das pessoas que se sentem deixadas para trás. Nos seus telemóveis, elas veem imagem de um mundo de bem-estar e privilégios do qual se sentem excluídas. Não têm nem uma voz nem um futuro. Um jesuíta francês, Étienne Grieu, afirma que «um mundo dominado pela competição compromete todos numa incrível tarefa de classificar não as performances, mas também as pessoas. Ao nível mais baixo, há aquelas que não são suficientemente eficientes. Tornam-se assim invisíveis… Elas sentem-se também humilhadas porque mal têm os instrumentos para dizer quem são».

Os protestos dos “coletes amarelos” são o símbolo do sentido de invisibilidade que milhões de pessoas sentem. Elas usam aqueles refletores destinados a dar visibilidade a quem os veste para dizer: «Olhem para nós!». Abri os vossos olhos. Nós estamos aqui. Os jovens que estão na prisão e que se sentem excluídos podem converter-se ao islão radical pela mesma razão. Na minha nova fé eu sou alguém. Muhammad Ali disse um dia: «Eu sou a América. Eu sou a parte que vós não quereis reconhecer. Mas tendes de vos habituar a mim. Um negro muito seguro de si, agressivo. Com o meu nome, não aquele que me destes, a minha religião e não a vossa, os meus objetivos. Tereis de vos habituar a mim».



O cristianismo será atraente para aqueles que se sentem inúteis e invisíveis apenas se ousarmos pedir muito. Se “comercializamos” o cristianismo como um passatempo inócuo que não incomoda muito, quem vai pensar nisso?



Quando o ano passado viajei de avião até à Austrália, foi transmitido um filme que não queria ver. Pensei que perturbaria a minha paz mental a 36 mil pés da Terra: o título era “Eu, Daniel Blake”. É a história de um homem normal que, por causa da doença cai no desemprego e acaba no vórtice da burocracia inglesa, até desaparecer. Antes de morrer de um enfarte, prepara uma declaração para o tribunal do trabalho, que foi lida no seu funeral: «Não sou um cliente nem um utilizador de serviços. Não sou um malandro nem um escroque, um mendigo nem um ladrão. Não sou um número da segurança social, nem uma mancha num ecrã. Pago as minhas dívidas, não fico a dever um cêntimo, e orgulho-me disso. Não me ponho em bicos dos pés mas olho o meu vizinho nos olhos. Não aceito nem procuro esmola. O meu nome é Daniel Blake, sou um homem, não um cão. E por isso exijo os meus direitos. Exijo que tu me trates com respeito». Chorei tanto, que alarmei a hospedeira.

No Evangelho de Lucas, Jesus nasceu em Belém porque o imperador queria contar cada habitante para coletar os impostos. Tratava-se de um exercício de poder que na Bíblia pertence só a Deus. O nascimento do Menino é revelado pelos anjos, que ninguém podia contar – uma multidão, escreve Lucas, aos pastores que não contavam para nada. Na sociedade do tempo estavam às margens e eram desprezados. Assim o Evangelho é antes de tudo oferecido exatamente àqueles que na nossa sociedade se sentem invisíveis e dignos de nada, aqueles para os quais o fundamentalismo ou o populismo se tornam assim atraentes.

Em segundo lugar, nestes tempos incertos e voláteis, as posições populistas são atrativas porque indicam uma causa com a qual é possível a identificação, especialmente se exige um compromisso total. Poder-se-ia tratar de uma causa admirável, por exemplo a Rebelião contra a Extinção, que explodiu na Grã-Bretanha há alguns meses e que mobilizou centenas de milhares de pessoas preocupadas com a ameaça das alterações climáticas. Ou poderia ser uma causa destrutiva, como a do Daesh, que atraiu muitos jovens convertidos ao Islão graças às suas exigências simples e totalizadoras. O cristianismo será atraente para aqueles que se sentem invisíveis se formos capazes de lhes pedir um pouco de heroísmo. O cristianismo será atraente para aqueles que se sentem inúteis e invisíveis apenas se ousarmos pedir muito. Se “comercializamos” o cristianismo como um passatempo inócuo que não incomoda muito, quem vai pensar nisso?



Se queremos envolver as pessoas neste período de incerteza, a Igreja deve dar prova de ver as pessoas invisíveis e ter a coragem de as convidar a seguir Cristo. Não é uma religião que te envolve no bem-bom, o cristianismo. Ele contradiz a cultura do bem-estar e da tranquilidade



Em 2010, Xavier Beauvois realizou o filme “Homens de Deus”. Contava a história da pequena comunidade de monges trapistas de Tibhirine, na Argélia. Nos anos 90 foram atingidos pela violência que atravessou o país. Este filme capturou a imaginação de milhões de pessoas. Vi-o num cinema de Oxford, juntamente com um amigo ateu (ou agnóstico, nos dias bons…). No fim do filme, havia um silêncio total. Ninguém ousava sair da sala para não romper o fascínio. Os monges discutiam se haveriam de ficar na Argélia ou regressar a França para salvar a sua vida. Ficaram, e 1996 sofreram o martírio. Os espetadores estavam fascinados porque viam pessoas comuns, como nós, decidir arriscar tudo! Os monges fizeram uma opção radical. Escolheram a coisa mais fundamental: seguir Jesus.

Se apresentamos a perigosa aventura do cristianismo, algumas pessoas ficarão com medo e fugirão; outras, ao contrário, aproximar-se-ão. Ninguém lançará para o lixo o cristianismo porque é um aborrecimento! Portanto, se queremos envolver as pessoas neste período de incerteza, a Igreja deve dar prova de ver as pessoas invisíveis e ter a coragem de as convidar a seguir Cristo. Não é uma religião que te envolve no bem-bom, o cristianismo. Ele contradiz a cultura do bem-estar e da tranquilidade. Temos também de desafiar os temas desta cultura populista, a sua ideia de identidade e de como uma pessoa se relaciona com pessoas de ideias diferentes. Mas isso… é um outro artigo!


 

Timothy Radcliffe, op
Consultor do Conselho Pontifício Justiça e Paz
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Eu, Daniel Blake"
Publicado em 08.05.2019

 

 
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