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Jesus nunca se riu?

«Leio que Ele chorou, mas não que se tenha rido.» Eis o que escreveu de forma lapidar um autor medieval, sob o nome de Ambrósio, o célebre Padre da Igreja (o Pseudo-Ambrósio), negando o facto de as lágrimas de Jesus poderem esboçar um sorriso. Se nos ativermos rigorosamente à ocorrência do verbo “rir” – “gheláo” em grego –, é forçoso reconhecer que nunca tem Jesus como sujeito.

Em contrapartida, aqueles que se lamentam ou as carpideiras oficiais riem, e chegam mesmo a troçar de Jesus na casa de Jairo (cf. Mateus 9,24), ironizando sobre a sua declaração a propósito da filha do chefe da sinagoga («a menina não está morte, dorme»).

Riem igualmente aqueles que se entregam aos prazeres antes que aconteça a grande reviravolta do destino: «Bem-aventurados vós que chorais agora, porque rireis (…). Ai de vós que rides agora (…), chorareis» (Lucas 6,21.25). A Carta de S. Tiago situar-se-á na mesma linha: «Afligi-vos, lamentai-vos e chorai: que o vosso riso se mude em lamentações, e a vossa alegria em tristeza» (4,9).

Eis, portanto, a situação, se nos ficarmos unicamente pelo verbo “rir”. Mas é preciso fazer duas observações importantes. A primeira diz respeito aos Evangelhos, que não são biografias completas e acabadas da figura histórica de Jesus de Nazaré, mas pontos de vista iluminados pela luz da fé. Que falte algum aspeto da fisionomia humana de Cristo não significa que não estivesse presente na sua existência terrestre.



Se se quiser encontrar uma passagem inteira que mostra Jesus a proclamar a alegria da salvação – não esqueçamos que “Evangelho” significa “nova bela e alegre” –, seria suficiente ler o capítulo 15 de Lucas, com as três parábolas da misericórdia divina



Os banquetes, por exemplo, podem ser um testemunho indireto da alegria experimentada por Jesus, ao ponto de Ele próprio chegar a declarar que é acusado de liberdade excessiva nesse domínio: «O Filho do homem veio: Ele come e bebe, e diz-se: “É um glutão e um bêbado, um amigo dos publicanos e dos pecadores”» (Mateus 11,19). Podemos supor que o riso fazia parte desta experiência de Jesus, dado tratar-se de uma componente fundamental, com as lágrimas, do ser humano. A incarnação supõe a assunção da humanidade da parte do Filho de Deus, na sua integralidade.

Há uma segunda observação a fazer. Como se diz habitualmente na linguagem técnica, pode descobrir-se um horizonte semântico com vários termos que descrevem todas as cambiantes. O riso faz parte do horizonte mais amplo da alegria, cuja significação múltipla exprime-se com termos diferentes, sendo o riso o sinal da alegria. Neste sentido, a pergunta sobre Jesus e o riso pode não ter uma resposta tão categórica como a que referimos ao início.

O Evangelho de Lucas merece, a propósito, uma atenção particular; um exegeta alemão, Helmut Gollwitzer, vai justamente situar o seu comentário sob o título “Die freude Gottes”, “A alegria de Deus” (1952). É suficiente procurar os termos que exprimem a alegria para se dar conta da presença insistente deste tema no terceiro Evangelho.

Que os leitores nos perdoem se listamos os diversos termos gregos. O verbo “cháiro” (alegrar-se) e o substantivo “chará” (alegria, júbilo) ocorrem uma vintena de vezes em Lucas a partir do «alegra-te” dirigido pelo anjo Gabriel a Maria, e que se tornou o nosso «salvé», «avé» (1,28).



Lucas, que abriu o seu Evangelho com o sorriso alegre do nascimento de João Batista e de Jesus, conclui-o com a representação da Igreja que experimenta uma alegria imensa



Depois há a exultação que aparece quatro vezes como verbo “agalliáo” e o substantivo “agallíasis”. É a exultação messiânica com uma vertente espiritual. Quando Jesus pronuncia essa espantosa oração chamada, justamente, «o hino de alegria», que se encontra em 10,21-22 («Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos»), o evangelista anota em introdução: «Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse…».

Lucas é o único autor do Novo Testamento a empregar por três vezes o verbo que descreve a alegria física, “skirtáo” em grego, aplicando-o ao pequeno João que dança de alegria no seio de Isabel quando ela se encontra com Maria (1,41.44), e aos justos perseguidos que se alegrarão e exultarão no dia do Julgamento, porque a sua recompensa será grande nos Céus (6,23).

Se se quiser encontrar uma passagem inteira que mostra Jesus a proclamar a alegria da salvação – não esqueçamos que “Evangelho” significa “nova bela e alegre” –, seria suficiente ler o capítulo 15 de Lucas, com as três parábolas da misericórdia divina: a da ovelha, da dracma e do filho, todos perdidos e reencontrados. O exegeta Bruno Maggioni intitulou este capítulo “Um convite à alegria de Deus em Cristo”.

Dado que não é possível citar todas as passagens, sugerimos aos nossos leitores que peguem num Evangelho e leiam, no capítulo 15 de Lucas, os versículos 5, 6, 7, 9, 10, 23, 24, 25, 29 e 32. Aí se encontra outro verbo grego para exprimir a alegria, “eufráino”. Jesus exalta a alegria calorosa que se apoia sobre os acontecimentos humanos concretos, como o facto de reencontrar um objeto precioso perdido, ou abraçar uma pessoa querida após uma longa ausência.



Concluímos com as palavras que Jesus pronuncia aquando da última noite da sua vida terrestre, no Evangelho de João: «Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa»



Lucas, que abriu o seu Evangelho com o sorriso alegre do nascimento de João Batista e de Jesus, conclui-o com a representação da Igreja que experimenta uma alegria imensa: «E eles, depois de se terem prostrado diante dele, voltaram para Jerusalém com grande alegria. E estavam continuamente no templo a bendizer a Deus» (24,52-53).

Paremos aqui a nossa busca, que poderia alargar-se aos outros Evangelhos (e ainda mais ao Antigo Testamento, onde comparece amplamente o “riso” de Deus). Gostaríamos de concluir com as palavras que Jesus pronuncia aquando da última noite da sua vida terrestre, no Evangelho de João: «Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa» (15,11).

Curiosamente, Lutero descreve assim a Jerusalém celeste, a partir de uma imagem medieval: «Então o homem rejubilar-se-á com o céu, a terra, o sol e as criaturas. Todas as criaturas experimentaram uma felicidade, um amor, uma alegria lírica, e rejubilarão contigo, ó Senhor, e Tu também, Tu rejubilarás com eles».


 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura, biblista
In 150 questions à la foi, ed. Mame
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Cristo "Pantocrator" (det.)
Publicado em 23.01.2020

 

 
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