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Rumo ao amor, dia 3: A atenção

Nós, emigrantes da vida, quantas desatenções, quanto tempo perdido! Corre-se e busca-se com tensão, mas sem atenção. Há aqueles que não têm vontade de escutar, aqueles que dizem que não precisam disso, aqueles que escutam, mas compreendem à sua maneira, aqueles que não escutam porque são rebeldes, ou porque são indiferentes.

Faz dez anos que piso o tijolo da igreja de Romena. Cheguei desatento, só vi que dentro dela havia coisas a mais, tinha de tirar para dar essencialidade e beleza àquelas pedras. Removi, desloquei e coloquei as coisas no lugar que sentia onde deviam estar.

Desde então passaram anos de trabalhos, de organização, de corridas, de procura de ideias e de mestres para perceber, fora de Romena, onde levar Romena. Fiz e desfiz, cruzei meio mundo para encontrar ideias e soluções. Andei a correr durante anos.

Depois, numa manhã, cedo, com o Sol do oriente filtrado pelas pequenas fendas da igreja, assentei a atenção não àquilo que procurava, mas a onde estava. Tudo aquilo que tinha procurado em tantos anos já estava escrito ali, bastava estar atento.

Que surpresa dar-me conta de que, como todas as igrejas românicas, Romena devia permanecer um simples ponto de paragem para a peregrinação da vida, e se aquela igreja tinha sido construída em “tempore famis”, em tempo de carestia e de crise, era precisamente sobre cada crise do ser humano que eu devia fundar a mudança.



A desatenção é, verdadeiramente, o maior pecado do nosso tempo. Há pessoas que, se não estivermos atentos, não compreendermos o quanto são grandes, há problemas da vida em torno dos quais giramos sem fim sem nunca encontrar uma solução por causa da nossa desatenção



Além disso, aquelas pedras tão próximas diziam-me que este pequeno espaço devia tornar-se o sinal de um abraço, como de um pai para um filho, e oferecer simplesmente a quem passava por aqui duas ou três chaves para interpretar melhor a sua vida.

Naquela manhã, a igreja estava tão bela, que percebi o significado pleno do belo, aquela beleza feita de harmonia e de medidas certas, com as sete colunas da origem, as sete janelas e as catorze fileiras de pedra da abside. Compreendi que o dom que podíamos dar a cada pessoa que nos vinha encontrar ou que passava por aqui era poder ajudá-la a encontrar um mínimo de harmonia e equilíbrio.

Já tudo estava escrito e tudo me indicava a estrada que tinha de percorrer. Quem não tem cabeça tem pernas, ou melhor, quem não tem atenção tem pernas.

«Porque é que fazes assim, coração meu?», pergunto-me tantas vezes. Não te chegam os sinais que te rodeiam? Poderia Deus acrescentar perfeição à perfeição, beleza à beleza?

A desatenção é, verdadeiramente, o maior pecado do nosso tempo. Há pessoas que, se não estivermos atentos, não compreendermos o quanto são grandes, há problemas da vida em torno dos quais giramos sem fim sem nunca encontrar uma solução por causa da nossa desatenção.

A vida é feita de rebentos. A vida não é uma construção sólida, completa, precisa e definitiva, mas um rebento a que não te podes agarrar para encontrar segurança e derrotar o medo.

Cada sinal de vida deve ser protegido e cultivado, recordando-te de que ele está lá para ti e é já um fruto potencial que precisa de muita atenção.

Uma atenção que te ajude a não cair na indiferença ou na tibieza. Porque a indiferença e a tibieza esvaziam progressivamente a respiração do eterno que está em ti. E transformam a tua vida numa espiral sem sentido de ritos e de hábitos.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: liyavihola/Bigstock.com
Publicado em 27.02.2020

 

 
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