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A Europa: Uma janela de cultura cristã

O que é a Europa para poder fornecer uma definição sobre a cultura que nasceu neste velho continente? Não só as cartas geográficas que desenham os contornos das nossas costas marítimas. E não apenas os mapas que assinalam as várias fronteiras dos nossos vários países. Mas também os traços da história comparticipada que atravessam os séculos vividos em comum, oferecidos pelo verdadeiro património cultural de um povo que bebe e vive as raízes compartilhadas.

É isto que, motivados pela declaração temática do ano da cultura na Europa [2018], quisemos também debater como comunidade cristã deste velho continente. Com efeito, a Comissão de Evangelização e Cultura, precisamente na sua secção de Cultura dentro do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, quis também oferecer este espaço de encontro para refletir sobre a herança recebida, tendo em consideração o momento que temos entre mãos e o horizonte de futuro que se pode entrever.

Dizia o Papa Francisco durante a sua intervenção na Sala Régia, no Vaticano, quando lhe foi concedido o Prémio Carlos Magno: «No Parlamento Europeu, tomei a liberdade de falar de Europa avó. Dizia aos eurodeputados que crescia, de diferentes partes, a impressão geral duma Europa cansada e envelhecida, não fértil e sem vitalidade, onde os grandes ideais que a inspiraram parecem ter perdido o seu fascínio; uma Europa decadente que parece ter perdido a sua capacidade geradora e criativa; uma Europa tentada mais a querer garantir e dominar espaços do que a gerar processos de inclusão e transformação; uma Europa que se vai “entrincheirando”, em vez de privilegiar ações que promovam novos dinamismos na sociedade; dinamismos capazes de envolver e mobilizar todos os atores sociais (grupos e indivíduos) na busca de novas soluções para os problemas atuais, que frutifiquem em acontecimentos históricos importantes; uma Europa que, longe de proteger espaços, se torne mãe geradora de processos (1). Que te sucedeu, Europa humanista, paladina dos direitos humanos, da democracia e da liberdade? Que te sucedeu, Europa terra de poetas, filósofos, artistas, músicos, escritores? Que te sucedeu, Europa mãe de povos e nações, mãe de grandes homens e mulheres que souberam defender e dar a vida pela dignidade dos seus irmãos?» (2).

Este juízo grave e provocador também investe com força em nós quando nos perguntamos sobre a cultura cristã que ainda permanece nesta Europa. Mas para poder responder a estas perguntas colocadas pelo Papa Francisco é preciso tomar posição, como muitos o fizeram perante os desafios que temos diante de nós.

O então cardeal Ratzinger questionava-se precisamente sobre o futuro cultural da Europa cristã. E citando as teses de Oswald Spengler (“O crepúsculo do Ocidente”), destacava a tese de uma lei natural: há o momento do nascimento, o crescimento gradual, o florescimento de uma cultura, o seu lento declinar, o envelhecimento e a morte. Spengler argumenta a sua tese com grande quantidade de documentação extraída da história das culturas, que demonstra a lei do desenvolvimento natural. Esta tese biologista encontrou opositores ferozes no período entre as duas guerras, especialmente em contexto católico: Arnold Toynbee. Ele reage fortemente, e à visão biologista contrapõe uma visão voluntarista, que aponta para a força das minorias criativas e para as personalidades singulares excecionais (3).

É sempre interessante ver como as reações diante das preocupações por uma Europa em crise são reagrupáveis em torno destas três posições que se confrontam com as atitudes culturais de onde provêm (4):

O restauramento nostálgico: ou seja, a tristeza no andar para trás para conquistar, sem possibilidade, um passado que não voltará. Aqui encontramos todas as tentações tradicionalistas que tentam imaginar a resposta a cada questão no caminhar para o passado.

A passividade medíocre: trata-se da esterilidade provocada por permanecer na censura a cada possibilidade de uma mudança autêntica até ao fundo. Seria a expressão hedonística de uma cultura que já não tem mais motivos para uma busca, para uma pergunta, para um qualquer risco, mas tudo é medido e controlado em função da comodidade e da segurança.

A revolução acrítica: a autodestruição que acompanha sempre o contínuo avançar sem memória da tradição que nos fundamenta, e improvisando, sem critérios amadurecidos, as soluções que nunca chegam. Como dizia o historiador William James Durant, «uma grande civilização não é conquistada pelo exterior enquanto não se destrói a si mesma a partir do interior».

Estamos perante uma sociedade que deixou de ter os fundamentos que permitem construir um edifício capaz de suportar as tempestades culturais, como tantas vezes aconteceu na história da Europa. Neste momento temos uma sociedade vulnerável e frágil, como foi descrita com algum pessimismo por Zigmund Bauman, com o seu conceito em torno do “líquido” como forma de explicação da realidade moral e cultural (5).

