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Rumo ao amor, dia 28: Maria

Não sei porquê, nos momentos mais duros da minha vida, quando em mim a rebelião era irresistível ao ponto de deixar de rezar, nunca esqueci antes de dormir, e diariamente no fim da missa, de sussurrar: «Ave, Maria…». Tão-pouco me explico poque é que cada pessoa que morre chama a sua mãe.

Sim, sou enamorado desta mulher que procura o último lugar junto a Jesus, desta mulher atenta a dar-se conta das situações de dificuldade e indicá-las ao Filho, como acontece nas bodas de Caná.

Agrada-me não encontrar nela nada de sentimental ou de fadiga. Agrada-me a sua simplicidade e essencialidade que dão calor ao nosso mundo de exterioridade e de efémero. Agrada-me a sua escrupulosa atenção a estar em ordem contra a desordem da pressa e da apatia, do mau humor e da indiscrição, da vaidade e da ninharia.

Quanto me faz companhia esta criatura do silêncio e do escondimento, neste tempo de evasão, de atordoamento e de multidão.

Deus, nela, apontou à beleza e à transparência, próprios de quem é normal e saudável.

Ele abraçou aquele que sempre procurou, e compreendeu que Deus não se aproxima com a soberba e não se detém no orgulho.

É belo o encontro de Maria e Isabel, belo o seu «pôs-se a caminho», esta bela dança de alegria de duas mães, de duas mulheres abençoadas por Deus. Belo o seu louvor, que é um sobressalto de maravilha.



Todos os domingos falo sentado na escadinha junto ao ícone que tem o rosto de Jesus voltado para as pessoas e o rosto de Maria voltado para mim. Esse ícone recorda-me que tenho de comunicar sempre doçura, se quero que aos outros chegue força



Este encontro recorda-me Francisco, um dos primeiros adultos que veio à minha comunidade: após o curso, no dia da aferição, começou a chorar, e só conseguiu sussurrar: «Demasiado belo». Poucas vezes se compreende este “sussultar”, esta finura de espírito, este pranto de alegria.

É verdade que, como diz a psicanálise, muito daquilo que somos depende do nosso passado, daquilo que levamos às costas. Mas isto, muitas vezes, torna-se o único condicionamento. Maria, ao contrário, faz-se condicionar pelo futuro, por aquilo que se tornará. O anjo não chama de imediato Maria, mas diz-lhe: «Alegra-te, cheia de graça», rejubila do que serás. Se tivéssemos olhado mais para aquilo que desejamos tornar-nos e ao que Deus pensa de nós, acreditando que dizemos sim a um dom, e não a um dever, teríamos tido menos medo de abrir a porta e confiar-nos.

Maria, ícone do mundo feminino, acende uma lâmpada no nosso mundo plano, dominado pelo raciocínio mais do que pela intuição, pelo cálculo mais do que pela criatividade, pela prepotência mais do que pela ternura. Uma feminilidade terna e forte, capaz de acolher para fazer viver dentro.

A mensagem de Jesus precisa da presença desta feminilidade, sobretudo nos últimos seus três anos: no nascimento como na morte, no túmulo agora vazio da ressurreição como no cenáculo. Esta feminilidade que é concretude, que está quando deve estar.

Maria, a mulher do sol com a lua debaixo dos pés. O masculino e o feminino, tão fortemente abraçados, tornaram-na reservada sem a fazer invejosa, humilde sem ser servil, paciente sem se tornar insensível, constante mas nunca obstinada, alegre sem superficialidade.

Todos os domingos falo sentado no degrau junto ao ícone que tem o rosto de Jesus voltado para as pessoas e o rosto de Maria voltado para mim. Esse ícone recorda-me que tenho de comunicar sempre doçura, se quero que aos outros chegue força.


Imagem "Maria e Jesus Menino"

 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Maria e Jesus Menino" (det.)
Publicado em 24.03.2020

 

 
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