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“Senhor, Rei do Universo”: Uma obra moderna na transfiguração de Cristo

A verdadeira arte não se explica, mas no momento novo que vivemos, onde o recolhimento e afastamento social decretados estão presentes, as ruas e praças das nossas cidades desertas, as igrejas fechadas com celebrações sem ecclesia, recolocam-nos questões base, de vida, e, vazio, onde se impõe o “dever de transmitir, (…) aquilo que recebemos dos outros”, como o cardeal D. José Tolentino escreveu recentemente (1). Assim talvez possamos reabrir caminhos esquecidos.

 “Senhor, Rei do Universo” é o nome escolhido pelo arquitecto Luiz Cunha, para uma tapeçaria realizada em 1976, uma simbólica «trama tecida» pela justaposição de tecidos de lã. “Senhor, Rei do Universo” é um versículo do salmo 47 de alcance universal, onde é cantado a fé num Deus libertador que “está acima de todas as coisas”. O autor constrói nesta obra de arte moderna, uma ponte entre os dois Testamentos, onde Jesus Cristo é o centro, um centro que se descentra.

Esta tapeçaria é um trabalho da criatividade do artista e técnica do artífice em sincronia, construída em casa, onde Luiz Cunha com a sua esposa, Maria de Jesus, nos momentos de pausa do trabalho diário, em recolhimento, construíram a comemoração do seu décimo aniversário de casamento. As suas dimensões e proporções pautam-se pelo modulor, sistema baseado nas dimensões do corpo humano elaborado pelo arquitecto Le Corbusier. 



Imagem Tapeçaria “Senhor, Rei do Universo” (det.) | Luiz Cunha | 1976 | D.R.


Esta é uma obra com um desenho moderno, de geometria linear e precisa, com a mesma génese usada pelos antigos mestres, como Francisco de Holanda escreveu em 1548: “a boa pintura com claro se deve começar sobre o escuro” (2). A composição revela-nos um centro claro, uma cruz silenciosa e uma mão iluminada, num movimento disseminado e centrípeto. O centro da composição desdobra-se: inicia pela Luz, num círculo amarelo, aberto, para uma cruz branca, tripartida, onde se sobrepõe a imagem de Jesus crucificado, coroado por um quadrado vermelho. Existe uma confluência no movimento ascendente descendente definido por uma composição triangular que aponta para o homem, na “linha de terra”, e emana desta para a mão de Deus, aberta.

Jesus Cristo crucificado, descentrado, apresenta-se despojado, vazio, transparente sobre todas as outras imagens, com os pés sobre a terra mas elevado. Curiosa e cheia de sentido, Luiz Cunha desenhou a figura central da história desta tapeçaria, da Igreja e da humanidade, por uma linha contínua definidora do seu limite, uma linha que não se sobrepõe mas «corta» a cor existente, ao contrário da técnica usada nas outras figuras, onde o limite é o recorte do conteúdo.

Deus revela-se através da Luz e da sua mão, não pela sua configuração, mas no desenho das suas sombras, própria e projectada no fundo branco, sinal de pureza divina, que se confunde e se une, com a própria mão. Jesus está em transparência, a mão de Deus vê-se pela sombra e o homem apresenta-se como uma figura una, composta por três homens.

O Espírito Santo corporiza-se como uma ave branca que voa, num movimento descendente para a direita em direção ao homem, traduz o movimento existente na obra. O Espírito Santo está do lado esquerdo da tapeçaria sob a única nuvem branca, sobre o reino vegetal e o sol nascente. Do lado direito está a descarga de um raio por uma “pesada nuvem”, sobre o reino mineral e o sol poente. O homem encontra-se assim entre o Éden e o Indizível (origem grega da palavra átomo), no tempo presente entre o nascer e o por do sol, sob a Luz e a mão de Deus.

A presença do "atómium", uma construção fruto de uma exposição mundial (Bruxelas 1958) integra a tapeçaria e o homem na história, factores sempre muito sensíveis ao autor. A assinatura de uma obra de arte sempre revelou o maior cuidado e carinho de cada artista, esta não foi diferente. Foi desenhada no verso de forma muito própria. 



Imagem Assinatura da tapeçaria “Senhor, Rei do Universo” | Maria de Jesus e Luiz Cunha | 10.09.1976 | D.R.


Esta tapeçaria é um ícone moderno. Um ícone numa dimensão cósmica, humana e divina que nos revela a história da Santíssima Trindade, onde podemos reler as histórias das nossas vidas. Uma obra aberta a múltiplas e novas leituras, onde a sua beleza nos surpreende e cala, assim nos deixemos “cativar”, como Saint Exupéry trouxe pelo "Principezinho". O Sagrado representado é uma comunicação direta da alma do autor, em forma de oração.

Pablo Casals disse sobre as suítes de Bach: “cada nota tem um significado, um significado profundo”(3), transcrevo-o para cada linha, cada pequena forma, acrescentando a pluralidade para cada um de nós, cada vez que nos deixamos pelo silêncio reverberar, no interior desta obra-prima.



Imagem “Senhor, Rei do Universo” | Tapeçaria por tecidos de lã | 183x226 cm | Luiz Cunha | 1976 | D.R.



(1) Cardeal D. José Tolentino Mendonça, “O dever de transmitir”, "Que coisa são as nuvens", Expresso, 3.11.2018).
(2) Francisco de Holanda, (1548) “Da pintura antiga”, Livro primeiro, Capítulo primeiro, “Como Deus foi Pintor”, Livros Horizonte, Lisboa, 1984, p. 19.
(3) Pablo Casals (1955), entrevista por Madeline Foley (Youtube).



 

Texto e fotografias: Paulo Miranda
Arquiteto
Imagem de topo: Tapeçaria “Senhor, Rei do Universo” (det.) | Luiz Cunha | 1976 | D.R.
Publicado em 11.05.2020

 

 
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