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Rumo ao amor, dia 4: A lei do coração

Precisamos de pessoas atentas à complexidade da realidade em que vivemos, pessoas não superficiais, que não se contentem com felicidades consoladoras e ilusórias. São estas pessoas que podem criar as condições para que a porta do nosso coração se abra espontaneamente como pétalas de flores à luz da manhã, sem necessidade de caminhos transversais e furtivos para penetrar à força.

Pessoas que vão para além do organizar, governar o número e a massa, interessadas em cada singular ser humano.

«Uma das verdades fundamentais do cristianismo é que aquilo que salva é o olhar», dizia Simone Weil.

A adúltera e Zaqueu são salvos por um olhar, por aquele olhar de Jesus que não se resigna ao pouco de bom, ajudando os outros não só a sentirem-se si próprios, mas o melhor de si próprios, colocando a pessoa no centro da sua atenção.

A minha timidez, durante anos, levou-me a falar sem levantar o olhar, mas depois, após as crises, senti que é fundamental olhar nos olhos quem está diante de mim. Para não voltar a escapar, cada manhã procuro purificar o olhar, desvinculando-o do instinto da posse, e desarmando-o de toda a agressividade e dureza, para poder ter olhos que experimentem espanto pelo outro como inesperado.



Josué e João, precisamente eles, os mais próximos, tão fechados e egoístas como por vezes nós, da Igreja, que em vez de escutar o grito do homem, controlamos os documentos e fixamos as regras



«Curá-los-ei com o amor» (Oseias 14,2-10): esta é a lei do coração de Deus, que, conhecendo o homem melhor que nós, apesar de tudo continua a amá-lo, sabendo que: «Não sabem o que fazem…», e que são «como ovelhas sem pastor…».

Devemos ter o coração daqueles que habitam o mundo, um mundo que morre de miséria e de pesadume, e a que as palavras já não bastam: é precisa a coragem de «alguém que saia e plante a tenda do amor junto à do ódio» (Primo Mazzolari).

Devemos avizinhar-nos das pessoas com esta extrema sensibilidade, levando-lhes alegria, e não humilhação, a partilha, e não a ofensa dos benfeitores, cessando de gritar contra os vícios dos outros sem suspeitar que talvez aquele homem não consiga ser diferente.

Dois textos da Sagrada Escritura dizem-me para permanecer humilde e aberto. Uma vez, Josué, filho de Nun, que desde a sua juventude estava ao serviço de Moisés, vendo que o Espírito tinha pousado sobre duas pessoas que estavam fora da sua tenda, disse: «Senhor meu, impedi-os» (Números 11,28). Noutra ocasião, João responde a Jesus, dizendo: «Senhor, vimos alguém que expulsava os demónios em teu nome, e proibimo-lo, porque não era dos nossos».

Josué e João, precisamente eles, os mais próximos, tão fechados e egoístas como por vezes nós, da Igreja, que em vez de escutar o grito do homem, controlamos os documentos e fixamos as regras.



Quando compreenderemos que aqueles que nós chamamos pecadores são sofredores, e que quem cai em desgraça não tem pai nem mãe?



As pessoas procuram Deus na sua tribulação, choram, pedem ajuda, pedem felicidade e pão, salvação da doença, da culpa, da morte. Assim fazem todos, cristãos e pagãos, e Deus avizinha-se de todos os homens na sua tribulação, morre pelos cristãos e pelos pagãos e a todos perdoa.

O que torna mau o homem?

Para compreender o problema do mal, devem considerar-se as pessoas como tendo sido intrujadas, vítimas de uma sedução que lhes faz acreditar que só assim podem ser felizes.

Não por acaso, «a serpente era o mais astuto de tudo aquilo que tinha feito» (Génesis 3,1).

A Jesus vão os desesperados que, próximo a Ele, pensam poder reencontrar o chão debaixo dos pés. No meio, entre os desesperados e Jesus, estão os habituais justos que nunca negligenciam uma regra.

Nesta dissidência entre direito e desprezo, entre devoção e miséria, Jesus desejaria explicar a uma parte os sentimentos da outra.

Quando compreenderemos que aqueles que nós chamamos pecadores são sofredores, e que quem cai em desgraça não tem pai nem mãe?

«Não considereis a bondade uma pequena virtude», dizia o papa João.

Diante do homem disperso de hoje é-nos pedido para fazer o que Isaías diz: «Consolai, consolai…», e além de consolar, «falar ao coração», e depois de ter falado ao coração, «gritai» aos ouvidos que não foi feito para a mediocridade, e ainda mais, depois de ter gritado «preparai-lhe o caminho no deserto».



Acreditemos nAquele que tem a força de transformar um pecador em justo, um pescador em apóstolo, um cobrador de impostos em anunciador do Evangelho, um paralítico em alguém que o segue



Não sabemos dar muitos passos para conduzir uma pessoa por um caminho espiritual profundo, talvez porque este caminho nem sequer um de nós o está a fazer.

É-nos pedido ir à procura da ovelha perdida.

É-nos pedido de levar a vida por diante:
«Onde há ódio, eu leve amor…
onde há ofensa, o perdão…
onde há desespero, a alegria…».

É-nos pedido que não confundamos, também nós como os escribas e os fariseus, o pecado com o pecador. As pessoas não são pecado, as pessoas são medíocres, talvez fracas, não conseguem ser boas, mas não são pecado.

Acreditemos nAquele que tem a força de transformar um pecador em justo, um pescador em apóstolo, um cobrador de impostos em anunciador do Evangelho, um paralítico em alguém que o segue.

É-nos pedido para acompanhar as vicissitudes espirituais e psíquicas de qualquer um nosso companheiro de peregrinação, de partir o pão da fraternidade com todos, com as mesmas palavras de Jesus: «Tomai e comei todos… este é o meu corpo, oferecido por vós e por todos».

Sim, precisamente para todos, conscientes que a mansidão e a misericórdia são as únicas virtudes que ampliaram os limites de cada comunidade.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: “Hearts of the revolutionaries: Passage of the planets of the future” | Joseph Beuys | 1965 | Tate Modern, Londres, Reino Unido | D.R.
Publicado em 28.02.2020 | Atualizado em 29.02.2020

 

 
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