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A imaginação do acreditar

Há notícias que transformam o passado em presente com tal intensidade que nos sentimos pesarosos, comovidos e de olhos turvos. Foi numa das minhas viagens pelo Próximo Oriente e a caminho da Índia, há já muitos anos, que, estando eu em Istambul, passeei pelo Grande Bazar repleto de odores, cores, sorrisos e efervescências, caminhei pela ponte que une dois continentes e fiz uma breve mas intensa visita à Basílica Santa Sofia, onde a beleza se une à transcendência, em simbologia de perene diálogo entre o Ocidente e o Oriente. Com o coração ainda a transbordar de introspeção, entrei num navio de carga que me levou, ao longo de três dias, pelo Mar Negro, atravessando o estreito de Bósforo e deixando-me na cidade de Trabzon, de onde segui, por estradas escorregadias, atravessando montes nevados, até Erzurum, cidade repleta de fumo dos aquecedores a carvão com que os habitantes combatiam o frio do inverno.

O cargueiro deslizava implacavelmente pela superfície das águas escuras. Eu observava aquela imensidão, como que placa de cor cinzenta, estática, refletindo o cinzento do céu, como que pintura a carvão, e procurava acomodar-me ao movimento da madeira do convés e conter a indisposição. Agucei a imaginação e deixei-me por ela guiar. Daquele chão ondulado brotava uma mão possante que rasgava a superfície em busca de libertação: era o Nascimento de Prometeu, tema que se me viria a tornar um visitante fiel. Mais tarde, nasceria uma pintura a óleo sobre tela, a par de outras técnicas e cores, de outros ímpetos e voos. Instante relampejante, em que o tempo se fundia num presente, cuja memória é, agora mesmo, presente. Na pintura referida, a superfície não era de mar, mas sim de deserto; as cores eram quentes, fogosas, agressivas, ansiosas. Mas as entranhas eram as mesmas: uma tentativa de mergulhar na plenitude da minha vacuidade, de experimentar uma comunhão com as sombras ameaçadoras das minhas salas secretas. Bebi o ardor daquela água espelhante e tenebrosa para me banhar nas minhas funduras. A busca; sim, era a busca que me levava a imaginar aquele Nascimento de Prometeu, me inebriava e me deixava nostálgico e com ânsia de mais, perante a inapreensibilidade de tanta e tão estranha beleza, tal como já tinha sentido na Santa Sofia. Indizível fulgência... Como não pensar na composição de Scriabin Prometeu: o poema do fogo, onde o compositor junta à música, a luz e as cores, numa tentativa para aumentar o efeito do tom musical mediante o efeito do tom colorido correspondente? E o seu «acorde místico» ansiando por novas elevações...



Imagem © Adelino Ascenso


Era envolto em música que eu passava muitas noites a pintar – as minhas «noites brancas», para usar terminologia de Dostoievski –, sendo invadido por estranha e transcendente serenidade: era fome e sede e a necessidade de entender aquilo que Santo Efrém tão bem descreve: «O sedento que bebe da fonte, muito mais é o que perde do que o que toma». Aquela Necessidade Interior descrita por Kandinsky, uma necessidade que nos empurra sempre e não permite que nos sintamos saciados (Do Espiritual na Arte). Dizia Goethe que a pintura deveria ser o «baixo contínuo». Tendo como base tal «baixo contínuo», talvez se atinja o êxtase espiritual quando há convergência entre a palavra escrita, o som e a imagem, aquele triângulo enigmático que nos impele e nos obriga a escavar, no encalço daquilo que está para além do horizonte audível, visível e palpável. Chega-se às antecâmaras da fé e pressente-se um estímulo ao aprofundamento das interrogações.

*

Arte e religião são duas irmãs inseparáveis, com relação difícil, embora perene. Penso que a dificuldade da relação entre elas se deve fundamentalmente a um problema de linguagem. Linguagem essa que muitas vezes estruturamos em conformidade com definições e preconceitos, em devorador esforço por limitar e dominar. Mas há campos que não se deixam limitar nem dominar, pois são eternamente livres, como o é a arte, que «foge diante dos imperativos, como dia diante da noite» (Kandinsky).



Imagem © Adelino Ascenso


O teólogo japonês Masao Takenaka escreve, no seu livro God is Rice, que uma das mais insólitas tendências na teologia é a tentativa de desenvolver um argumento racional sobre Deus. Ele acrescenta que, em ordem a discernir a realidade de Deus, que é a função da teologia, é imperativo que se desenvolva um método de apreciação pessoal e reconhecimento mútuo sobre o que está a acontecer na realidade da vida, método que está próximo daquele que tem a ver com a inspiração e a resposta artística. O problema permanece na questão relativa ao método de aproximação ao outro, ou seja, o problema permanece no campo da linguagem. Podemos agir de duas formas díspares: 1) com distância, desde fora, a partir da nossa apreciação, o que pode resvalar para uma atitude de sobranceria; 2) deixando-nos interpelar, envolver e dissolver. Podemos transpor isto ao campo da realidade de Deus e também o podemos fazer ao apreciarmos uma obra de arte: não procurarmos definir, desde fora, mas sim deixarmo-nos interpelar, desde dentro. É aqui que nasce uma relação de afinidade. Era essa a afinidade que eu sentira em Istambul, encostado às longas colunas que se erguiam em direção à imponente cúpula da Basílica: uma afinidade de diluição.

A imaginação é o facho ardente do artista, aquele que tem a função de explorar o invisível; a imaginação será como o «fio de Ariadne»: sem ela, corremos o risco de, ao entrarmos no labirinto, sermos confrontados e mortos pelo Minotauro do racionalismo granítico ou do sentimentalismo inconsistente. Com ela, mesmo diante de dilacerantes notícias, abre-se um horizonte de esperança. É com essa abertura à imaginação do acreditar que eu encerro este fragmento de mim; faço-o citando um poema recebido hoje mesmo: Atiro os meus sonhos à brisa/ Talvez regressem queimados neste relento de brasas// Mas eu acredito que o vento me entende,/ seja meu amigo e leve sementes escondidas nos dedos,/ para lugares de abrigo// Eu ainda acredito/ que o Amor desponte em pleno deserto,/ limpe o horizonte com flores de afeto.// (…) Eu ainda acredito!… (Conceição Baleizão).



Imagem © Adelino Ascenso

 

Texto e imagens: Adelino Ascenso
Publicado em 14.07.2020

 

 
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