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A carne de Deus

Para o ateu, em termos absolutos, o sentido como algo de perene ou eterno é impossível, pois todo o sentido presente em ato algures ou num qualquer momento terminará, mais cedo ou mais tarde – assumindo sempre forma efémera e, em absoluto, sem possibilidade  –, num nada de sentido, assim tudo anulando. Neste ambiente de inteligibilidade e de inteligência, vive-se, variegadamente,  apenas um insubstante, efémero, sonho, tanto mais próximo do desespero quanto mais inteligente for o sonhador e melhor intuir o anunciado destino.

Para o agnóstico, nada interessa como sentido, sob pena de não poder ser propriamente agnóstico. O triunfo do sentido ou do absoluto sem-sentido é necessariamente fruto da aleatoriedade do movimento do mundo. O agnóstico talvez devesse, logicamente, ser ateu.

Para os crentes, vários, várias formas de possível perene sentido existem, todas elas apostando no triunfo de uma esperança, também ela variegada, que intui um ato final, ainda que difícil, doloroso ou longínquo, de culminar lógico da vida, eventualmente das vidas. A tal culminar pode corresponder o que se entende comummente por salvação ou algo diferente, como o que se pode procurar dizer com a figura de um descanso eterno, também variegado em suas concretizações.



O bebé Jesus é tão divino como a Maria que permite ser tocada pelo Espírito, que a re-diviniza, a recria de filha de Deus em Mãe de Deus; tão humano quanto o Deus que, precisamente, assim se humaniza



Para o cristão, o sentido, em forma simbólica de «alfa» e «ómega», é o próprio Deus, ato de eterna comunhão de amor, relação infinita de puro dom de bem. É Deus a origem lata de todo o bem, logo, estritamente, de cada ser humano. É Deus o único ponto culminante possível para tudo, logo, para o ser humano, para todos, sem exceção. Para o cristão, o cume da sua vida é Deus. Nada menos e nada mais.

Deus que é incoativamente infinidade de dons, infinidade de caminhos possíveis, e apenas uma perene extrema exigência: que a criatura, algures em seu ato, ame o criador.

Este amar o criador, no entanto, não é ato feito de um amor qualquer, mas corresponde, tem de corresponder, segundo a dimensão da criatura, ao que é o ato de amor do criador: o amor da criatura tem de ser do mesmo modo que o ato do criador. Sem tal, ainda que se mantenha a única possibilidade de culminar a relação, o encontro não é possível. Com tal ato de semelhante amor, não só o encontro é possível, como é necessário e imediato.

Ao amar como Deus ama a criatura, esta, por tal ato e em tal ato, metamorfoseia-se em algo de semelhante, em ato, ao criador: diviniza-se. Cumpre o seu sentido possível, próprio de criatura humana e próprio seu de pessoa humana única, tão única como Deus. Mais nada o pode cumprir por si, nem o criador, que já nela pôs incoativamente tudo o que necessitava para poder operar tal ato.



Limites? No bebé Jesus, não há limites entre Deus e Homem. Não é síntese. Não é acreção, soma, conjunto. É Ato. O ato em que Deus e a matéria são um só



Por tal ato, participando como pura criatura, do ato de Deus passivamente, através do que em si Deus pôs precisamente ao criá-la, passa a participar ativamente de Deus, na dimensão do ato de amor que a Deus dedica.

Esta é a eternidade de que o ser humano é capaz.

Como se mostra claramente no mito de Job, o correto amor da criatura para com o criador é algo de raríssimo: até Job ter amado bem a Deus, nunca alguém o fizera. Como amante de Deus, Job foi e é paradigma; todavia, Job foi e é ignorado como paradigma de amor, como paradigma de variada e complexa grandeza humana.

O amor de Deus não é escasso ou caprichoso – não seria de Deus e não haveria Deus, necessariamente (é o retrato comum do mundo, mesmo do que se afirma crente), sendo o ateísmo a forma natural da inteligência relacional humana –, não se furta, é infinito, oferece-se a todos, insiste infatigavelmente na oferta, todavia, não é violento. Ninguém é obrigado a amar a Deus. Todos podem não amar a Deus; o mesmo é dizer que todos podem amar a Deus.

No entanto, ainda que perante uma universal recusa de relação ou indiferença, há uma forma divina não-violenta de manifestar a possibilidade de sentido (necessariamente divino, ou, na alternativa, entropicamente aniquilado) para a humanidade: tornar-se o próprio Deus da dimensão própria da criação.



Que maravilha é esta realidade do Natal, que nos permite ver o avesso das coisas, quiçá, o seu exato direito



Para tal, não é necessário criar coisa alguma, pois tudo o que é necessário já foi criado. Basta nascer, em sentido pleno, como humano. Basta que isso que é puro espírito se faça espírito na forma da humana carne, única que os seres humanos realmente conhecem e conhecem como sua única realidade: o que eu conheço de mim, isso é a minha carne. Só conheço a minha carne; nunca a dos outros.

O bebé Jesus é, assim, o ato incarnado de Deus, Deus-em-carne. Forma eterna que ganhou realidade material através da materialidade do corpo de uma mulher, Maria, dadora da matéria a uma forma impassível de realidade segundo o mundo criado, sem que alguém humano lhe desse tal possibilidade de matéria. Sem o dom de Maria, a matéria do bebé Jesus teria de ser especialmente criada, o que faria dele uma criatura.

Não há criaturas-Deus ou Deus-criaturas; todavia, Jesus é Deus segundo a natureza criada, na natureza criada, sem a esta se reduzir, o que é radicalmente diferente. O eterno e indeterminável algoritmo divino funde-se com o algoritmo determinado da matéria e eis Deus no mundo e como parte do mundo, sem com ele se confundir.

Deus não violenta Maria como não violenta a natureza. Cria-os, ama-os, une-se-lhes através do ato do espírito. Amor que se adensa em matéria. Amor que faz do «logos» algo de denso e móvel, todavia, sempre penetrável pelo espírito, tanto mais quanto mais subtil este é. Espírito que não violenta. Eis a mais elevada grandeza de Deus, o que contempla sem prender.

O bebé Jesus é tão humano quanto Maria, tão divino quanto Deus.



No teu corpo, Maria, contemple-se o absoluto da possibilidade de Deus ser santa matéria. «Mater» da matéria de Deus. Esposa da divina forma. Ventre do Corpo de Jesus



No entanto, o bebé Jesus é tão divino como a Maria que permite ser tocada pelo Espírito, que a re-diviniza, a recria de filha de Deus em Mãe de Deus; tão humano quanto o Deus que, precisamente, assim se humaniza.

Limites? No bebé Jesus, não há limites entre Deus e Homem. Não é síntese. Não é acreção, soma, conjunto. É Ato. O ato em que Deus e a matéria são um só.

Ora, do alto da eternidade, não é de Deus e possibilidade em Deus a matéria? No bebé Jesus, pela primeira vez, sabe Deus o que é sentir-se como matéria. Deixa de ter apenas o saber do ato formal da matéria como absoluto metafísico de possibilidade e passa a «saber o sabor» da matéria.

Não pode, deste modo, deixar de ser Deus o mais entusiasta materialista.

Que maravilha é esta realidade do Natal, que nos permite ver o avesso das coisas, quiçá, o seu exato direito.

No teu corpo, Maria, contemple-se o absoluto da possibilidade de Deus ser santa matéria. «Mater» da matéria de Deus. Esposa da divina forma. Ventre do Corpo de Jesus.



Imagem Ilda David | D.R.

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Ilda David (det.)
Publicado em 23.12.2021

 

 
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