A fratura entre a fé e a vida
A sensibilidade mais ou menos partilhada e que hoje preside à avaliação espontânea de situações e acontecimentos faz prevalecer a vida concreta e imediata sobre as ideias, as emoções sobre o intelecto, a transgressão sobre a transcendência. O momento feliz e intenso, aqui e agora, sobressai claramente sobre a eternidade, tal como a pluralidade sobre a unidade ou o sentimento sobre a vontade. Potenciar novas experiências prevalece sobre a moral ascética e proibitiva. A abertura ao possível e a vertigem do instante sobressaem sobre a iniciação exigente à escuta de uma possível verdade do ser e da existência.
Nesta nova paisagem contemporânea, o sinal maior da crise parece-me exprimir-se na fratura entre a fé cristã e os lugares e ritmos da existência humana quotidiana e elementar. Trata-se de um rasgão aberto no tecido de que é feita a vida concreta e que separa dramaticamente trabalho e oração, gestos quotidianos e rito sagrado, vida sensível e participação na vida do es pírito, dizer e tornar operativo, palavra Deus e ressonância afetiva e efetiva de um apelo absoluto. Saber e poder articular as duas margens pelo meio das quais passa o caudal da existência, sempre mais apressada, sempre mais líquida, sempre mais instável e, talvez, também, sempre mais insatisfeita, deixou de ser sabedoria comum e elementar. Para o meu avô, no bem e no mal, as formas de mediação e os seus legítimos representantes eram claros. Para a minha geração já são profundamente problemáticos.
Face à mudança radical, a vida quotidiana deixou de encontrar na fé cristã a força e a forma de uma existência que valha a pena. Por outro lado, a fé sente a dificuldade crescente em ter voz no capítulo para dar razões da sua esperança, com sensibilidade e sensatez, nos lugares em que a vida acontece, nas relações que tece, nas práticas comunitárias que gera. É como se a verdade que professa tivesse deixado de ser pertinente e relevante, vitalizante e operativa. Entre as palavras e gestos do quotidiano e as formas e lugares do transcendente, instalou-se um abismo que, como terra desconhecida e desabitada, passou a ser bem de uso e abuso nas mãos de todo o tipo de charlatães e aprendizes de feiticeiro que, obviamente, não dispensam dividendos contabilísticos.
Com demasiada facilidade, com razão ou sem ela, a fé cristã é identificada, e infelizmente não apenas por quem se diz descrente, com um fundo ideológico ou com uma devoção irrelevante. Compreendida e identificada, para além do limite aceitável, com uma doutrina a saber, com prescrições morais a pôr em prática, com tradições a preservar, com formas de representação hierárquica a obedecer, a fé perde, de facto, a vida elementar dos homens e mulheres do nosso tempo, da qual pretenderia ser a luz e o sal. Ou porque não consegue ou porque não sabe como frequentá-la. Ou porque não vê como suportar e habitar a sua densidade, complexidade e ambiguidade. Ou, então, porque a encara como detalhe supérfluo e impedimento para uma verdadeira vida espiritual. Ou, ainda, e simplesmente, porque a considera totalmente corrompida e incapaz de acolher a verdade pura de que a fé seria depositária. Pelo caminho, Deus deixa de ser evidente. Demasiado grande ou demasiado pequeno, parece não ter nada a ver com a vida. Mais do que ausente é indiferente e inexistente.
Qualquer que seja a análise, os lugares e os ritmos da vida que a fé deveria assumir como o lugar da epifania de Deus no meio de nós acabam por ser dramaticamente removidos. Ou, então, se compreendidos ainda como lugar que à fé diz respeito, são facilmente privados da sua densidade por um registo paternalista e moralizante, devocionista e espiritualizante. Como consequência, nascimento e morte, sexualidade e geração, culpa e alegria, investimento e derrota, felicidade e desencanto são lugares que se recusam a ser lidos – ou não sabem como ler-se – e ainda menos vividos, de forma cristã. Não são reconhecidos, portanto, nem como realidades tocadas pela graça, nem como lugares de uma esperança escatológica.
Face à situação de fratura que mexe com o mistério central da encarnação, surge a pergunta: o que poderemos esperar ainda do Cristianismo? Que lugar caber á ainda ao Evangelho e à fé? Seremos nós os últimos cristãos? Seguramente que não. Mas seremos, possivelmente, os últimos de um certo estilo de Cristianismo, do qual nos cabe pagar uma parte da fatura. Este é o preço que os cristãos sempre deverão pagar, porque não há forma de incorporação do Verbo e de discernimento do Espírito que não se exponha à ambiguidade e ambivalência dos movimentos da nossa liberdade e das suas realizações. De qualquer modo, o que seremos não poderá não habitar a história que hoje vivemos, porque, qualquer que seja o momento em que o Cristianismo viva, e não há para ele tempo ideal porque cada tempo é tempo propício, esse é a única carne viva na qual pode e deve encarnar a verdade que salva.
José Frazão Correia
In A fé vive de afeto, ed. Paulinas
09.10.13









