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A Ceia e a Paixão na Bíblia e na arte, em crentes e buscadores, entre diferenças e convergências

O rosto do Ressuscitado é, antes de mais, o rosto do Cordeiro imolado, que encontramos no duro caminho da dor e que a Páscoa nos mostra imolado por nós. Detenhamo-nos agora – para fazer uma reflexão que combinará história, teologia e espiritualidade – diante do Cristo crucificado, sinal mais forte da encarnação, como cantava o padre Turoldo num dos seus mais conhecidos Cânticos Últimos (1991): «Não, acreditar na Páscoa não é / autêntica fé: / estás demasiado belo na Páscoa! / Fé verdadeira é na Sexta-Feira Santa / quando Tu não estavas / lá em cima! / Quando um eco / responde / ao seu forte grito / e a custo o Nada / dá forma / à tua ausência.» Paulo escrevia com veemência aos Coríntios: «Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos andam em busca da sabedoria, nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios» (1Cor 1,22-23). Escolheremos, para esta breve análise, uma cena joanina, que tem no centro Cristo morto (19,31-37).

As «demolições» levadas a cabo por Rudolf Bultmann, em relação ao quarto Evangelho, tinham reduzido essa obra a um testemunho genial de reflexões teológicas, excluindo qualquer confirmação de acontecimentos históricos (a que, aliás, o autor não teria assistido, sendo – para o teólogo alemão – um autor cristão tardio). Agora, pelo contrário, aborda-se com mais atenção as páginas joaninas, na convicção de que elas contêm dados originais e fundadores, embora diferentes e autónomos em relação aos fornecidos pelos Sinópticos. Curioso e significativo é precisamente, na cronologia do relato da Paixão, o caso da Última Ceia: verifica-se aqui, entre João e os três Sinópticos, uma divergência claríssima. É certo que todos eles colocam o acontecimento na noite de quinta-feira, ao passo que a morte de Jesus teria ocorrido na sexta-feira, antes do pôr do sol. Mas a datação exterior é completamente diferente. Para os Sinópticos, a Última Ceia daquela quinta-feira foi um banquete pascal; Jesus morreu então no dia seguinte, num dia de Páscoa (15 de Nisan) que, naquele ano, calhara na sexta-feira. Para João, porém, a Última Ceia não foi um banquete pascal, mas uma refeição de despedida (aliás, nesse ano, aquele dia era «a preparação para a Páscoa» (19,4), ou seja, a véspera, o dia 14 de Nissan: a Páscoa calhava no dia seguinte, que era dia de sábado.



Tal como acontece com os milagres, João não se contenta em indicar o acontecimento: quer descobrir o seu sentido transcendente e o seu valor simbólico (não é por acaso que ele chama «sinais» aos milagres). Através de uma solene confirmação do facto («Quem o viu é que dá testemunho verdadeiro, e ele sabe que diz a verdade»), parte em busca do seu significado teológico



Não faltaram tentativas para fazer coincidir as duas cronologias. A mais conhecida foi a de uma estudiosa francesa, Annie Jaubert, em 1957. Ela baseou-se na existência de dois calendários, o lunar oficial e o solar sacerdotal, também seguido em Qumran, que fixava as festas principais em dias obrigatórios (a Páscoa era sempre à quarta-feira). Os Sinópticos, portanto, teriam reconstruído os acontecimentos segundo esse calendário, caro à cristandade primitiva: Jesus teria celebrado o banquete pascal na terça-feira à noite; depois fora preso na noite de terça para quarta-feira (festa da Páscoa), processado na quinta-feira e condenado à morte na sexta-feira, que, segundo o calendário lunar oficial em que João se baseia, pelo contrário, era, precisamente, a véspera ou a preparação do dia de Páscoa (15 de Nisan), que nesse ano calhara num sábado.

Esta laboriosa e também sugestiva solução suscitou muitas críticas, de tal modo que, hoje, alguns preferem optar pela cronologia sinóptica, conservando para a Última Ceia a qualidade de banquete pascal judaico (como faz Joaquim Jeremias), ao passo que outros escolhem, como mais histórica, a de João, atribuindo assim um elevado valor à Última Ceia (assim faz, por exemplo, John P. Meier, que, entre outras coisas, atribui à morte de Cristo a data de sexta-feira, 7 de abril de 30, depois de uma análise muito aprofundada e complexa). Mas, ponhamos de parte, por agora, esta intrigante questão histórico-cronológica e, como o evangelista, fixemos o olhar em Cristo crucificado.



«Na Hora decisiva, sobre o trono da cruz, a morte de Cristo revela a sua misteriosa fecundidade. A água e o sangue são o Espírito que dará vida à humanidade morta e pecadora. É por isso que João insiste com força no seu “testemunho verdadeiro”, ou seja, no sentido profundo e misterioso deste acontecimento, à primeira vista secundário»



Aos condenados a este tipo de suplício, os soldados romanos aplicavam com frequência um rápido sistema de eutanásia: partindo os membros inferiores, acelerava-se a asfixia e o fim do desgraçado. A Jesus, que já expirara, tal ato foi evitado, mas mesmo assim investem contra Ele, com uma espécie de brutal verificação do óbito: os soldados trespassaram-lhe o lado com uma lança. «De repente, saiu sangue e água», refere João, talvez do pericárdio ou, segundo a antiga fisiologia oriental, pelo simples facto de que se considerava que o organismo era formado apenas por sangue, água e ossos. Neste ponto, temos ainda um dado histórico, desconhecido dos Sinópticos, e que não temos razões para contestar, quanto à sua autenticidade.