Mas esta realidade não provoca em nós um sobressalto de consciência tal, que o arrependimento ou uma sã nostalgia nos permitam pelo menos perguntarmo-nos que coisas esquecemos, ou até traímos, tratando-se antes de uma situação que não nos provoca nem problema nem desagrado. É aquilo que Gilles Lipovetsky definia como uma «ética indolor» (6).

Vale a pena assinalar neste horizonte os três grandes desafios que esperam de nós uma posição clara, na medida em que representam, de alguma forma, uma ameaça à cultura cristã da Europa tal como a conhecemos ao longo dos séculos, com todas as suas gradações:

- Ideologia do género;
- Nova ordem mundial;
- O Islão.

Já S. João Paulo II realçava no início deste terceiro milénio cristão os três tempos verbais com os quais se pode unicamente descrever uma grande história, ou seja, conjugar a idiossincrasia cristã de um povo que tem essas raízes.

Neste sentido, dizia o Papa: «“Duc in altum”! Estas palavras ressoam hoje aos nossos ouvidos, convidando-nos a lembrar com gratidão o passado, a viver com paixão o presente, a abrir-se com confiança ao futuro: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre” (Heb 13, 8). (…) É nossa obrigação, amados irmãos e irmãs, lançarmo-nos para o futuro que nos espera. Nestes meses, olhámos frequentemente para o novo milénio que começa, vivendo o Jubileu não só como lembrança do passado, mas também como profecia do futuro. Agora é preciso guardar o tesouro da graça recebida, traduzindo-a em ardentes propósitos e diretrizes concretas de ação. A esta tarefa, desejo convidar todas as Igrejas locais. Em cada uma delas, reunida à volta do seu Bispo na escuta da Palavra, na união fraterna e na “fração do pão” (cf. At 2,42), “está e opera a Igreja de Cristo una, santa, católica e apostólica”. É principalmente na realidade concreta de cada Igreja que o mistério do único povo de Deus assume aquela configuração particular que o torna aderente aos diversos contextos e culturas. Este enraizamento da Igreja no tempo e no espaço reflete, em última análise, o movimento mesmo da encarnação. É hora, pois, de cada Igreja refletir sobre o que o Espírito disse ao povo de Deus neste especial ano de graça e também no arco mais amplo de tempo desde o Concílio Vaticano II até ao Grande Jubileu, medindo o seu fervor e ganhando novo impulso para os seus compromissos espirituais e pastorais» (7).

Neste andar para a frente com a velha barca da Igreja de Jesus, emergem as nossas Igrejas locais com a sua história vivida, que geraram também preciosos elementos culturais que derivam do acontecimento cristão. Efetivamente, as nossas conferências episcopais disseminadas ao longo da Europa também escreveram belíssimas páginas culturais quando evangelizaram cada geração através destes dois mil anos.

Vivemos o impulso missionário que os primeiros discípulos receberam como compromisso do envio, na despedida do seu mestre Jesus, na aproximação do santo Evangelho aos nossos povos, propusemos a escuta da Palavra que não passa nem nunca engana, curámos à maneira do samaritano muitos irmãos e irmãs feridas em multiformes caminhos da vida, distribuímos com as nossas pequenas mãos a Graça sem medida que Deus depôs nelas como alimento sacramental de vida. Eis o rasto cristão que atravessa um tempo de dois mil anos num espaço que coincide com a nossa Europa.

É importante saber narrar esta história, sobretudo quando com vários interesses e poderosos instrumentos se procura silenciá-la, censurá-la, manchá-la, como se nunca tivesse existido como aconteceu. É verdade que na história cristã da Europa nem tudo foi graça, e também surgiram os pecados; nem tudo foi belo, mas também a fealdade se deixou ver; e a paz humilde teve de conviver com o poder violento. Mas no meio das ervas daninhas de todo o joio humano, Deus ensinou-nos a ter paciência e respeito com a semente que desponta decidida e vitoriosa como termo de toda a história. Cada Conferência Episcopal poderá ter na sua intervenção a ocasião para partilhar com todos nós aquilo que é mais significativo do ponto de vista cultural como contribuição eclesial e cristã para a Europa.

