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Rumo ao amor, dia 12: A coragem de escolher

É a noite de Natal de 1976. Aproximo-me de um confessionário e ajoelho-me; conheço bem a voz e o perfil do rosto de quem está do outro lado da grade. Digo-lhe sem preâmbulos: «Quero ser padre…».

Passam dois anos antes do seminário, passaram muitos anos desde então. Estava em Tamanrasset, na Argélia. O céu naquela noite abraçou-me, num instante tive frio e calor, alegria e dor, como as de uma mulher que está a dar à luz. Morrem dentro de mim as ilusões, efeito de todo o verdadeiro deserto. O tuaregue ao meu lado disse-me aquilo que já me tinha acontecido por dentro: «Sente o deserto como choro. Chora porque gostaria de ser um prado». No fundo da alma encontrei aquela nostalgia do outro que me tornava inquieto, a nostalgia daquilo que gostarias de ser e que não és. É assim que de novo voltas a escolher. Dois momentos inexplicáveis e únicos, sem pré-aviso, não programáveis, um golpe de teatro precisamente quando tens menos certezas e tudo é escuro e num instante se abre, clara como nunca, a porta de casa.

Os momentos decisivos da vida não são aqueles em que fizemos alguma coisa, mas aqueles que encontrámos alguma coisa ou alguém, aqueles momentos em que se sente um pedaço de Céu na Terra.

Vem para todos o momento de dizer: «Eis-me». É precisa a felicidade de encontrar guias que não pretendam fazer de intermediários, mas te digam: «Não te chamei eu, vê por ti próprio, arranja-te!». Os verdadeiros mestres são rudes, não te permitem parar neles, mas impelem-te a olhares-te dentro.

Fazem-se duas ou três escolhas de fundo na vida, o resto são fidelidades ou infidelidades a estas.



Muitas vezes tive dúvidas… mas escolhi sempre, na dúvida, ser fiel; e esta frágil fidelidade tornou-se depois aquilo que parecia uma lâmpada, uma clareza, e aquilo que me parecia uma centelha, uma luz



Este nosso medo de nos fazermos ao largo, mete-nos tanto medo quando se vive de comodidades ou quando nos tornámos tão mornos que deixamos esvaziar a vida do Eterno. Sabemos o quanto a nossa natureza não é forte e sem erros, mas frágil e delicada, facilmente condicionada pelos hábitos; mas também sabemos quanto o homem é capaz de tudo, inclusive de aceitar a superação.

«Mestre, onde moras?... Foram e viram onde morava, e ficaram com Ele.» É o onde e o ficar que faz a diferença de uma escolha.

O verdadeiro problema é que há uma porta estreita em cada escolha, e temos de atravessar sozinhos esse umbral, porque estamos sós, e é preciso levarmo-nos a nós mesmos para além, conscientes de que cada verdadeira libertação obtém-se com fortes gritos e lágrimas, além do silêncio.

Esta manhã, trabalhei no jardim: quanto é verdade que é preciso cultiva-lo dia após dia, limpá-lo, arroteá-lo, mas antes de tudo cortar. É como é verdade que é preciso dizer desde logo “não” a nós próprios, porque quando mais se adia a correção dos defeitos, pior é… os erros e os pecados nunca nascem repentinamente, mas têm sempre uma única raiz: a preguiça.



Cada pessoa que alcançou a fidelidade a uma escolha passou da agitação à ação, e fê-lo sempre com olhos atentos, a barriga vazia e aquele temor respeitoso que acompanha cada mudança



Muitas vezes tive dúvidas… mas escolhi sempre, na dúvida, ser fiel; e esta frágil fidelidade tornou-se depois aquilo que parecia uma lâmpada, uma clareza, e aquilo que me parecia uma centelha, uma luz.

Sim, recordo-me sempre do semblante que tinha pela manhã depois de cada escolha feita, um rosto que se iluminava de futuro em relação ao rosto tenebroso da dúvida e daquilo que tenho de fazer.

Escolher é um golpe de teatro, mas é preciso calma para voltar a escolher, é um sentir sem agitação, e é o resultado de força, coragem e confiança.

Cada pessoa que alcançou a fidelidade a uma escolha passou da agitação à ação, e fê-lo sempre com olhos atentos, a barriga vazia e aquele temor respeitoso que acompanha cada mudança.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: 1STunningArt/Bigstock.com
Publicado em 07.03.2020

 

 
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