Todavia, tal como acontece com os milagres, João não se contenta em indicar o acontecimento: quer descobrir o seu sentido transcendente e o seu valor simbólico (não é por acaso que ele chama «sinais» aos milagres). Através de uma solene confirmação do facto («Quem o viu é que dá testemunho verdadeiro, e ele sabe que diz a verdade»), parte em busca do seu significado teológico, e fá-lo recorrendo a um projeto divino superior, que está presente na revelação bíblica. Refere-se, assim, a duas citações do Antigo Testamento. A primeira é uma referência óbvia ao cordeiro, cujos ossos, na ceia de Páscoa, deviam permanecer intactos: «Não lhe quebrareis nenhum osso» (Ex 12,46). Jesus, morto na véspera da Páscoa – segundo a cronologia joanina que acabámos de descrever –, é o perfeito cordeiro pascal da plena libertação. Recorde-se que João refere, precisamente, que o Batista apresentara Cristo da seguinte forma: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (1,29).



«A negra barba pende sobre o peito. / O rosto não é o rosto das pagelas. / É áspero e judeu. Não o vejo / e seguirei procurando-o até ao dia / último dos meus passos pela terra»



A segunda citação, destinada ainda a ilustrar o significado profundo do facto atrás descrito, concentra-se, pelo contrário, no lado trespassado, e é extraída do profeta Zacarias: «Contemplarão aquele a quem trespassaram» (12,10). Também é importante o contexto da citação profética, onde se fala de Israel que se converte contemplando um homem sacrificado pelos outros e onde, mais adiante, se descreve uma nascente de água que brota do templo de Sião e se irradia para o Mar Morto e para o Mediterrâneo: «Naquele dia, de Jerusalém jorrarão águas vivas, metade das quais correrá para o Mar Oriental e metade para o Mar Ocidental: correrão durante o verão e durante o inverno» (14,8). O evangelista intui, então, na água cantada pelo profeta, um reflexo daquela que agora jorra do lado de Cristo, novo templo divino (ver também Ez 47,1-12).

O simples facto histórico adquire, assim, uma grandeza gloriosa e salvífica, também na esteira de uma referência às palavras pronunciadas por Jesus no último dia da festa das Tendas, sempre segundo João: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Do seio da quele que crê em mim, como diz a Escritura, brotarão rios de água viva», referindo-se ao lado de Cristo. O comentário do evangelista, com efeito, dizia assim: «Ora Ele disse isto, referindo-se ao Espírito que iam receber os que nele acreditassem; com efeito, ainda não tinham o Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado» (7,37-39). E, como é sabido, para João, a glorificação pascal começa já na cruz.



É paradoxal, mas aquela crucifixão negada pelo Alcorão (talvez por influência gnóstica: como já foi dito, Cristo é milagrosamente substituído na cruz, por Simão de Cirene, por Judas ou por um judeu, segundo as diversas variantes) tornou-se um símbolo para muitos árabes, e para as suas lutas de libertação



Observa um estudioso do quarto Evangelho, Ignace de la Potterie: «Na Hora decisiva, sobre o trono da cruz, a morte de Cristo revela a sua misteriosa fecundidade. A água e o sangue são o Espírito que dará vida à humanidade morta e pecadora. É por isso que João insiste com força no seu “testemunho verdadeiro”, ou seja, no sentido profundo e misterioso deste acontecimento, à primeira vista secundário.» Por outras palavras, o Cristo crucificado deve conservar toda a sua força teológica e simbólica, para lá do facto histórico de uma execução capital ordenada pelo poder romano, com a colaboração de determinado setor do povo hebraico de então.

Detemo-nos aqui, frente a esta original representação de Cristo na cruz, desenhada pelo quarto evangelista. Sobre esta imagem foram construídas infinitas representações iconográficas na história da arte: bastaria pensar na Crucifixão de Matthias Grünewald do museu de Colmar, na Alsácia, «obra-prima destinada a sublimar a angústia infinita da alma» (Joris K. Huysmans) e ao Cristo amarelo de Gauguin, às provocatórias Crucifixões de Guttuso e de Sutherland, ao Cristo de São João da Cruz de Salvador Dalí... Cada um de nós tem em mente uma sua imagem de Cristo crucificado, quer pertençamos aos que acreditam nele, quer nos encontremos entre aqueles que andam em busca do mistério.

Entre estes últimos, encontramos o escritor argentino Jorge L. Borges, que, no seu «Cristo na cruz», confessa: «A negra barba pende sobre o peito. / O rosto não é o rosto das pagelas. / É áspero e judeu. Não o vejo / e seguirei procurando-o até ao dia / último dos meus passos pela terra.» Entre estes últimos há também muitos poetas muçulmanos. É paradoxal, mas aquela crucifixão negada pelo Alcorão (talvez por influência gnóstica: como já foi dito, Cristo é milagrosamente substituído na cruz, por Simão de Cirene, por Judas ou por um judeu, segundo as diversas variantes) tornou-se um símbolo para muitos árabes, e para as suas lutas de libertação. O poeta palestiniano Mahmud Subh canta assim: «A tua cruz, Nazareno, é a agonia de um de uma flauta. / A minha garganta é de espinhos, as minhas mãos, um braseiro. / E, como Tu, eu ainda vivo! / A tua morte é a minha, o teu sangue é o meu... / Segui o caminho da cruz, / conheci o tormento do Profeta [Jesus], / fui traído. Mil Judas gritam: / Crucificai o árabe!»


 

Card. Gianfranco Ravasi
In Quem és Tu, Senhor?, ed. Paulinas
Imagem: "Cristo amarelo" (det.) | Gauguin
Publicado em 31.03.2021

 

 
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