Dentro da Comissão de Evangelização e Cultura, precisamente na sua secção de Cultura no interior do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, desenhámos um projeto de narrativa: seria como um encontro com uma frequência ainda a definir, onde se publicassem os vários capítulos (ou seja, um livro) desta contribuição cultural desenvolvida pela Igreja ao longo de vinte séculos na Europa. Pensámos numa coleção na qual se possam oferecer sistematicamente os traços de quanto a comunidade cristã pôde construir do ponto de vista cultural no diálogo e inserção com outras culturas anteriores, coetâneas ou que tenham chegado mais tarde como novidade. Eis o plano deste projeto, que deverá ser ainda aprofundado, e procurar, de alguma forma, resolver as questões mais práticas respeitantes aos autores escolhidos para cada te-ma, os idiomas e as editoras que poderão lançar a publicação, os patrocinadores que possam facilitar o financiamento, etc.

 

Pedras vivas da Europa
História de uma geografia

1. Entre a nostalgia e o esquecimento: a memória viva

Antes de tudo, é preciso justificar esta narrativa, dado que nos interessa fazer uma memória viva de quanto os cristãos europeus fizeram culturalmente. Podemos permanecer reféns do passado ou podemos esquecê-lo completamente. Há uma terceira via: fazer uma memória viva, com gratidão serena relativamente a um passado, com esperança que se amplia para o futuro, e com a paixão para continuar a escrever no presente uma história ainda por concluir.

Porque toda a história tem uma geografia, assim como cada tempo tem um espaço. A Europa é uma encruzilhada onde os caminhos do homem e as culturas se entretecem. Neste primeiro volume pode fazer-se uma apresentação da nova coleção, procurando compreender o que representam os séculos da Europa cristã, com as luzes e as sombras, as graças e os pecados, mas oferecendo uma síntese bela daquilo que constitui o património cultural próprio do cristianismo. Evitar a nostalgia de quem olha apenas para o passado e o esquecimento de quem não consegue herdá-lo para poder continuar a escrever uma história viva.

 

2. O encontro com as outras culturas: de Atenas e Roma ao mundo bárbaro e o Islão. Da modernidade à pós-modernidade

Não temos a pretensão de ser os únicos, os sós e solitários no palco da história deste velho continente. Foi assim que o caminho cristão teve de se confrontar com mais realidades que existiam antes, ou que chegaram depois. Com efeito, a chegada do acontecimento cristão produz um inevitável encontro entre duas culturas precedentes que representavam o mundo clássico: Roma e Atenas. Aí se verifica toda a riqueza dos seus valores, mas também o rosto das suas decadências. Igualmente, chegarão mais tarde outras duas culturas que também significaram um confronto diferente: o mundo Bárbaro do norte e a aparição do Islão.

A aparição da modernidade introduz uma mudança que, progressivamente, se emancipa de tudo aquilo que durante séculos foi edificado num continente de claras raízes cristãs. Tudo quanto se desenvolveu durante os três últimos séculos a partir do denominado Iluminismo mudou profundamente a cena cultural na qual o cristianismo tinha vivido até então. O crepúsculo das ideologias e o nascimento do niilismo pós-moderno é um novo desafio cultural para os cristãos.

 

3. O nascimento de uma cultura própria: identidade e diálogo na filosofia e antropologia cristã

Após a ascensão de Jesus, com o envio missionário que Ele dirigiu aos primeiros discípulos apóstolos, nasce de modo inevitável o confronto com outras culturas. Não se deveria desconhecer os desafios que provocavam as culturas precedentes ou contemporâneas, nem acabar na confusão de uma síntese impossível.

Em cada momento dos seus vinte séculos, com mudanças históricas, o cristianismo conseguiu, aos poucos, delinear uma cultura própria enquanto verdadeira “weltanschauung”, uma cosmovisão que compreendia a relação com o Mistério revelado em Cristo, uma maneira nova de olhar o ser humano, e também uma maneira diferente, mas reconhecível, de escrever a história. É importante sublinhar os pontos firmes teológicos e filosóficos que definem a cultura cristã como um facto novo que se introduz na história, a fim de que se possa oferecer a partir da sua identidade específica um diálogo com todos. Aqui encontramos uma linha condutora própria de pensamento, quando a partir da perspetiva cristã emergem em categorias filosóficas as grandes perguntas que se colocavam os clássicos greco-romanos em torno à beleza, à bondade, à dor, à morte, à eternidade. Daqui nasce de modo original uma antropologia diferente que alimenta a cultura específica cristã.

 

4. Os mestres da certeza: Bento, Francisco e Inácio

Também no cristianismo há nomes que representam as várias posições nas quais a novidade cristã é sempre atual. É a eterna mensagem do Evangelho narrada de maneira nova e contemporânea ao mesmo tempo. Uma verdade que nunca muda, numa expressão capaz de a poder narrar criativamente com uma fidelidade que não trai nem engana.

