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Quaresma-quarentena: A arte de permanecer na cela segundo os Padres do Deserto

Um homem interpelou um ancião de Tebas:
“Diz-me como posso salvar-me”.
O ancião respondeu-lhe:
“Faz estas três coisas: permanece na tua cela e guarda silêncio; lembra-te dos teus pecados e não julgues ninguém; não aceites presentes de ninguém e alimenta-te com o trabalho das tuas mãos”. (Bu II,106). 

Conta-se que o pai Isidoro, o presbítero, foi uma vez convidado para jantar. O ancião rejeitou o pedido, recusando abandonar sua cela, dizendo:
“Adão, enganado pela comida, foi obrigado a abandonar o paraíso”. (Guy IV, 23; SC 387, 195).

O pai Antão disse:
“Senta-se na tua cela, concentra a tua mente, medita no dia da tua morte e vê qual será então a ruína do teu corpo, tem presente a aflição e lamentos, despreza a vaidade do mundo, está atento ao equilíbrio do teu esforço para que possas permanecer sempre na mesma disposição do recolhimento, sem desfalecer”. (Guy III,2; SC 387, 148).

Um irmão interrogou o pai Isaías, dizendo:
“Como recolher-se na cela?”
O ancião respondeu:
“Recolher-se na cela é recolher-se em si mesmo na presença de Deus e esforçar-se por se opor a todo o pensamento semeado pelo inimigo: nisto consiste fugir do mundo”.
E quando o irmão lhe perguntou:
“O que é o mundo?”
O ancião respondeu:
“O mundo é as amarras dos negócios; o mundo é fazer o que é conta a natureza e apenas fazer as próprias vontades segundo a carne; o mundo é pensarmos que esta é a nossa morada; o mundo é preocupar-se mais com o corpo do que com a alma e gloriar-se naquilo que devemos abandonar. Digo isto não por mim mesmo, mas é o apóstolo João que o diz: Não ameis o mundo e quem está no mundo (1Jo 2,15)”. (Guy II,15; SC 387, 134).  

Um irmão veio visitar o pai Moisés para lhe pedir uma palavra. O ancião disse-lhe:
“Vai, permanece na tua cela e a tua cela te ensinará tudo o que precisas”. (Guy II,19; SC 387, 134).

O pai Macário, o Grande, dizia aos seus irmãos de Cétia, ao despedir a assembleia:
“Fugi, irmãos!”
Um dos irmãos perguntou:
“Para onde vamos fugir, se estamos no deserto?”
Ele punha então o dedo na boca e dizia:
“Fugi disto!”.
De seguida, entrava na sua cela, fechava a porta e sentava-se. (Guy IV, 30; SC 387, 202).

Um irmão interpelou o pai Poemen, dizendo:
“Que devo fazer, pois falho muito no meu modo de viver na cela”.
O ancião disse-lhe:
“Não desprezes ninguém, não julgues ninguém, não diga mal de ninguém; e Deus te dará a paz para morares serenamente na tua cela”. (Guy IX,11; SC 387,434).

Um irmão foi visitar o pai Silvano, no monte Sinai e, vendo que os seus monges estavam a trabalhar, disse ao ancião:
Não trabalheis por um alimento que perece, Maria escolheu a melhor parte (Jo 6,27; Lc 10,42)”.
O pai Silvano disse ao seu discípulo Zacarias:
“Dá um livro a este irmão e fecha-o numa cela sem mais nada”.
Chegada a hora da refeição o dito monge esperou que alguém o viesse chamar para comer, mas vendo que tal não sucedia, perguntou a Silvano:
“Pai, os teus irmãos não comem?”.
Perante a resposta afirmativa de Silvano, perguntou então porquê não o tinham chamado, e o ancião respondeu:
“Porque tu és um homem espiritual e não necessitas deste alimento, mas nós que somos carnais queremos comer e por isso trabalhamos. Em contrapartida, tu escolheste a melhor parte, lês todo o dia e não queres comer o alimento material”.
Perante tais palavras o monge prostrou-se por terra pedindo perdão. Silvano disse-lhe então:
“Também Maria necessita absolutamente de Marta; e é por mérito de Marta que também Maria é louvada”. (Guy X, 99; SC 474, 78).

Um irmão perguntou a um ancião:
“Por vezes sou tentado a ir passear, sob o pretexto de ir visitar os anciãos. Que devo fazer?”
O ancião respondeu-lhe:
“Se vês que és tentado a sair da cela porque não te sentes bem dentro dela, procura tornar tua cela acolhedora, para não desejares sair dela. Mas se for para bem da tua alma, discerne bem e sai. Ouvi falar de um ancião que, sempre que os seus pensamentos lhe diziam par ir visitar alguém, pegava na sua bolsa e saía a dar uma volta à sua cela; depois reentrava e concedia-se o melhor conforto reservado ao hóspede. E assim conseguia o repouso”. (Guy X, 171; SC 474, 124).

O pai João Colobos dizia ao seu discípulo, a prepósito da palavra do Senhor que diz: estava na prisão e fostes visitar-me (Mt 25,36): “A ‘prisão’ é permanecer na cela e ter Deus sempre presente com vigilância” (Guy XI, 43; SC 474, 156).

O pai Isaac disse:
“Não rejeites ninguém, nem injuries alguém, mesmo os que vivem em pecado. Estende o teu manto sobre os que caem e cobre-os. E se não podes carregar os seus pecados nem receber o castigo em sua vez, sofre por eles e não os envergonhes… Sabe, irmão, que se devemos permanecer detrás da porta da nossa cela, é para ignorar as más ações dos homens e, desta forma, vendo-os a todos como santos e bons, alcançaremos a pureza de espírito”. (Isaac de Nínive, Discursos ascéticos, 58; Tourraille, 316).

Um irmão interrogou um ancião nestes termos:
“Há dois irmãos: um vive recolhido na sua cela, jejuando durante seis dias e fazendo muitas penitências; o outro cuida de um doente. Qual deles agrada mais a Deus?”.
O ancião respondeu:
“O irmão que jejua seis dias por semana, ainda que se dependurasse pelas narinas, nunca igualaria aquele que serve o enfermo”. (Guy XVII, 22; SC 498, 25).


 

Tradução e seleção: Isidro P. Lamelas
Imagem: D.R.
Publicado em 16.03.2020

 

 
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