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Rumo ao amor, dia 17: A criatividade

O dilúvio universal dos nossos anos é o das palavras e das imagens. Uma chuva sem fim e sem regra na qual a liberdade expressiva não encontra espaços, a fantasia é sufocada, a criatividade reprimida, em que o excesso ocupa toda a cena.

Pergunto-me: onde está a arca que nos salvará? Onde encontrar ainda um pouco de espaço para o silêncio? E ainda: há uma arca do silêncio na qual as palavras reencontrem a respiração e as imagens se possam deter, frescas e vitais? Creio que sim. Mas esta arca não navega nos mares do progresso, da internet ou da televisão.

Está no ser humano. Esta em todas aquelas pessoas que espalham o silêncio, esse silêncio que está presente nelas mesmo quando falam. Esse silêncio que cura e regenera. As pessoas que espalham o silêncio são aquelas que buscam e não se resignam. Que sofrem, mas não se desesperam. Que sabem escutar, ver, e não deixam escapar aquilo que não se pode não ouvir e não ver.

Pois bem, é deste silêncio que pode brotar, como fonte de água limpa, a criatividade.

Para mim, a criatividade é um desvelar, ou seja, tirar o véu de um mundo ignoto que pode estar dentro e fora de nós. Para se realizar tem por isso necessidade de um estado de virgindade interior, um estado de vazio que equivale a calma, equilíbrio, silêncio. É com estas condições, e não de outro modo, que do “kaos”, isto é, do zero, do ponto de início, a matéria informe pode ser transformada em cosmo.



Quem cria um objeto de artesanato não está obcecado pela busca da beleza, e esta ausência de pensamentos permite uma execução simplificada, natural, espontânea. Estas obras contêm assim beleza, harmonia, calor. Mas sobretudo silêncio



E é uma passagem que não obedece a uma relação causa-efeito, mas é provocada por aquela atividade da alma na qual interagem liberdade, independência e imprevisibilidade: a criatividade.

No Antigo testamento, Deus, para libertar o seu povo, faz-se criativo subvertendo as leis da criação: «Faz subir a água para o céu, e faz descer o maná sobre a terra». A criatividade inverte os esquemas. Ela exprime, sempre, a necessidade de superar o presente, de ir além, extraindo daquele especial recipiente que é o inconsciente, e utilizando os símbolos como sua linguagem.

A inspiração e a fantasia que se cumprem ajudam, por isso, cada um de nós, a seu modo, a libertar aquela aparente loucura, e permitem-nos um regresso a casa, oferecendo-nos um modo profundo de nos descobrirmos a nós próprios.

Numa sociedade que resolveu, pelo menos na sua parte ocidental, os problemas primário de vida, por vezes consideramos a criatividade como um opcional, como um mais. Pelo contrário, é a capacidade de ir para além dos esquemas, de libertar o inconsciente através de uma linguagem de símbolos.

A criatividade é a base da felicidade, exatamente como o domínio da imaginação o é de toda a frustração. Também por isso agrada-me aquela arte que se identifica no uso. Creio, com efeito, que uma obra artesanal não pode ser separada da sua função.

A beleza particular das obras de artesanato está ligada à sensação de intimidade que elas inspiram, não se deve à sua nobreza, à sua grandeza, mas reside naquilo que é quente e familiar.

Quem cria um objeto de artesanato não está obcecado pela busca da beleza, e esta ausência de pensamentos permite uma execução simplificada, natural, espontânea. Estas obras contêm assim beleza, harmonia, calor. Mas sobretudo silêncio.

Esse silêncio diante do qual é possível, pelo menos por um momento, parar. E escutar.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: bpm82/Bigstock.com
Publicado em 13.03.2020

 

 
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