Paul Ricoeur falou dos «mestres da suspeita» (Marx, Freud e Nietzsche), que determinaram a filosofia e o pensamento destes últimos séculos. Perante estes autores e os seus pressupostos, a história cristã afirmou sempre os três referentes em torno dos quais construiu culturalmente uma história diferente. Assim, podemos falar também dos “mestres da certeza”. Trata-se de Deus como absoluto que S. Bento e os seus monges assinalaram e celebraram. Também o ser humano como irmão, que S. Francisco, juntamente com os seus frades intuíram e viveram. E, por fim, o mundo como uma história inacabada em direção da qual se deve avançar em dinâmica missionária, como descobriram Santo Inácio e os seus companheiros. Há aqui uma alternativa cultural que não suspeita nem refuta, mas é certa e complementar: o amor a Deus, com o irmão que Ele colocou junto a mim, pela missão à qual somos enviados. Daqui nasce um modo diferente de olhar para a Europa e de a construir.

 

5. A expressão artística: arquitetura, pintura e escultura

Não somos cegos incapazes de ver. Levando por diante a concreção de quanto o cristianismo contribuiu para a cultura europeia com as raízes próprias, emerge também a dimensão artística nas suas diversas manifestações: a arquitetura que concebe e constrói as cidades de modo pluriforme, a pintura que expressa plasticamente o gosto pelas formas, e a escultura como visão icónica quer de Deus quer do ser humano. A história da arte na Europa seria incompreensível sem o cristianismo, e manifesta como com a expressão da beleza se pode narrar tudo aquilo que significa a cultura.

 

6. A literatura nas suas diversas narrativas, a música com as suas chaves

Na arte da literatura há também um contributo precioso que recria uma visão do mundo, do ser humano, e também uma relação com o Mistério de Deus. Os grandes temas antropológicos, como a vida, a morte, a dor, o ódio, a liberdade, a esperança, a fé, etc., são o argumento que, progressivamente, une o discurso que da poesia, da prosa, da narração histórica ou da narrativa ficcionada emergem nos diversos temas literários através dos quais se oferece uma importante e interessante contribuição cultural cristã. Paul Claudel falava dos «complices de Dieu», os cúmplices de Deus, a propósito da noite. A música também representa esta cumplicidade cultural, porque ela tem um registo capaz de exprimir no pentagrama, e na execução orquestral e coral, uma sinfonia de cores e sentimentos com os quais o artista compositor e os artistas executantes manifestam aquilo que pulsa dentro do homem, traduzindo em música as exigências irrenunciáveis do coração humano. A Europa oferece, através dos diversos compositores, este contributo cultural: do canto gregoriano até à música barroca, de uma canção ou “lied” amoroso até a um canto de protesto e liberdade.

 

7. A ciência ao serviço do desenvolvimento autêntico do ser humano

A história da humanidade é também uma história de busca em todos os campos. Seja quando se observa o universo através das estrelas e o mundo sideral, seja quando se procura descobrir as leis que regem as alterações das estações climáticas, seja quando se quer curar um corpo no seu mistério que recorda a fragilidade humana, desde sempre o ser humano foi “curioso” do ignoto e mendicante das suas provocadoras interrogações. O desenvolvimento das ciências através dos séculos que abarcam o tempo do cristianismo tem também protagonismo no campo da medicina, astronomia, física, natureza, incluindo todos os recursos e meios com os quais esta evolução foi consolidada. Há, portanto, uma cultura da ciência que se coloca ao serviço do desenvolvimento e do progresso autêntico da humanidade, como uma humilde colaboração com o Criador, que nos chamou a aperfeiçoar a criação que deixava nas nossas mãos. É interessante particularizar como os cristãos estiveram na linha da frente nestes campos da ciência, contribuindo para a cultura com um modo distinto de trabalho e de investigação que brota da paixão pelo ser humano e pelo seu progresso.

 

8. A economia que nasce da comunhão “política” (não partidarista)

Poderia parecer uma questão completamente estranha ao acontecimento cristão e a quanto o cristianismo procurou propor do ponto de vista cultural, mas a economia é um modo de construir a cidade na justa correspondência entre propriedade e solidariedade, igualdade e diversidade, autonomia e comunidade. Quando a economia é um jogo de interesses, torna-se egoísmo não solidário que favorece o poder dos poderosos, reduzindo os direitos e a possibilidade dos pobres em todos os sentidos. A redução da economia às estratégias dos partidos impede uma autêntica e pacífica convivência entre os povos, fonte de muitas guerras e conflitos desumanos. O Papa Francisco recordava-o no “motu próprio” respeitante ao novo Dicastério: «Em todo o seu ser e agir, a Igreja é chamada a promover o desenvolvimento integral do homem à luz do Evangelho». É aqui que a história cristã tem escrito páginas importantíssimas para acompanhar uma cultura que chega a um modo original de construir a cidade, não de um ponto de vista político partidarista, mas a partir da “comunhão política” que exprime uma economia solidária e de comunhão.

