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Rumo ao amor, dia 26: A fraternidade

O pecado clássico de muitas religiões é fazer coincidir a santidade com a separação. O nome “fariseus” em hebraico quer dizer “separados”. O separar distintamente o bem do mal. Estas nossas rigidezes estão presentes de cada vez que se tem medo da diversidade, enquanto a única verdadeira preocupação deveria ser, não a de separar-se, mas de abrir-se a Deus.

Na realidade, sabemos bem que a linha de fronteira do mal passa no meio do coração de cada ser humano, e nenhum de nós pode iludir-se quanto a estar totalmente do lado de cá ou de lá.

Cada pessoa tem consigo o seu ser nobre e ignóbil, a sua parte forte e fraca, madura e imatura, e a aspiração a crescer.

Fraternidade é o colocar-se diante do outro, dos seus cansaços, dos seus problemas, dos seus ideais, e caminhar com ele rumo a um recíproco crescimento de vida.

Jesus é antes de tudo comunhão, não veio à Terra para criar uma nova religião, para para suscitar uma comunhão de amor.

Na comunidade de Jesus não há os onze mais Judas, mas os doze com Judas, para nos recordar que o mal não se pode arrumar dentro de fronteiras que separam os indivíduos, o mal ultrapassa extravasa para o coração dos seres humanos, de todos os seres humanos.



Somos diferentes em temperamento e mentalidade, não somos nem perfeitos, nem heróis, nem puros. A nossa proveniência de experiências diferentes não nos deve impedir de participar numa comunhão superior



Somos marcados pelo limite que somos, somos todos uma tentativa de recriar, uma transformação em ato, e o ser humano deve convencer-se de que a sua tarefa não é conquistar Deus, mas deixar-se encontrar.

Muitas vezes temos uma estrutura humana e espiritual que nos faz sentir como uma cidade forte, queremos fazer as coisas sozinhos, queremos caminhar, movermo-nos, construir, realizar, mas quanto mais alguém se sente uma cidade forte, mais se fecham as portas, deixando de confiar e eliminando a docilidade. Quando se cira um oásis, chegam os ídolos, e cessa a abertura, a confiança, o aninhar-se entre os joelhos de Deus.

A crise cristã de hoje não é tanto das estruturas, que podem ser mudadas; o problema não é ser precisa uma organização melhor; o verdadeiro problema é de fé, de confiança, de abandono, o objetivo é conseguir construir uma comunidade com as portas baertas, que confia e encontra a verdadeira segurança só em Deus.

Não é fácil estarmos calmos, não nos agitarmos em demasia, evitar por vezes exprimir a sua opinião, poder dizer: não sei.

O pão de que cada pessoa tem fome é o de uma fraternidade verdadeira e sincera que nos ajude a viver, a morrer e, sobretudo, a nascer de novo.



Gostava que a nossa fraternidade tivesse como referência a experiência de Jesus no Tabor. Como naquele monte, o convite é para conduzir os amigos para o alto, fora do rumor, e fazer ver-lhes o seu verdadeiro rosto, fazer sentir como «é belo estarmos aqui



Somos diferentes em temperamento e mentalidade, não somos nem perfeitos, nem heróis, nem puros. A nossa proveniência de experiências diferentes não nos deve impedir de participar numa comunhão superior.

Jesus trabalhou sempre  para que realizássemos uma fraternidade que se exprimisse em atenção.

Uma fraternidade requer modéstia, discrição, reconhecimento pelo valor que cada pessoa tem dentro de si. Não deve haver proprietários da verdade, mas buscadores. Requer que os responsáveis estejam ao serviço dos outros, e que a grandeza de uma pessoa não se meça naquilo que é evidente, mas oculto.

A atenção maior deve ser para a pessoa mais doente, até que seja curada, para a que mais esteja à parte, até que se abra aos outros, para a mais avara, até que se torne generosa, para a mais imatura, até que cresça, para a mais morna, até que se deixe inflamar pelo fogo do Espírito.

Gostava que a nossa fraternidade tivesse como referência a experiência de Jesus no Tabor. Como naquele monte, o convite é para conduzir os amigos para o alto, fora do rumor, e fazer ver-lhes o seu verdadeiro rosto, fazer sentir como «é belo estarmos aqui». Tocá-los e dar-lhes força, tirando-lhes o medo. Depois, sem criar tendas, voltarem a viver no seu pequeno espaço quotidiano.



Consola-nos o facto de que Jesus envia como testemunhas aqueles que conheciam o medo e a fraqueza, pedindo-lhes para serem presenças silenciosas no caminho das pessoas



Somos diferentes em temperamento e mentalidade, não somos nem perfeitos, nem heróis, nem puros. A nossa proveniência de experiências diferentes não nos deve impedir de participar numa comunhão superior.

Gostaria de um fraternidade que fosse simplesmente aquele grão de mostarda do qual nasce uma árvore «onde os pássaros do céu possam repousar-se à sua sombra»; gostaria que as pessoas encontrassem em nós um espaço de liberdade, um refúgio nos momentos de desencorajamento; gostaria que quem quisesse pudesse encontrar um lugar para cantar, e a nossa única palavra fosse: “Effatà”, abre-te.

Gostaria que ao final de cada dia nos sentíssemos servos inúteis, para permanecermos livres e soltos: livres do peso insuportável de ter de responder a todo o custo a todas as expetativas, de estar sempre perfeitamente à altura de todos os desafios de cada tempo. Um sentir-se insuficiente que nos fá alegria, confiança, e não perturbação, porque não nos cabe salvar o mundo, e não devemos carregar o peso do mundo aos ombros; nem temos de renovar a face da Terra, mas ser simplesmente pessoas d eboa vontade, com o fogo no coração e a profecia no olhar.

Consola-nos o facto de que Jesus envia como testemunhas aqueles que conheciam o medo e a fraqueza, pedindo-lhes para serem presenças silenciosas no caminho das pessoas.

A fraternidade que muitas vezes sonho, em segredo, sem o confessar sequer a mim mesmo, é algo de muito simples: um oásis da paz, onde possam repousar Deus e o ser humano.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Romena, Itália | D.R.
Publicado em 22.03.2020

 

 
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