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A fé de Deus em Job

A figura de Job costuma surgir, e bem, como paradigma humano da confiança, em termos humanos gerais; da fé, em termos religiosos cristãos. O que não é costume é pôr a questão da fé do lado de Deus. No entanto, muito pouco se compreende do que está em causa nesta relação entre pessoas se não se puser a questão da reciprocidade de fé de Deus relativamente a Job.

Sem que Deus funcione nesta relação em ato de fé – a simples confiança, laica, não pertence aqui –, tal relação é imediatamente pervertida em algo como um ato de fingimento de um Deus controlador de destinos predeterminados, que, sadicamente, faz alguém, sobretudo alguém inocente, sofrer.

Como é evidente, tal retrato “de Deus” faria de tal figura algo de inferior ao pior dos seres humanos. Tal figura seria tudo menos isso a que o ser humano já conseguiu chegar, por revelação ou intuição autónoma, acerca do que isso de “Deus” é, acerca do que algo tem de, ontologicamente, ser para que possa ser «Deus» e não uma “coisa qualquer” a que se chame «Deus».

Como é, também, evidente, o que aqui está em causa é mesmo muito sério, quanto ao sentido universal de isto a que chamamos «mundo» e «de nós» nele e com ele.

Ora, é precisamente o que a narrativa presente no Livro de Job faz: pôr em causa o absoluto do sentido possível para o mundo e o ser humano, nele e com ele. Nesta obra, tudo é muito sério e não há ocasião para fugas ou fingimentos.



Não é humanamente possível ir mais longe e, assim, o Deus de bondade, tendo Job superado todo o mal possível, liberta-o da provação, louva-o e mundanamente recompensa-o, a fim de que o mundo que o negou, isto é, os negou, a Job e a Deus, seja posto perante a evidência da bondade



A obra começa precisamente pela manifestação divina da grandeza ontológica de Job. Segue-se, em representação dos que não acreditam em tal bondade, assim também, na própria palavra de Deus, a manifestação de uma reiterada desconfiança satânica. Satã, que apenas atua funcionalmente nos dois primeiros passos do acrisolamento de Job, representa todos os seres humanos que se lhe seguem na ação do massacre político a que Job é sujeito, para que se prove se é mesmo bom, mesmo tendo sido, precisamente, proclamado como bom por Deus, em proclamação em que ninguém acreditou (função satânica ou, melhor, habitual ação política satânica da humanidade para com a humanidade).

O próprio Deus, disfarçado de «Deus dos homens satânicos» (não confundir com o Deus de bondade que proclamou Job bom), termina a satanização política de Job, levando a provação de fé (e amor) ao seu extremo inultrapassável, quando lhe surge e, em vez de o premiar pela sua fidelidade e bondade reiteradas no mais profundo sofrimento, o humilha comparando a pequenez da criatura à grandeza do criador.

No entanto, fazendo jus à proclamação do Deus de bondade, Job mantém-se fiel ao Deus a que sempre fora fiel, mesmo quando tal Deus se lhe revela indigno de tal fidelidade. Não é humanamente possível ir mais longe e, assim, o Deus de bondade, tendo Job superado todo o mal possível, liberta-o da provação, louva-o e mundanamente recompensa-o, a fim de que o mundo que o negou, isto é, os negou, a Job e a Deus, seja posto perante a evidência da bondade quer de Job quer de Deus.

Pelo caminho, por causa da maldade das criaturas que não acreditaram em Deus e em Job, ficou o sofrimento deste – algo de absoluto, e querido como tal para marcar a fogo a bondade de um e a maldade dos outros, sempre inseparáveis – e a morte, irresgatável, dos seus filhos.

É este o retrato fiel do que são as comuns relações humanas, salvo raras exceções, mais raras do que comummente se pensa (por exemplo, a epopeia lusíada termina com o termo «inveja»).



O que o Livro de Job faz é impedir que a humanidade, a criação em geral e o próprio Deus sejam transformados em anedotas por quem mais inteligência não tem do que a mulher de Job, seus falsos amigos ou mesmo o triste funcionário celeste, Satã



Pergunta-se, então, se Deus, o de bondade, o verdadeiro, pois, sem bondade, não há Deus, há apenas satãs medíocres, não tivesse fé no seu servo Job, teria lançado a um mundo que sabia satânico, salvo precisamente Job, a sua voz, a sua palavra, manifestando a grandeza deste?

Porquê «fé»: então Deus não sabia que Job lhe iria ser fiel? Se soubesse, a fidelidade de Job seria falsa, criada por Deus para se autossatisfazer, como se autossatisfaz o comum satazinho tiranete, semelhante aos falsos amigos de Job, semelhante a mim, quiçá, a nós.

A omnisciência de Deus, que é o que está aqui em causa, não é uma omnisciência de factos, antes de estes sequer poderem ocorrer, mas uma omnisciência de possibilidades, infinita em ato, como tal, mas impassível de antecipar factos, pois tal corresponderia à própria criação de tais factos, assim os anulando como algo independente: Job seria uma anedota.

Ora, o que o Livro de Job faz é exatamente impedir que a humanidade, a criação em geral e o próprio Deus sejam transformados em anedotas por quem mais inteligência não tem do que a mulher de Job, seus falsos amigos ou mesmo o triste funcionário celeste, Satã.

O Deus em que vale a pena acreditar, esse que merece a nossa fé em ato infinito, se possível, esse é o mesmo em que Job acreditou, não um qualquer ídolo criado pela projeção das fraquezas humanas, mesmo que criadas a partir de antropológicos umbigos deslumbrados por uma grandeza ampliada pela inveja relativamente à grandeza real dos nossos semelhantes.

Depois de Job, toda a idolatria deveria ser impossível a um ser inteligente; mas os espelhos deslumbram os olhos incapazes de olhar o sol.


Imagem "Job fala com a sua mulher" | Georges de la Tour

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: "Job fala com a sua mulher" | Georges de la Tour
Publicado em 21.01.2019

 

 
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