 

9. Um direito ao serviço da harmonia e da justiça

Também do direito emanaram muitas vias jurídicas através das quais a dignidade e a liberdade do ser humano foram protegidas e garantidas num ordenamento que tutela a justiça nas diversas relações e correspondências entre os seres humanos e a sociedade. Quando surge uma dúvida, ou quando capta uma transgressão, permanece sempre uma referência última na norma positiva com a qual as pessoas podem conciliar os vários direitos e deveres, para chegar a uma convivência adulta e equitativa. A cultura cristã souber gerar também princípios de jurisprudência com os quais o direito jurídico desempenhou um serviço precioso em benefício da harmonia e da justiça entre os seres humanos e os povos.

 

10. O rosto da misericórdia: quando o outro se torna irmão

Trata-se de uma das pedras angulares da novidade cristã, como consequência da Incarnação de Deus. Jesus fez-se homem sem perder a sua condição divina, a fim de que os homens possam relacionar-se e tratar-se como o próprio Deus nos acolhe. A tentação de Caim reproduz de múltiplas maneiras o olhar do outro como um olhar fragmentário, hostil, indiferente, adversário. Mas o facto cristão introduz na história um fator novo, vendo no outro um próximo que é irmão, complementar da diversidade original de cada um. A história bimilenar do cristianismo descreveu com beleza e paixão como se manifestou misericordiosamente uma verdadeira fraternidade, através dos gestos e das obras que abriram uma original educação e serviram como uma redenção fraterna em muitas relações destruídas e vidas fraturadas.

 

11. O caminho da educação dos valores cristãos

A história da Europa é também uma história repleta de contrapontos e contradições, em que muitas vezes, talvez excessivas vezes, quis ser protagonista a luta pelo poder, a guerra como instrumento, a violência em todas as suas formas. Apesar disso, o cristianismo nunca deixou de anunciar a paz e denunciar a violência, ainda que se trate de um pirrónico triunfo demasiado pobre e muito breve. Porém, a “batalha pela paz” faz também parte de um dos objetivos mais acarinhados por parte do povo cristão. Para esta aspiração, a educação foi sempre determinante: uma educação integral que abraça todos os fatores da pessoa, acompanhando os diversos aspetos que compõem toda a personalidade: a liberdade, o afeto, a consciência, a inteligência, a transcendência, etc.

 

12. Peregrinos do Absoluto: lugares e rostos

Johannes Wolfgang von Goethe dizia que a Europa emerge ao peregrinar para Santiago de Compostela. Juntamente com a peregrinação a Roma, supõe uma espécie de parábola do significado de um povo sempre a caminho. Todavia, não se faz uma peregrinação sem meta, mas os passos encaminham-se para um lugar determinado que é significativo para a história que lhe deu realidade, e esse acontecimento é salvaguardado. O mesmo se diz em relação às pessoas que também tiveram uma grande relevância por aquilo que representaram as suas vidas como testemunho de um Evangelho vivido. São lugares e são rostos, verdadeira meta dos pés peregrinos dos cristãos, que assim fazendo criaram cultura na Europa.



 

(1) FRANCISCO, Evangelii gaudium, 223.
(2) FRANCISCO, Discurso na Sala Régia, Vaticano, Entrega do Prémio Carlos Magno, 6.5.2016.
(3) Cf. M. PERA – J. RATZINGER, Senza radici. Europa, relativismo, Cristianesimo, Islam (Mondadori. Milano 2004) 60-61.
(4) Cf. J. SANZ MONTES, La fidelidad creativa (BAC. Madrid 2017).
(5) Z. BAUMAN, Vida líquida (Austral Paidós. Madrid 2016). 
(6) G. LIPOVETSKY, El crepúsculo del deber: la ética indolora de los nuevos tiempos democráticos (Austral Paidós. Madrid 2016).
(7) S. JOÃO PAULO II, Novo millennio ineunte, 1-3.

 

Fr. Jesús Sanz Montes, ofm
Arcebispo de Oviedo (Espanha), diretor da Secção de Cultura da Comissão de Evangelização e Cultura do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE)
Estrasburgo, França, 28.11.2018
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Igreja da Cedofeita, Porto | P. Joaquim Félix
In Observatório da cultura, n. 24 (abril 2019)
Publicado em 02.05.2019

 

 
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